Ana Ligia Scachetti. Colaboraram Elisângela Fernandes e Rodrigo Ratier

O concurso é um meio essencial para garantir que docentes bem preparados cheguem às redes públicas. No entanto, sem um controle nacional, ele tem sofrido pela baixa qualidade. Como prefeituras e estados têm autonomia para definir seus editais, o panorama é muito diverso. Ao lado de provas bem elaboradas, encontram-se outras com perguntas malfeitas, notas de corte baixas e escassez de conteúdos relacionados à teoria e à prática docente.
O problema começa na bibliografia indicada. Há mais livros didáticos e instrumentais (leis e gramáticas, por exemplo) e poucos voltados a analisar o trabalho do professor. Entre as perguntas também quase não existem menções aos fundamentos da Educação ou a metodologias de ensino. E, quando citados, esses temas não são uma fonte de reflexão.
Muitas provas são marcadas por baixíssimas notas de corte (pontuação mínima para a aprovação). Há casos em que a exigência é de 50% de respostas objetivas corretas e mais uma pontuação escalonada em questões dissertativas e outros em que se pedem apenas 30% de acertos nas questões objetivas e três pontos (do total de dez) na redação. Acertar um terço das questões é muito pouco. Um teste que busca apenas isso de seus candidatos não selecionará bons professores, como demonstra a pesquisa Formação de Professores para o Ensino Fundamental: Instituições Formadoras e Seus Currículos, realizada pela Fundação Victor Civita (FVC) em parceria com a Fundação Carlos Chagas (FCC) em 2008.
Segundo o mesmo documento, a maioria das provas é composta de questões objetivas, de múltipla escolha. Essa prática facilita a correção e diminui as chances dos temidos recursos. No entanto, quando é mal utilizada, a múltipla escolha reduz a reflexão e pode transformar o teste em pura decoreba.
Há exemplos de provas mal elaboradas em profusão. Para conhecê-los, basta pesquisar em sites para se deparar com questões vergonhosas, banais e até cômicas. De tão malfeitas, deixam dúvida sobre qual a alternativa correta. Em prova da prefeitura de Pedra Branca, a 261 quilômetros de Fortaleza, uma foto mostra estudantes indígenas adultos. O texto indaga a qual "Educação" a imagem se refere: a) inclusiva; b) integral; c) indígena; d) informal; e) infantil. A resposta correta é a c, mas seria bem mais pertinente promover a reflexão sobre aspectos da Educação indígena, em vez de apresentar uma questão tão óbvia.
Um segundo exemplo vem da prova para professor de Língua Portuguesa da prefeitura de Porto da Folha, a 190 quilômetros de Aracaju. O enunciado diz: "Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) foram implementados no ano de: a) 2001; b) 2002; c) 2003; d) 1997; e) 1998". Os PCNs foram aprovados em 1998, mas esse tipo de pergunta só incentiva o candidato a decorar datas e não a pensar sobre diretrizes tão importantes para sua profissão. A resposta não indica se o professor de fato conhece esse instrumento.
A precariedade dos concursos públicos também chamou a atenção da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Em setembro deste ano, o órgão publicou em parceria com o Ministério da Educação (MEC) o estudo Políticas Docentes no Brasil: Um Estado da Arte. O texto afirma que é necessário questionar a qualidade e a validade das atuais seleções. Indica, ainda, que as provas deveriam oferecer um suporte qualificado para a entrada no serviço público dos profissionais com perfil desejável. Aliás, a lacuna começa exatamente pela definição das características desejáveis nesse profissional.
O levantamento aponta também que no Ceará, em São Paulo e no Espírito Santo foram iniciados processos mais aprimorados para a contratação dos professores, em que as provas acompanham programas de capacitação.
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Helton Mendes - Postado em 28/01/2012 10:11:34
Considero que antes de qualquer prova que certifique a nossa profissão docente é preciso que se invista mais na nossa formação. É necessário que haja por parte do MEC um controle rigoroso dos cursos de formação. Caso contrário, essa Avaliação do INEP surtirá efeito negativo, visto que a qualidade dos cursos de Pedagogia também são baixas. Enfim já são poucas pessoas que decidem fazer uma licenciatura. Agora se o MEC adotar essa avaliação, com certeza, será mais um ponto de desmotivação para nossos jovens seguir essa área. P
Joel Farias - Postado em 27/01/2012 19:20:33
Tive a oportunidade de participar de um rigoroso processo de seleção para professor de Física numa respeitada instituição educacional particular. A prova objetiva tinha apenas 10 questões. Todas elas eram dissertativas como estas: (A) Um aluno lhe faz a seguinte pergunta: "Qual a diferença entre uma TV LCD e uma TV de Plasma?". Descreva sucintamente como você responderia esta pergunta para um aluno do 3º ano do Ensino Médio. (B) Descreva como você explicaria na sala de aula o funcionamento do sistema de freios ABS equipado nos veículos modernos usando os conceitos de atrito estático e dinâmico. Além da prova objetiva foram feitas duas entrevistas com a direção da escola e com a coordenadora pedagógica. Após estas etapas fui submetido a uma junta de professores que se encontravam em diferentes cidades através de um sistema de videoconferência. Acredito que, face aos exemplos dados na reportagem, não se faz necessário nenhum comentário adicional, bem como qualquer tipo de comparação entre o ensino público e privado.
ROSA MARIA DA SILVA PERES - Postado em 24/01/2012 15:18:51
Excelente reportagem, principalmente a maioria das provas de concursos municipais passam longe dos conhecimentos necessários para dar uma boa aula. Um abraço
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