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Ampliando os horizontes na EJA

Na Educação de Jovens e Adultos, o papel do professor é propor situações que levem o grupo a usar o que já sabe para aprender a linguagem e as propriedades matemáticas

Anderson Moço

Foto: Marcelo Almeida
AGORA É DIFERENTE A aluna da EM Bairro Novo aprendeu a lidar com as operações matemáticas. 
Fotos: Marcelo Almeida

Quando adentra a sala de aula, a turma dos anos iniciais do Ensino Fundamental da Educação de Jovens e Adultos (EJA) geralmente consegue fazer alguns cálculos e medições, embora ainda não domine os códigos matemáticos. "No dia a dia, eles fazem compras, usam transporte público e trabalham na construção civil e em outras áreas nas quais a Matemática está muito presente", explica Maria Amábile Mansutti, pedagoga do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e coautora da proposta curricular do Ministério da Educação (MEC) para o 1º segmento da EJA. Levar isso em conta antes de planejar as atividades da disciplina é fundamental para que todos os estudantes aprendam, de verdade, a lidar com os conceitos e generalizar os conhecimentos que possuem para empregá-los em outras situações. "É natural que eles encontrem dificuldades para verbalizar como chegaram ao resultado. Por isso mesmo, precisam de ajuda para analisar e sistematizar o que conhecem", diz Maria Amábile. O cálculo mental, que a maioria domina bem por usá-lo com frequência, é a estratégia que melhor ilustra essa delicada relação entre o saber formal e o não-formal. A maioria dos alunos não dá tanto valor a ele e almeja aprender a conta armada. De acordo com Priscila Monteiro, coordenadora de formação em Matemática da prefeitura de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, e selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10, embora os professores não possam deixar de ensiná-la, precisam explicar ao grupo que são diversas as estratégias de cálculo válidas, entre elas, o cálculo mental.


Além desse cuidado, devem ser consideradas as situações didáticas para ensinar Matemática na EJA. Elas funcionam como faróis que sinalizam o que é fundamental explorar com os estudantes nos primeiros anos de escolaridade. Organizadas por Maria Amábile e Priscila a pedido de NOVA ESCOLA, elas estão detalhadas a seguir de modo a apresentar os conteúdos fundamentais e indicar quando e como trabalhar e os objetivos que a turma precisa alcançar.

1. Estratégias de cálculo
O que é Atividade que pede a resolução de um problema lançando mão de diferentes estratégias (cálculo mental, calculadora ou o algoritmo para obter resultados exatos ou estimados) e a identificação da situação em que é melhor usar cada uma delas. "Na maioria das vezes, o cálculo escrito é visto como mais verdadeiro e correto pelos estudantes", diz Maria Amábile. O desafio é fazer com que percebam que ele nem sempre é o melhor caminho (leia a sequência didática "Comparação de ofertas na EJA"). A grandeza de um número e a necessidade da operação são as variáveis que determinam o tipo de cálculo que deve ser usado.
Quando propor No mínimo, três vezes por semana, tanto em sequências didáticas específicas e atividades de sistematização, como no trabalho permanente, vinculado a outros conteúdos.
O que o aluno aprende A confiar no que pensa, ter segurança para usar os procedimentos matemáticos, desenvolver estratégias de cálculo e decidir, em situações diversas, pela mais eficaz. Ele também passa a refletir sobre os cálculos e dispor de meios de aproximação e controle dos resultados. Ao estimá-los, por exemplo, tem condições de corrigi-lo.

 

Foto: Marcelo Almeida
MOMENTO DE CONSTRUÇÃO Trabalhar questões que envolvem geometria na EJA é tão importante quanto ensinar à turma diversas estratégias de cálculo. Na EMEB Donald Savazoni, em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, espaço e forma são o tema das aulas semanalmente. Uma das atividades é elaborar figuras geométricas com elásticos, pensando nos ângulos, vértices e lados.

2. Análise de figuras e corpos geométricos
O que é Trabalho que implica no reconhecimento das propriedades das formas e dos sólidos geométricos. Para conhecer as diferenças e as semelhanças entre as figuras geométricas, e como elas se relacionam e se agrupam, é importante colocar a turma para descrever, reproduzir, montar, identificar, explorar e reconhecer as diferentes formas planas e os sólidos geométricos que existem (leia a sequência didática "Cópia de figura na EJA"). Para isso, é preciso lançar mão de materiais diversos, como sólidos geométricos, figuras planas, papel quadriculado, régua, esquadro e compasso.
Quando propor Semanalmente, desde o início do ano, em sequências didáticas ou atividades específicas.
O que o aluno aprende A pensar de modo geométrico, ou seja, a se apoiar nas propriedades estudadas das formas e dos sólidos para antecipar relações não conhecidas. Além disso, passa a analisar e conhecer, cada vez com mais profundidade, as características de diversas figuras planas e não planas, a relacioná-las com outras e usá-las para resolver problemas geométricos. Outro ganho é incorporar a linguagem formal da Matemática a situações de comunicação.

