Assine Nova Escola
Revistas do mês
Nova Escola
Gestão Escolar
publicidade

Planejamento, um ato coletivo

Bons planos de aula só serão eficientes se por trás deles houver muita discussão sobre os objetivos da escola

Denise Pellegrini, Paola Gentile

Equipe da Escola Altina Ribeiro Toledo, de Marechal Deodoro: reuniões nos três períodos. Foto: Eduardo Queiroga/Lumiar
Equipe da Escola Altina Ribeiro Toledo, de Marechal 
Deodoro: reuniões nos três períodos.
Foto: Eduardo Queiroga/Lumiar
Especial Planejamento 2014

Planejamento: elaboração, por etapas, de planos e programas com objetivos definidos. O verbete, tão lembrado no início do ano, é a base para a criação de boas aulas e também um dos pontos cruciais no desenvolvimento de um trabalho escolar eficiente. Para auxiliar a equipe pedagógica nessa empreitada, NOVA ESCOLA elaborou este caderno especial. Foram ouvidos 43 educadores que oferecem indicações preciosas sobre essa tarefa na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. Além de falar de cada disciplina separadamente, o caderno traz também um passeio pelo mundo da transdisciplinaridade, na entrevista com Paulo Afonso Ronca.

Nunca é demais lembrar que o início da definição do próximo ano letivo é, necessariamente, um ato coletivo. "A principal função do planejamento é construir, desestruturar e reconstruir o projeto político-pedagógico da escola", afirma José Cerchi Fusari, professor de Didática e de Coordenação do Trabalho na Escola da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. E ninguém pode assumir sozinho essa responsabilidade.

Encontros freqüentes

Trabalho coletivo organizado é uma das marcas registradas do Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente Raimundo Gomes de Carvalho, em Fortaleza. Além de uma quinzena pedagógica no início do ano, em que se reúnem os noventa professores primeiro, todos juntos; depois, por áreas há encontros a cada dois sábados e todas as terças-feiras. "Temos um projeto anual chamado Aprender com Prazer e dele todos vão puxando outros projetos a cada mês", explica a coordenadora pedagógica Eliene Sales Andrade.

A realidade escolar, porém, nem sempre é essa. O horário reservado para discussões em grupo muitas vezes é desproporcional ao de sala de aula (em média, duas horas de reunião em cada quarenta semanais). Até três anos atrás, essa era a situação da Escola de 1o Grau Altina Ribeiro Toledo, em Marechal Deodoro, a 40 quilômetros de Maceió. A unidade tem mais de mil alunos distribuídos em três turnos. "Ninguém sabia planejar e todos resistiam à idéia. Apenas esperavam que eu dissesse como tudo deveria ocorrer", lembra Nadja Porangaba, uma das coordenadoras pedagógicas.

A escola virou de "cabeça para baixo" em 1999, quando ingressou no Plano de Desenvolvimento da Escola, o PDE do Ministério da Educação. A equipe definiu a linha pedagógica e criou uma unidade de objetivos. "Antes, cada um fazia seu trabalho", diz Nadja. A situação ainda não é a ideal, mas a diretora adjunta Isabel Cristina do Nascimento consegue driblar o maior problema do corpo docente: a impossibilidade de todos se reunirem num mesmo horário, o que só ocorre no início e no final do ano letivo. "A maioria dos docentes tem dois empregos", ela explica. Para dar coesão ao trabalho pedagógico, ela funciona como um elo entre os três períodos. Trabalha diretamente com os coordenadores do diurno, participando das reuniões semanais da manhã e da tarde, e com os do noturno num encontro semanal.

Essa integração, ainda que parcial, é fundamental, segundo os especialistas. "Se houver decisões coletivas sobre a política da escola e a melhor maneira de atingir os objetivos, o profissional terá todo o respaldo para orientar sua prática cotidiana e bolar ações", afirma Eny Maia, consultora da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo e da Secretaria de Ensino Médio e Tecnologia do MEC.

