Revista do mês
Nova Escola
Assine Nova Escola
publicidade

Sem medo de contas e equações

Como os vencedores das Olimpíadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas estão ajudando a despertar o interesse pela disciplina

Amanda Polato

"Sempre gostei de lidar com os números e aprendi com meus professores, desde as séries iniciais, a não ter medo de aprender e a praticar muito".  Andressa Santos, de Campo Grande, MS, medalha de prata no nível 2. 
Foto: Alexis Prappas

Para muitos jovens brasileiros, as equações são divertidas. Números traduzem pensamentos. Problemas são enigmas incríveis esperando uma resolução urgente. É assim que Andressa de Souza Santos, 15 anos, considera a Matemática no dia-a-dia. O interesse pelo tema é tão grande que três vezes por semana, depois do horário regular das aulas, ela se reúne com os colegas da EM Professor Arlindo Lima, em Campo Grande, para se dedicar à sua disciplina preferida. A iniciativa partiu dela e de outros dez alunos de diferentes anos do Ensino Fundamental. Nenhum deles é um gênio ou um nerd. São todos adolescentes comuns, que descobriram o prazer de lidar com os números em situações de desafio.

Desde 2005, a maratona de exercícios passou a ter um objetivo bem específico: conquistar os lugares mais altos do pódio nas Olimpíadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), evento que começou a ser realizado naquele ano, envolve estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e também do Ensino Médio e é considerado o maior do gênero no planeta (leia mais sobre a competição no quadro abaixo). Andressa já ganhou duas medalhas de prata - uma há três anos e a outra no fim de 2007. E mais dois alunos do seu grupo de estudos trouxeram medalhas para a escola. Na prova do ano passado, essa turma concorreu com outros 17 milhões de estudantes de 98% dos municípios do país (na primeira edição, foram 10 milhões de participantes, um número que não pára de subir). O sucesso do evento mostra o crescente interesse pela disciplina, que sempre foi considerada um bicho-papão, e ref lete os resultados apontados pelos testes do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Os estudantes brasileiros de 15 anos de idade ainda estão na lanterna do ranking mundial, mas as notas em Matemática melhoraram sensivelmente - um avanço que mereceu destaque por parte da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, organizadora do Pisa. São jovens que vêem os números com naturalidade e adoram contas e fórmulas (leia no quadro da página 65 um breve perfil de um garoto de Uberlândia que ganhou medalhas nas três Olimpíadas já realizadas).

O desempenho de Andressa vai contra o lugar-comum segundo o qual os meninos são melhores em Matemática e Ciências. Ela conta que sempre foi incentivada a desenvolver habilidades matemáticas e contou com mestres que não reduziam o ensino às regras mecânicas. "Gosto de lidar com números e aprendi a não ter medo de aprender e a praticar muito." Carlos Alberto Catalani, coordenador dos grupos de estudos na escola sul-matogrossense, diz que não existe fórmula capaz de aproximar crianças e jovens da matéria, mas ele acredita que apresentar situações-problema e permitir que os alunos construam e discutam suas hipóteses coletivamente é o melhor caminho para atingir esse objetivo. "Quando a turma explica como chegou a um resultado, passa a ter mais clareza do conteúdo e cria as próprias estratégias de resolução de problemas." Ele também é um campeão. Na última edição do evento, 127 educadores foram premiados com bolsas de estudo graças ao desempenho de seus estudantes. Carlos está entre eles.

A maior competição do gênero em todo o mundo

Podem participar da maior Olimpíada de Matemática do mundo alunos da rede pública do 6º e 7º anos (que fazem a prova do chamado nível 1), 8º e 9º anos (nível 2) e Ensino Médio (nível 3). O objetivo do teste é incentivar o estudo da disciplina, além de descobrir talentos. "A escola pública precisa de injeção de ânimo", afirma Sueli Druck, diretora acadêmica da competição e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Matemática. "É importante identificar os melhores e orientá-los para carreiras científicas. Precisamos de dez vezes mais cientistas no país atualmente", completa. Em 2007, foram concedidas 3 mil bolsas de iniciação científica júnior aos medalhistas de ouro (300), prata (600) e bronze (2,1 mil), além de certificado de menção honrosa a outros 30 mil jovens (desses, alguns podem participar do projeto, mesmo sem ter ganho a bolsa de estudos). O programa dura um ano e tem carga horária de 16 horas por mês, geralmente cumprida em fins de semana. Os pólos são formados em escolas e universidades para que os bolsistas não precisem se deslocar muito. Cada um deles recebe 100 reais por mês, pagos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. As inscrições para a próxima edição da Olimpíada serão abertas em abril. Fique de olho e não deixe sua escola fora desse importante evento.

Trabalho de equipe

Luciane Maciel Perreira, professora em Sertãozinho, a 305 quilômetros de São Paulo, também se empenha para mudar a idéia de que a Matemática é difícil ou enfadonha. "É vergonhoso alguém falar que não sabe ler ou escrever, mas o mesmo não ocorre quando o que está em questão é fazer contas simples de cabeça. As pessoas dizem sem constrangimento que não sabem nada. A cultura de desvalorização do raciocínio lógico precisa mudar", afirma ela.

Essa dedicação, em conjunto com toda a equipe da EMEF Professor José Negri, se traduz em medalhas e homenagens. No ano passado, 21 alunos da escola foram condecorados na Obmep: oito com medalhas e 13 com menção honrosa. Para Luciana Cancian Lopes, professora de 6o e 7o anos, a solução está no trabalho contínuo. "Há talentos naturais, mas todos podem ir bem. Basta estimular e não deixar nenhum aluno sem respostas."

