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Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:
25 de novembro de 1998
Objetivos
Discutir as relações entre: Planejamento e mudança social;
Sociedade e espaço; Organização espacial e qualidade de vida
Introdução
Como nascem as cidades? Algumas em função de acidentes geográficos, como um rio comercialmente estratégico; outras derivam de antigas fazendas... e um número reduzidíssimo delas surge nas pranchetas de arquitetos e urbanistas. Como Brasília. Não há segredos nas intenções de sua organização espacial. Seu caráter urbano é explícito e contém muitos dos sonhos humanos de projetar lugares ideais para se viver. Entre a teoria e a prática, porém, existem abismos - alguns deles revelados pelo artigo de Claudio de Moura e Castro.
TEXTO DE APOIO
As peculiaridades que a capital do país apresenta em sua organização espacial refletem-se na estrutura social. Seu território está no Distrito Federal, cuja população urbana é de 1.692.248 habitantes, em contraste com os 1.296.98 da zona rural. A desproporção se deve a Brasília, cidade polinucleada formada por um conjunto de lugares cujas relações não são tão intensas quanto se imagina.
Para que seus alunos apreendam melhor os conceitos envolvidos no caso, lembre-os de que a Geografia chama de lugar uma comunidade ou um grupo de pessoas que mantém diariamente relações sócio-econômicas de interdependência. Uma área (ou região) pode ser entendida por um conjunto de lugares mais ou menos contíguos que mantêm relações entre si, mas não com a mesma freqüência e intensidade que se observa dentro de cada um deles. Assim, uma cidade pode ser conceitualmente um lugar - a pequena Jacutinga, em Minas Gerais, é um exemplo - ou uma área, como São Paulo ou Brasília.
Brasília é um grande conjunto urbano dividido em regiões administrativas autônomas. Tendo como referência o Plano-Piloto, parte projetada, os demais núcleos encontram-se afastados, com distâncias que variam de 12 a 43 quilômetros. Tais núcleos periféricos, conhecidos como cidades-satélites, concentram quase três quartos da população do Distrito Federal. Taguatinga, Planaltina, Ceilândia e Candangolândia são algumas dessas cidades.
Brasília tem, de modo geral, bons índices de qualidade de vida. Sua renda per capita supera a média nacional. Mas o Brasil inteiro sustenta a capital. As receitas geradas na economia local são pequenas se comparadas às despesas. Essencial para a vida político-administrativa da nação, o Plano-Piloto nunca sofreu decréscimo de verbas para a sua manutenção. O mesmo não vale para as cidades-satélites, onde a vida tende a ser precária.
A rígida concepção urbanística do Plano-Piloto praticamente não muda, acentuando a segregação espacial. A idéia de segregação refere-se à lógica pela qual os segmentos sociais isolam-se e criam espaços próprios sem diversidade. As eleições deste ano para governador do Distrito Federal comprovam o fato: a votação no Plano-Piloto foi totalmente diferente da registrada nas cidades-satélites, como se fossem dois mundos separados.
Urbanismo e qualidade de vida
O projeto de Brasília, contestado por favorecer apenas as necessidades funcionais e materiais das pessoas, enquadra-se na problemática do urbanismo moderno. Tal tendência idealiza as cidades como "máquinas de morar" onde a igualdade social seria estimulada. Nesse sentido, fracassou. Como também naufragaram projetos semelhantes na Europa e nos Estados Unidos, cujos contrastes sociais são menores que os brasileiros. O erro dos "reformadores" foi subestimar a complexidade humana. A cidade do Plano-Piloto funciona. Núcleo privilegiado, oferece boas condições de vida a seus ocupantes, mas exila seus pobres.
A organização espacial de uma cidade tradicionalmente fornece medidores da qualidade de vida, pública e privada. Talvez Brasília falhe no aspecto coletivo, sem que seus moradores se queixem, influenciados que estão pelo declínio da vida pública em geral e pela supervalorização da vida particular, individual.
Atividades
1. Consultando o artigo de Claudio de Moura e Castro é possível organizar os seguintes conceitos: o que é para ele qualidade de vida em uma cidade? Que elementos do texto referem-se à vida pública? E à vida privada? Peça aos alunos que opinem sobre as visões do autor, tendo como referência a sua cidade.
2. "A cidade - e cada residência - deve ser uma 'máquina de morar'. Para o modernismo urbanístico e arquitetônico (Le Corbusier vê a arquitetura e o urbanismo como elementos indissociáveis) a cidade deve ser animada pelo espírito da geometria, com linhas e ângulos retos, ordem e eficácia; a rua deve ceder seus lugares a vias expressas, adequadas ao automóvel e à rápida circulação; o zoneamento contido no plano deve assegurar uma distribuição funcional, que classifique e ordene os espaços - setor de comércio, de diversões, áreas verdes, indústrias, residências padrão A, B, C etc." (José William Vesentini)
Essa descrição da cidade moderna já encantou mais o mundo. Hoje, nem tanto. Quais as vantagens e desvantagens de uma cidade organizada assim? Que idéia seus alunos têm da cidade ideal? Ele precisa ser pensada antes por alguém ou o plano deve seguir outra lógica?
ORIGENS
A nova capital, uma utopia de Lúcio Costa
Cerca de 3 mil candangos (termo pejorativo usado para referir-se aos migrantes saídos de todas as partes do país rumo ao Planalto Central) revezavam-se dia e noite na construção do Palácio da Alvorada e de outras obras projetadas por Oscar Niemeyer. Corria o ano de 1957. No dia 15 de março, o júri do concurso público que elegeu o Plano-Piloto da nova capital anunciou como vencedora a proposta do carioca Lúcio Costa. O próprio urbanista explicou assim os critérios da criação de Brasília:
"Ela deve ser concebida não como simples organismo capaz de preencher sem esforço as funções vitais de uma cidade moderna qualquer (...). Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, um foco de cultura das mais lúcidas do país."
Em seu planejamento habitacional, Lúcio Costa descartou a existência de favelas, "tanto na periferia urbana quanto na rural. Cabe à companhia urbanizadora prover acomodações decentes e econômicas para a totalidade da população". A utopia durou pouco. Em 1958, a Novacap, estatal responsável pelo projeto, decidiu criar as cidades-satélites para abrigar os candangos. Em julho de 1963, Oscar Niemeyer declarou sua decepção na Câmara dos Deputados: "Brasília está ficando uma cidade como as outras, pois o plano-piloto de Lúcio Costa vem sendo totalmente desvirtuado".
Veja também:
Bibliografia
A Capital da Geopolítica, José William Vesentini, Ed. Ática, fone: 3990-2100
Geógrafo e professor da Unifico em Osasco, SP
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