Temas transversais

Algumas questões deveriam fazer parte do dia-a-dia da escola, entremear as reuniões para constituir a base de um bom planejamento. Veja algumas sugestões feitas por Fusari:

• Como inserir novas situações da realidade do estudante nos objetivos da escola e no processo de ensino e aprendizagem?

• Como trabalhar o conhecimento em rede?

• Quais as melhores metodologias, procedimentos e instrumentos de ensino e avaliação?

• Como inserir discussões sobre a mídia e a tecnologia e seu uso na relação interativa entre professor e aluno?

As respostas precisam ter como norte a realidade sociocultural do público escolar. Essas informações darão subsídio para a formulação dos objetivos intermediários e finais da educação e definirão como trabalhar os temas transversais. "O projeto educativo da instituição é a base para o planejamento dessa área", afirma Neide Nogueira, coordenadora de temas transversais dos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Pluralidade Cultural, Trabalho e Consumo, Meio Ambiente, Saúde, Orientação Sexual e Ética. Cada equipe deve dar ênfase aos assuntos mais adequados ao contexto e às necessidades da turma num determinado momento. "Se várias adolescentes estão grávidas, pode-se priorizar as questões de Orientação Sexual", exemplifica Neide. Ela afirma que os temas transversais têm o viés de formação para a cidadania e devem ser trabalhados ao longo de toda a escolaridade.

Sim aos imprevistos

As discussões entre os membros da equipe ajudam a selecionar conteúdos, fugir da repetição e da rotina, integrar as diversas experiências de aprendizagem, evitar a improvisação sem nexo e garantir segurança contra os constantes imprevistos dentro da classe. Acontecimentos que os alunos viram na televisão no dia anterior, vivências que trazem para compartilhar com os colegas, problemas de aprendizagem e outros tantos que fazem com que você tenha de desviar o curso da aula planejada.

Ivanna SantAna Torres, responsável pela parte diversificada do currículo no Centro de Ensino Fundamental Caseb, em Brasília, reviu seu plano inicial para as doze turmas de 7ª e 8ª série duas vezes em 2001. Em abril, para incluir temas ambientais e atender ao projeto Agenda 21, do governo federal. Em outubro, ela descobriu que o colega de Língua Portuguesa estava produzindo um jornal, mesma atividade que ela havia planejado para o quarto bimestre. Ivanna resolveu a questão sugerindo um trabalho de poesia em forma de classificados. "Quando não nos obrigamos a cumprir todos os conteúdos até o final do ano, não nos sentimos perdidos", declara.

Essa sensação de inutilidade ocorre ao não conseguir executar o que se havia definido previamente. Se a turma não trouxe a pesquisa pedida, é interessante usar esse fato para ensinar como fazer uma pesquisa eficiente. "Os conteúdos podem ser conceituais, procedimentais ou atitudinais, por isso dá para transformar qualquer fato não planejado em aula produtiva", afirma a psicóloga Siglia Cruz de Sá Leão. Se os objetivos são claros para todos, não importa quais os temas empregados para chegar a eles.

 

Agora é só com você

Participando do planejamento coletivo, o professor passa da condição de executor para a de sujeito do processo. Agora, sozinho, cabe a você definir o que pretende fazer ao longo do ano. Novamente é preciso escolher os objetivos, desta vez os de cada disciplina, ou seja, as competências que o aluno precisa desenvolver naquela série ou ciclo.

As metas indicam os conteúdos mais significativos e os procedimentos adequados. Não se esqueça de relacionar os recursos que serão utilizados nas diversas atividades e como será feita a avaliação. Para a educadora Ilza Martins SantAnna, um plano por disciplina deve ter o jeitão de um guia: "Simples, lógico, coerente, funcional e flexível".

