
As crianças italianas têm o privilégio de ver e tocar o que a maior parte das outras crianças do mundo só podem apreciar por meio das páginas físicas e virtuais de livros e sites. Pertinho dessa garotada estão museus, exposições, praças e monumentos que mostram as grandes obras primas dos maiores nomes da arte mundial, como Leonardo da Vinci e Michelangelo. Tudo ali, ao alcance dos olhos. Basta uma curta viagem, e pronto! No início do ano letivo as escolas recebem dos museus a programação do ano, assim podemos escolher a qual queremos levar os alunos, explica a educadora Bianca Montevecchio, da escola de Ensino Fundamental Dante Alighieri, em Forli, região da Emilia-Romagna, nordeste da Itália.
E, como a arte na Itália pode ser vista em cada prédio, casa, jardim, praça... Enfim, dapertutto, todos os artistas - e não somente os mais famosos - entram no programa de estudo da criançada. Cada escola enfoca os principais artistas da região. Por exemplo, os estudantes de Florença, na Toscana, estudam os artistas daquela região, salienta Bianca. Pode parecer bairrismo, mas nao é. Acontece que cada parte da Itália tem uma história e um dialeto particular, o que muitas vezes dá a impressão que são vários países dentro de um só. Daí a importância de valorizar os artistas regionais.
Os professores têm também por interesse fazer os alunos lerem o contexto social, cultural e até econômico do período de cada obra - o que pode mudar muito de acordo com a região. Sem dizer que existe uma infinidade de grandes e maravilhosas obras espalhadas pelo país, feitas por artistas desconhecidos aos olhos do mundo, mas muito importantes para a Itália.
Uma aula especial
Na escola Dante Alighieri, a professora Silvia Bartolletti fez uma verdadeira viagem no tempo com os alunos da 2ª série. O artista escolhido foi pintor Silvestro Lega. Para fazer a turma conhecer e entender a época em que ele vivia, Silvia iniciou uma viagem ao ano de 1840, período em que o artista começou a desenvolver seus trabalhos. As crianças pesquisaram em bibliotecas e na internet quais eram os costumes das pessoas, o que vestiam, o que comiam. O enfoque da pesquisa voltou-se às mulheres e crianças, freqüentemente relatadas nas obras de Lega. Silvia também se preocupou em explicar a técnica usada por Lega e apresentou à turma aspectos da vida pessoal do artista. Quando os alunos já estavam bem familiarizados com o autor, a professora marcou o dia da visita ao museu.
As crianças gostam não somente por ser uma excursão afinal, são crianças e adoram passear - mas dá para perceber a curiosidade em cada uma. É como se elas estivessem indo encontrar Silvestro Lega em pessoa, relembra Silvia. No dia marcado, os alunos chegaram entusiasmados ao museu. Para a surpresa deles, logo na entrada, a guia que os acompanharia estava vestida como as mulheres da época de Lega - outra invenção de Silvia para tornar ainda mais atrativa a exposição.
Conforme caminhavam, a guia explicava o contexto histórico e perguntava aos alunos o que sabiam daquela época. Conversava com eles sobre a técnica e as cores mais evidentes em cada quadro. Por que Lega teria feito cada uma dessas escolhas? À frente de algumas obras, a guia pedia para que as crianças fechassem os olhos. Então, descrevia o quadro e pedia que imaginassem as danças, os sons, os cheiros e as vozes ali retratadas. É impressionante ver até onde pode ir a criatividade deles, ressalta Silvia.
O desfecho não poderia ser outro: a turma foi apresentada ao autoretrato do autor. Em seguida, a guia pediu a todos que descrevessem, por meio daquela pintura, a personalidade de Lega. As respostas foram as mais diversas e inesperadas: Bravo! Carrancudo! Um homem sério! Muito sério! Ele não teve filhos, né! Um homem fechado! Perfeccionista! Triste!.
E ali terminava a visita ao museu, mas não as atividades. De volta à escola, hora de colocar a mão na massa! Ou, mais precisamente, no pincel! Cada aluno escolheu o quadro de que mais gostou e fez sua releitura. Não uma simples reprodução, mas uma aplicação de tudo o que haviam aprendido até o momento sobre a história e a arte de Lega. Façam de conta que vocês são Lega e imaginem o que ele queria transmitir no momento em que pintava essa obra!, pediu Silvia. Segundo a professora, é notável a diferença entre a produção dos alunos antes e depois da visita ao museu.
O trabalho com a arte não é exclusivo de Silvia. A escola Dante Alighieri é arte pura. Ao entrar no pátio, é possível ver em todas as paredes as obras dos pequenos artistas. É grande a variedade de técnicas trabalhadas e as exposições são permanentes.
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