A baixa rotatividade do corpo docente e da direção (a titular é a mesma há 15 anos), a formação continuada e o trabalho em equipe definem a qualidade e a consistência do trabalho pedagógico da José Negri. Na Prova Brasil, enquanto a média do país na 8a série foi de 237, a escola de Sertãozinho alcançou a nota 323.

Outra estratégia didática para produzir campeões é aproveitar as oportunidades do dia-a-dia. Luciana lembra uma conversa em sala de aula sobre futebol. Ela perguntou se o time da cidade, o Sertãozinho Futebol Clube, teria condições de vencer algum campeonato nacional. Jean Sérgio de Castro Mucci, do 9º ano, encontrou um site que faz cálculos de probabilidade e se encantou com a descoberta. "É verdade. A Matemática está em tudo", disse.

O número 1 dos números e cálculos

TALENTO ÚNICO  Islam, de Uberlândia, já tem três medalhas em três Olimpíadas. Foto: Valter de Paula
TALENTO ÚNICO  Islam, de Uberlândia, já tem três medalhas em três Olimpíadas. Foto: Valter de Paula

Imagine um garoto de 5 anos que pede para a mãe lhe tomar a tabuada. Esse é Islam Eloirrano Rodrigues Carvalho, aluno da EE de Uberlândia, na cidade de mesmo nome, a 555 quilômetros de Belo Horizonte. Aos 11 anos, ele conquistou a medalha de bronze na primeira edição da Olimpíada de Matemática. Hoje tem 15, acaba de ingressar no Ensino Médio e vive a glória de ser três vezes medalhista da competição - e agora como vencedor do nível 2 (7º e 8º anos do Ensino Fundamental). No currículo do garoto, já constam três anos de iniciação científica júnior. Um bom começo para quem aspira se tornar engenheiro mecatrônico. Islam é considerado pelos professores e colegas como um grande talento da escola, mas poucos imaginavam que pudesse chegar tão alto. Tímido e despretensioso, conta que não esperava ser alçado à condição de um dos melhores alunos do Brasil. Sem esforço, segundo o próprio, saiu da 330ª colocação geral em 2005 para o primeiro lugar no ano passado. "Gosto de mergulhar nos livros e chego a antecipar em casa os conteúdos que serão apresentados em sala de aula. Mas curto também jogar videogame e ver televisão." Na terceira edição da Olímpíada, os estudantes mineiros tiveram o melhor desempenho por estado. Levaram 69 medalhas de ouro, 169 de prata e 560 de bronze - no total, 798 das 3 mil medalhas distribuídas pela organização. São Paulo, o segundo colocado, ficou com 723 medalhas (57 de ouro, 138 de prata e 528 de bronze).

Superar limites

Quem poderia antever as chances de cinco alunos do interior do Piauí de se destacarem na Olimpíada? Pois Cocal dos Alves, cidade de 5 155 habitantes a 435 quilômetros de Teresina, sofre com a seca, mas tem uma fonte de craques com números. A turma do professor Antonio Cardoso do Amaral, na Unidade Escolar Rosemira Siqueira Cardoso, usou os poucos livros disponíveis na biblioteca e o computador pessoal de Antonio para consultar fórmulas, fazer exercícios e pesquisas e conferir resultados. "Todos achavam que só os jovens dos grandes centros tinham chances de ganhar. Vivemos distantes das facilidades do mundo atual, mas isso não pode ser obstáculo para quem quer ensinar, aprender e ser campeão", afirma o professor.

Para Creusa Vieira Fontenele, mãe do medalhista de bronze Rodolfo Vieira Fontenele, de 12 anos, não resta dúvida de que o caminho para uma vida melhor está nos estudos. A empregada doméstica que abandonou a escola no 2º ano também supera os limites para proporcionar o conhecimento aos filhos. Creusa já pagou um curso de computação para um deles, comprou um livro de Matemática que custou 160 reais e paga 7 reais para um motoqueiro levar Rodolfo à escola, onde o garoto participa do programa de iniciação científica oferecido como prêmio pela Obmep aos finais de semana. O menino planeja se formar em Matemática e ter um destino diferente do irmão mais velho que não terminou o Ensino Médio. Graças às boas notas e à bolsa oferecida pela Olimpíada, esse sonho está mais perto de virar realidade.

"Não temos as mesmas facilidades dos grandes centros urbanos, mas isso não é obstáculo para quem quer ensinar, aprender e ser campeão"
Antonio Cardoso do Amaral, professor de Matemática em Cocal dos Alves, PI

"Há talentos naturais, mas todos podem ir bem na Matemática. Basta estimular a turma e não deixar nenhum aluno sem respostas"
Luciana Cancian Lopes , professora de Sertãozinho, SP

Quer saber mais?

CONTATOS
EE de Uberlândia
, Pça. Adolfo Fonseca, 141, 38400-100, Uberlândia, MG, tel. (34) 3236-9186
EMEF Professor José Negri, R. João Borghetti, 147, 14170-120, Sertãozinho, SP, tel. (16) 3942-2811
EM Professor Arlindo Lima, R. Barão do Rio Branco, 2469, 79000-217, Campo Grande, MS, tel. (67) 3314-3779
Sueli Druck, central@obmep.org.br
Unidade Escolar Rosemira Siqueira Cardoso, R. 24 de Junho, s/no, 64238-000, Cocal dos Alves, PI

INTERNET
Mais informações sobre a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas em www.obmep.org.br

Gostou desta reportagem? Assine NOVA ESCOLA
e receba muito mais em sua casa todos os meses!

Comentários

 

Publicado em NOVA ESCOLAEdição 209, Fevereiro 2008,
Assine já a sua revista!
Nova Escolar
  Patrocínio     Edições SM

Fundação Victor Civita © 2013 - Todos os direitos reservados.