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Alfabetização estatística

É possível ensinar os alunos a coletar dados e construir gráficos já nas séries iniciais

Paola Gentile

Foto: Gilvan Barreto
Foto: Gilvan Barreto

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Quais os animais preferidos das crianças do 1º ano? Quantos alunos comem verdura? Quanto mede a mão de cada um deles? Curiosidades como essas podem acabar com uma simples contagem ou servir de base para um projeto capaz de iniciar seus estudantes no desenvolvimento de diversas competências, como coletar informações, organizá-las e representá-las na forma de gráficos ou tabelas — além de interpretá-las criticamente.

Para que ler gráficos?

A esse conjunto de saberes foi dado o nome de Tratamento da Informação, tratado nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Matemática como parte da alfabetização. Justifica-se: só está alfabetizado quem sabe ler e interpretar dados numéricos dispostos de forma organizada. "Os meios de comunicação usam essa linguagem diariamente. Por isso, é preciso decodificar essas representações visuais", diz Diva Marília Flemming, da Universidade do Sul de Santa Catarina.

Maria Sueli Monteiro, consultora do Prêmio Victor Civita, diz que muitas vezes os trabalhos de Tratamento da Informação terminam na produção de gráficos, sem ensinar a relacionar os dados nem a criticá-los. "É essencial propor questões com base nesse tipo de representação visual", avalia.

Nunca é cedo demais

Os conteúdos do Tratamento da Informação podem ser introduzidos nos primeiros ciclos, com questões simples como as lançadas no início desta reportagem. A pesquisa adquire consistência com o uso de alguns procedimentos científicos, como a organização de dados de forma livre, a montagem de tabelas e a escrita de um pequeno relatório como conclusão. A partir da 5ª série é possível produzir representações visuais baseadas em textos jornalísticos ou científicos e iniciar os estudantes no raciocínio combinatório, usando para isso materiais de uso comum — um bom exercício é combinar duas camisetas com três bermudas e calcular a quantidade de pares que podem ser formados.

Para desenvolver um bom trabalho nessa área, a pesquisadora Clayde Regina Mendes, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Matemática da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, sugere um roteiro adequado a todos os níveis. A seguir, uma adaptação dos principais conceitos propostos.

1. Definição do tema
Decida com a turma o assunto a estudar (a votação pode gerar uma tabela). Em caso de questões polêmicas, como sexualidade ou drogas, convoque uma reunião com os pais para explicar o trabalho. Sempre que possível, convoque colegas de outras disciplinas para enriquecer o estudo.

2. Leitura e registro
Busque junto com os alunos informações sobre o tema e faça os próprios estudos para dirigir o trabalho.

3. Objetivos
Especifique as metas da pesquisa. Levante as questões que serão respondidas no final do processo. Peça que a turma opine sobre os possíveis resultados (levantamento de hipóteses) e não se esqueça de registrar sempre as hipóteses para, mais tarde, compará-las com as conclusões.

4. Público-alvo
Defina com os estudantes quem serão os entrevistados. Assim fica mais fácil adequar a linguagem ao público na hora de elaborar as perguntas.

5. Instrumentos de pesquisa
Elabore com os alunos questões básicas, curtas e objetivas. As respostas dispostas em forma de alternativas vão facilitar a compreensão pelo entrevistado e, sobretudo, a posterior tabulação. Denomina-se formulário quando as anotações são feitas pelo pesquisador mediante as respostas do entrevistado; e questionário quando o entrevistado anota as próprias respostas. Gravador, lápis e papel são os instrumentos mais utilizados para fazer a entrevista.

6. História
Conte um pouco da história da estatística, se houver interesse da garotada. Com o desenvolvimento das sociedades primitivas, surgiu a necessidade de conhecer numericamente os recursos disponíveis para tomar decisões. A palavra estatística apareceu pela primeira vez no século XVIII, proferida pelo alemão Gottfried Achemmel. Ela vem de statu, que quer dizer estado, em latim. Outras informações podem ser obtidas nos sites listados no Quer saber mais?, ao final desta reportagem.

7. Coleta de dados
Oriente os alunos a se apresentar ao entrevistado, explicar os objetivos da pesquisa e perguntar se ele concorda em responder às questões. Caso a pessoa se recuse, o grupo não pode desanimar. Deve agradecer a atenção e procurar outro entrevistado.

8. Organização dos dados
Numere os formulários, para evitar que eles sejam analisados duas vezes. A tabulação pode ser feita em duplas.

9. Conteúdos
Avance nos conteúdos de Matemática conforme o nível da turma. Intervalo, fração, razão, ângulo, cálculos, proporção e porcentagem são itens que surgem naturalmente. Se os alunos têm condições de explorá-los... Para reforçar, elabore exercícios baseados em notícias de jornal ou revista.

10. Tabelas e gráficos
Ensine os alunos a organizar os dados. Régua, compasso, lápis, transferidor e papel milimetrado são essenciais. Tabelas organizam informações em linhas e colunas, enquanto gráficos usam imagens (barras, setores, linhas ou elementos pictóricos). Essa fase pode ser feita no computador. Com as turmas mais avançadas, compare as tabelas publicadas na mídia (que têm títulos curtos e muitas cores) com as feitas para trabalhos científicos (que precisam seguir normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas, bem mais formais).

11. Análise dos dados
Elabore perguntas cujas respostas possam ser deduzidas das representações e relacionadas com o conhecimento adquirido nas leituras iniciais. O ideal é que esse procedimento se repita ao longo de todo o projeto, mas com as tabelas e os gráficos prontos fica mais fácil levar a turma a analisar corretamente os dados. Assim, todos vão reforçar o raciocínio crítico.

12. Relatório
Mostre como se faz para produzir um relatório. O documento-padrão tem introdução, objetivos, uma descrição de como os dados foram colhidos, o nome dos pesquisadores, os resultados, as tabelas e os gráficos produzidos e uma conclusão final.

13. Avaliação
Faça anotações durante todo o projeto sobre as observações e o raciocínio dos alunos. Anote tudo para aprimorar o próximo projeto. É fundamental analisar o relatório final para saber se as idéias estão organizadas de forma a confirmar que houve aprendizado.

14. Divulgação
Envie cópias para os outros professores e organize uma exposição para os alunos explicar os procedimentos e conclusões às outras turmas.

Quer saber mais?

Clayde Regina Mendes, e-mail: clayde@puc-campinas.edu.br

BIBLIOGRAFIA

Entrelaçando Saberes
, Miriam Cardoso Utsumi (org.), 200 págs., Ed. Insular, tel. (0_ _48) 223-3428, 25 reais

INTERNET

Descubra mais detalhes sobre a história da Estatística nos sites www.ine.pt/prodserv/Literacia/lites.html,
www.esgb-antero-quental.rcts.pt/ NMAT/estatistica.htm e www.estatisticapr.hpg.ig.com.br/historia.htm.

Conheça sugestões de projetos sobre pesquisa de opinião do Instituto Paulo Montenegro no www.ipm.org.br/nsmanual.php

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Publicado em Janeiro 2003,
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