Para introduzir um tema, bole uma questão ou situação que desperte o interesse da turma. Provoque a exposição de idéias, para confrontá-las com os novos conceitos introduzidos, e proporcione oportunidades para sua utilização. Terezinha Pádua, psicopedagoga e professora aposentada da Universidade Federal de Goiás, aconselha a determinar um tempo prévio para a execução de cada etapa, distribuindo as atividades ao longo do mês ou da semana.

Terminada a aula, é importante anotar tudo o que ocorreu, inclusive as reações dos alunos. Essa avaliação é fundamental não somente para acompanhar o desenvolvimento de cada estudante, mas para fornecer dados para o replanejamento e aprimoramento do trabalho. É o que ocorre no Raimundo Gomes de Carvalho. Uma vez por mês, todos se reúnem com a missão de analisar a aprendizagem das turmas. Com as fichas de auto-avaliação das turmas em mãos, eles discutem como vêem o processo em cada área do conhecimento. "Esses encontros são um grande subsídio para repensar as aulas seguintes", afirma a coordenadora Eliene.

Seguindo essas sugestões, será possível começar o ano aproveitando bem a semana de planejamento. Na hora de criar suas aulas, consulte as outras reportagens no índice. Você vai encontrar experiências que vão ajudá-lo a organizar melhor o dia-a-dia da escola.

 

Recepção calorosa 

O acolhimento na volta das férias é fundamental para criar um clima de cooperação entre o corpo docente. José Cerchi Fusari dá alguns conselhos para a coordenação pedagógica organizar bem a semana de planejamento:

• envolva toda a direção e coordenação

• comece a elaborar a reunião com antecedência, pensando espaços para o encontro geral e para os debates

• selecione um texto como o Era uma vez desta edição que propicie uma reflexão sobre os objetivos da educação no mundo atual e providencie cópias para todos

• elabore a pauta de discussão prevendo os temas mais abrangentes, mas deixe itens em aberto para acrescentar sugestões da equipe

• um dia antes, cuide para que os locais de reunião sejam limpos, identificados e já organizados com mesas e cadeiras na disposição ideal

• reserve de 30 a 60 minutos antes do início dos trabalhos para conversas informais

• depois das boas-vindas, distribua o texto selecionado, dê tempo para leitura e abra o debate

• apresente a pauta e inclua as sugestões dos professores

• reorganize as reuniões do resto da semana já com os novos temas propostos

• no final dos debates, faça um resumo das conclusões e distribua para todos

Quer saber mais?

Escola de 1º Grau Altina Ribeiro Toledo, R. dos Cajueiros, s/nº, CEP 57160-000, Marechal Deodoro, AL, tel. (82) 263-7698

Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente Raimundo Gomes de Carvalho, R. Raimundo Ribeiro, 400, CEP 60526-500, Fortaleza, CE, tel. (85) 290-3631

Centro de Ensino Fundamental Caseb, 909 Sul, Brasília, DF, CEP 70390-090, tel. (61) 242-2170

BIBLIOGRAFIA

Planejamento como Prática Educativa, Danilo Gandin, 112 págs., Ed. Loyola, tel. (11) 6914-1922, 10,30 reais

Planejamento em Destaque Análises Menos Convencionais (Cadernos Educação Básica - 5), Maria Luisa M. Xavier e Maria Isabel H. Dalla Zen (orgs.), 170 págs., Ed. Mediação, tel. (51) 3311-7177, 19 reais

Planejamento Sim e Não, Francisco Whitaker Ferreira, 160 págs., Ed. Paz e Terra, tel. (21) 2512-8744, 19 reais

Compartilhe

Gostou desta reportagem? Assine NOVA ESCOLA e receba muito mais em sua casa todos os meses!

Comentários

 

Publicado em Dezembro 2002.
 Garanta já a sua revista! Assinaturas, edições impressas e digitais

Assine suas revistas impressas ou digitais!

Compre suas revistas impressas!

Compre suas revistas digitais e e-books!

Nova Escolar
  Patrocínio     Edições SM

Fundação Victor Civita © 2013 - Todos os direitos reservados.