Rodrigo Ratier

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O resultado foi mais um balde de água fria para quem trabalha com Educação. Em janeiro, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) divulgou o índice de desenvolvimento da Educação de 128 países. O Brasil aparece na incômoda 88ª posição, perto de Honduras (87ª), Equador (81ª) e Bolívia (79ª) - e longe dos nossos vizinhos Argentina (38ª), Uruguai (39ª) e Chile (51ª). Para chegar a esse resultado, a Unesco usou quatro indicadores. Em "atendimento universal", "taxa de analfabetismo" e "igualdade de acesso à escola entre meninos e meninas", até que estamos bem. Porém a chamada "taxa de sobrevivência" (alunos que ingressam no 1º ano e chegam ao 5º no prazo previsto) derruba o Brasil no ranking. A óbvia conclusão, confirmada por todos os testes de avaliação, é que o ensino brasileiro está longe de garantir a aprendizagem de todos os estudantes.
Alcançar a qualidade não é uma tarefa fácil. Requer tempo e ações integradas, da formação de professores à infraestrutura, da questão salarial à gestão escolar. E a nota boa não vem de graça: exige investimento - em uma quantidade bem maior que a atual. Não há país que tenha conseguido um salto sem seguir essa receita. O exemplo recorrente é o da Coreia do Sul. Para superar a desolação pós-Guerra da Coreia (1950-1953), o governo dedicou 10% do Produto Interno Bruto (PIB) à Educação... por uma década.
Por lá, a virada começou antes, com uma lei que concentrou os investimentos nos seis primeiros anos de escolarização, tornados obrigatórios e gratuitos a partir de 1949. Por aqui, a solução clássica para garantir mais recursos tem sido definir, também pela legislação, um valor mínimo. No início, até que funcionou. Estipulada pela primeira vez na Constituição de 1934, essa exigência ajudou a assegurar um bom padrão de ensino na rede pública até os anos 1960. Mas, naquela época, a escola era para poucos: apenas 60% das crianças e dos jovens de 7 a 14 anos, segundo dados do Censo de 1970. Só em 1971 o Brasil regulamentou (novamente, por força de lei) o ensino obrigatório de oito anos para toda a população - algo que demorou mais de duas décadas para se tornar realidade. Entre outras coisas porque quatro anos antes o governo militar havia derrubado a exigência do investimento mínimo. Em 1965, quando a regra ainda estava em vigor e havia menos gente estudando, as despesas da União com a Educação eram da ordem de 10% do gasto total do governo. Dez anos depois, com mais gente nas salas de aula, o valor tinha caído para 5%. Os efeitos desse processo afetam o dia a dia dos educadores até hoje: escolas sucateadas, turnos de aula multiplicados, salários baixos e fuga da classe média da escola pública.
Restaurada em 1983, a vinculação de recursos assumiu o "jeitão" atual com a Constituição de 1988. Nela, está escrito que estados e municípios devem investir em Educação pelo menos 25% dos impostos arrecadados - para a União, o número é 18%. Em 2007, último ano com dados já consolidados, isso representou 3,9% do PIB, faixa semelhante à que é investida, em média, pelos membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne as 30 nações mais desenvolvidas do mundo. Só que eles têm sistemas de ensino que funcionam muito melhor do que o nosso há muito mais tempo (Dinamarca e Suécia, por exemplo, conseguiram universalizar os anos iniciais do Ensino Fundamental ainda no século 19). Por aqui, ainda temos de recuperar o tempo perdido e resolver problemas como o analfabetismo - que afeta 15 milhões de brasileiros. Além disso, porque temos muito mais estudantes, tanto em números absolutos (são 52 milhões só na Educação Básica) como em termos proporcionais (27% da nossa população está em idade escolar, contra 19% na média dos países da OCDE). Daí a diferença gritante no gasto por aluno (como se pode ver no gráfico abaixo).
Diante disso, o que deveríamos fazer? A mesma Unesco que criou o índice de desenvolvimento da Educação considera desejável investir 6% do PIB. Já para a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que reúne diversas organizações da sociedade civil, é necessário chegar a 8% do PIB. A proposta prevê ainda uma lógica diferente no aporte de recursos: em vez de dividir o orçamento disponível pelo total de alunos atendidos (valor que depende da arrecadação de impostos e, portanto, varia ano a ano), definir os recursos indispensáveis para garantir o sucesso escolar (uma referência estável que inclui o pagamento dos docentes, obras nas escolas etc.).
Evolução do gasto por aluno*
Apesar do aumento recente, ainda estamos atrás de vizinhos como o Chile e muito distantes de Finlândia e Coreia do Sul, campeões dos exames.