3. Medição e comparação de unidades de medidas
O que é Situação que envolve medição efetiva e comparação e determinação de comprimentos, capacidades, pesos e durações. Os estudantes de EJA já sabem mensurar - fazem isso no trabalho, ao preparar uma receita culinária, confeccionar uma roupa, fabricar um móvel etc. Muitas vezes, as unidades de medida usadas por eles (como o alqueire, que varia de estado para estado) não são as convencionadas pelo Sistema Internacional de Unidades - por exemplo, o metro, o litro e a hora. Mesmo assim, devem ser aproveitadas em aula para ampliar a discussão de relações e equivalência. Nas atividades de medição efetiva, a turma precisa saber o que será mensurado, escolher o instrumento mais adequado para isso (trena e recipiente para líquido, entre outros) e decidir a unidade mais eficiente para expressar o resultado.
Quando propor Uma vez por semana, em sequências didáticas.
O que o aluno aprende A comparar grandezas da mesma natureza, utilizar diferentes métodos e sistemas de medição e lidar com eles.

Foto: Marcelo Almeida
COMUNICANDO OS RESULTADOS A linguagem matemática pode ser composta por diferentes tipos de registro, sejam eles orais ou escritos. É importante que os alunos da EJA aprendam a lidar com essa diversidade para expressar como os números e as operações aparecem no dia a dia e também para revelar a maneira como pensam e manipulam as informações - o que ajuda o professor a diagnosticar a aprendizagem. Na EM Bairro Novo, em Curitiba, uma das práticas é desafiar a turma a representar graficamente os dados de problemas.

4. Comunicação e sistematização
O que é Oportunidade de explorar os procedimentos e as formas de pensamento empregados na resolução de um determinado problema, sejam eles orais ou escritos. O importante nesse caso é garantir que a turma entenda a lógica dos registros. "A escrita matemática é um procedimento que se aprende. Os conhecimentos que usamos para pensar no resultado de uma conta são diferentes dos que usamos para escrevê-lo", destaca Maria Amábile. Esse tipo de trabalho é fundamental porque faz com que o estudante reflita, de forma mais elaborada, sobre o conhecimento que usou para resolver o problema. A prática também abrange atividades relacionadas à escrita e à leitura numérica, em que se interpreta e produz o sistema de numeração, ou seja, ela favorece o entendimento das regras que regem o sistema de numeração decimal. Os registros feitos durante o processo, mesmo sendo provisórios, devem ser estimulados. O importante é que retratem o que o adulto pensou. A cada conhecimento novo, uma sistematização coletiva deve ser proposta e registrada em cartazes.
Quando propor Regularmente, como uma etapa de todas as sequências e projetos didáticos.
O que o aluno aprende A comparar grandezas da mesma natureza e utilizar diferentes métodos e sistemas de medição e lidar com eles.

Reportagem sugerida por 18 leitores: Creuza Pereira da Silva, Dom Aquino, MT, Cynira de Andrade Aversari, Guarulhos, SP, Elinete Freitas da Costa de Souza, Macapá, AP, Jubilene Maria Belarmino, Itapissuma, MG, Juciane Fregadolli, Maringá, PR, Julimar Santiago Rocha, Salvador, BA, Kaliane de Macedo, Garanhuns, PE, Karlene Cabral Cunha, Codó, MA, Kerhgisvalda da Silva do Nascimento, Diadema, SP, Margeri Azambuja da Silva, Aparecida do Taboado, MS, Mairice Policena de Souza, Castelo de Sonhos, PA, Mara Cristina Ferraz Silva, Álvares Machado, SP, Maria do Socorro Barbosa, Ibicaraí, BA, Miriam Graeff Stach, Panambi, RS, Pollyanna Morais, Itumbiara, GO, Sandra Balbys, Paulo Afonso, BA, Susana Dias Amaral, Vitória da Conquista, BA, e Zilda Maria Melo, Confresa, MT

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CONTATOS
EM Bairro Novo
, R. Pastor Waldomiro Bileski, 71, 81920-300, Curitiba, PR, tel. (41) 3289-3055
EMEF Donald Savazoni, R. Albert Einstein, 91, 07853-055, Franco da Rocha, SP, tel. (11) 4449-4645
Priscila Monteiro

BIBLIOGRAFIA
Metodologia do Ensino da Matemática
, Dione Lucchesi de Carvalho, 120 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3611-9616, 32 reais

INTERNET
Proposta curricular do Ministério da Educação para o 1º segmento do Ensino Fundamental da Educação de Jovens e Adultos
Documento Enseñar Geometría en el Primer y Segundo Ciclo, da prefeitura de Buenos Aires, na Argentina (em espanhol). 

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 228, Dezembro 2009.
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