Queda de matrículas e novos recursos são oportunidades
Essa proposta talvez esteja mais perto de se tornar realidade do que muitos imaginam. De um lado, há a perspectiva de queda no crescimento populacional: a previsão é de que o total de matrículas na Educação Básica caia 30% até 2040, o que permite aumentar progressivamente o gasto por estudante. Além disso, deve acabar em 2011 a chamada Desvinculação de Recursos da União (DRU), que permite ao governo federal retirar 20% da verba e alocá-la em outras áreas. Sem falar nas perspectivas que podem se abrir graças ao petróleo. Só o chamado Fundo Social do Pré-Sal, criado para financiar projetos com parte dos lucros dessa nova forma de exploração do óleo, pode corresponder a 0,5% do PIB. Lutar por uma (gorda) fatia desse dinheiro para a Educação é fundamental.
Acima de tudo, é preciso levar em conta que não teremos um ensino de qualidade sem uma mudança de pensamento político. Ter a Educação como prioridade, como propagam todos os candidatos, significa ampliar o investimento de forma contínua e a longo prazo. Afinal, manter uma boa escola em funcionamento durante 12 meses custa quase o mesmo que erguer outra do zero - com a "desvantagem" de que não há uma nova obra para inaugurar. Investir em Educação custa caro e o retorno é demorado. Mas é, sim, um grande negócio.
Quer saber mais?
BIBLIOGRAFIA
Custo Aluno-Qualidade Inicial: Rumo à Educação Pública de Qualidade no Brasil, Denise Carreira e José Marcelino Rezende Pinto, 128 págs., Ed. Global, tel. (11) 3277-7999, 25 reais
Financiamento da Educação - Novos ou Velhos Desafios?, Nicholas Davies, 168 págs., Ed. Xamã, tel. (11) 5072-4872, 22 reais
Ana Gabriela Ferreira da Silva - Postado em 08/05/2010 23:30:39
Olá, Acabei de conhecer a revista Nova Escola e me apaixonei, pois preocupo-me com a educação de meus filhos. Um deles tem, 5 anos e frequenta o 2º ano, demonstra que é mais adiantado que seus coleguinhas, gostaria de poder ajudá-lo a desenvolver melhor, mas ainda não sei como. Gostaria muito de uma orientação de como fazer e onde buscar isso. Ana
Cristiano Luís Pereira Assis - Postado em 28/03/2010 12:09:18
Realmente é difícil viabilizar qualquer tentativa em educação no Brasil. Um país que ostenta vários indicadores negativos em educação, quando fala-se no seu investimento. Demonstra-se na matéria um triste ranking onde o Brasil ostenta a vergonhosa 88ª em educação, numa lista de 128 países. Não chegamos nem no meio da lista... Investe-se pouco e mal em educação no Brasil. Hoje o Brasil investe 3,9 do PIB em educação. A Coréia do Sul investiu no início da década de 50 do século passado 10% do seu PIB continuamente por vários anos e hoje inseriu-se no grupo dos melhores países em desenvolvimento. Os políticos no Brasil tendem a não ouvir os envolvidos na educação quando da gênese e gestão de novas políticas e estratégias para seu desenvolvimento. Aliás, estes preferem e pensam que apenas construir e reformar continuamente escolas é trabalho realizado. Nos professores e gestores das escolas, que estamos no contato direto com a sociedade e as comunidades que dependem das escolas, raramente somos ouvidos pelas diversas instâncias de governo. E quando isso ocorre, a nossa voz vai se esvaindo pelo imenso labirinto burocrático destes órgãos. Temos que incessantemente lutar pela revitalização da escola pública de qualidade. Devemos perseverar nesta luta, mas sempre perceber que a realidade cruel da educação pública brasileira é latente. Mas, lutemos sempre!!!
Sandra Aline Garcia - Postado em 24/03/2010 21:26:44
Sou estudante,estou no 2ª ano do ensino médio; e é a terceira semana que minha escola está de greve !! Porque?! Professores querem aumento de salário, e melhoria da educação,pois minha sala esta lotada 37 alunos ; e olha que tem sala que tem mais ainda,. Pra que tudo isso,sendo que o professor deveria ser muito bem pago; pois além de não ter a profissão reconhecida, ainda ganha mal .... Essa propaganda,que passa na tv ,do governo de São Paulo que fala que a educação melhorou.....melhorou nada; a matéria que tem naquele livrinho, que o governo dá , eu não vô á lugar nenhum,mas vou sim, muitos alunos da minha turma pretendem fazer faculdade federal ou estadual,utilizando a internet e outros livros que temos em casa e claro , força de vontade;mas também nós alunos não frequentamos a sala de informática, não tem merenda ,coisa nenhuma, culpa também do querido prefeito da minha cidade....e por ai vai indo né ! E creio sim que a educação ,deveria ser mais investida , pois ficar no 88º lugar é vergonhoso!!! NÃO ACHA?!