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Leitura de textos informativos: um raio X na notícia

Saber ler para estudar e dominar procedimentos como sublinhar e resumir é o caminho para a autoria de textos informativos

Beatriz Santomauro

Os textos informativos têm a função de abordar algum fato, transmitir dados, atualizar conceitos e ensinar sobre um tema. Isso é o que acontece em reportagens de revistas, verbetes de enciclopédias, notícias de jornais, artigos de divulgação científica e livros didáticos. A maioria dos leitores, ao ter um texto informativo em mãos, quer saber o que está sendo dito e aprender algo com a leitura. Ok, é sempre gostoso ler um texto com um estilo inventivo e bem escrito. Mas, no caso dos gêneros informativos, não resta dúvida: a ênfase é o conteúdo sobre o que se escreve.


Ter isso em mente ajuda a lembrar as habilidades de leitura a ser trabalhadas com esse tipo de gênero. Usando textos informativos, você deve levar a turma a buscar dados específicos, tomar notas, comparar fontes de informação e interpretar a linguagem da diagramação (leia o quadro abaixo). Em poucas palavras, é preciso saber ler para estudar. Além de fundamentais para a vida cotidiana, essas competências são essenciais para que os alunos se tornem, de fato, autores de textos informativos - e não meros copiadores de trechos de referências, como muitas vezes costuma acontecer.

Há diversos procedimentos de leitura para organizar informações e facilitar o entendimento: sublinhar os trechos essenciais para apresentar as ideias, resumir o texto mostrando o que é mais importante e fazer registros em tópicos (leia a sequência didática). Quando o aluno cumpre essas etapas de estudo, as informações fundamentais são destacadas, o que facilita sua retomada para o momento da escrita.

Diagramação e hierarquia, uma dupla inseparável

Nos textos informativos, a intervenção do professor é essencial para orientar a turma a notar qual o tratamento da informação dada pelos veículos de comunicação. Em jornais, revistas e sites, o texto quase nunca aparece em sua forma "pura". Tome as páginas desta reportagem como exemplo: além do chamado texto principal, há título, subtítulos, chamadas no meio do texto, quadros explicativos (como este, que você lê agora), ilustrações, fotos com legenda e infográficos. Esses elementos de diagramação não têm como objetivo deixar a reportagem mais bonita: eles também ambicionam guiar a leitura, enfatizando determinados pontos de vista e opiniões. Espera-se, por exemplo, que o título traga o assunto principal, o subtítulo o complemente e os primeiros parágrafos funcionem como um resumo dos dados mais relevantes. O mesmo vale para as fotos: se são grandes e estão na parte superior da página, tendem a ser mais importantes. Uma boa maneira de levar a turma a refletir sobre essa relação entre diagramação e hierarquia é estimular o debate: o que dizem título, subtítulos, fotos e legendas? Há outro destaque na diagramação, como um quadro com alguns itens ou um trecho colocado em destaque? Quais palavras dão pistas das opiniões do autor?

Esmiuçar cada texto para retirar os dados que mais interessam

Decidir quais estratégias usar - se é mais adequado resumir do que fazer esquemas, por exemplo - depende do tipo de texto e da informação que se quer obter com base na leitura. A aluna Sara Laiane Oliveira Souza, da 6ª série da EMEF Victor Civita, em São Paulo, foi orientada pela professora Priscila Barbosa Arantes a sublinhar e tomar notas em tópicos de diversos textos-fonte de jornais e revistas com um objetivo claro: procurar informações que pudessem ser úteis para o momento de escrever para o jornal mural da escola sobre os 40 anos da chegada do homem à Lua (leia os dois quadros abaixo).

Com a ajuda dos professores, Sara entendeu rapidamente a utilidade dos processos intermediários à escrita propriamente dita. "A maneira de registrar o que mais se destaca permitiu que ela tivesse em mãos a síntese de sua leitura e suas notas de apoio, podendo recuperá-las mais rapidamente do que se ela tivesse de reler tudo de novo", diz Claudio Bazzoni, assessor de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Grifar o que importa ou fazer um apanhado dos conceitos mais relevantes não é coisa simples. "No caso do sublinhado, por exemplo, muitas vezes os alunos escolhem o parágrafo inteiro ou apenas palavras isoladas, ou seja, fazem a atividade sem ter um critério claro do que é o principal", explica Bazzoni. Esse foi um dos conflitos encontrados por Sara. Como avaliar o que é mais importante? A quantidade de rochas trazidas pelos astronautas à Terra? A distância até a Lua? Teria sido mais adequado falar sobre as missões enviadas pelos Estados Unidos? Para orientar o aluno nesse tipo de escolha, você tem de ajudar a delimitar o que vai ser sublinhado e não apenas dizer "grife o mais importante". Uma opção é mostrar suas próprias estratégias, fornecendo a referência de um leitor experiente. Essas dicas valem sempre que alguém estiver vacilante com a escolha de informações.

Já no momento de resumir um texto lido, a turma terá de se preocupar em condensar fielmente as ideias do que lê. É possível iniciar pelo reconhecimento dos blocos significativos - os conceitos que unem cada grupo de frases, períodos ou parágrafos. Em textos curtos, os alunos podem numerar os parágrafos, delimitar os blocos significativos e, só depois disso, escrever o resumo, de modo a ressaltar a correlação entre as partes.  

Antes de escrever, é preciso ler para estudar

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Atividade 1

Aqui estão três textos sobre a Lua. Sublinhe em cada um deles três características do satélite natural. Depois, releia o texto 1 e o texto 2. Com uma caneta de cor diferente, destaque a) as informações sobre a distância entre a Lua e a Terra; e b) as informações sobre as crateras do satélite.

Almanaque Abril
A aluna marca dados sobre as crateras e a distância da Terra. Mas se confunde e sublinha também dados sobre o diâmetro da Lua

Revista Veja
Ela encontra dados sobre a distância e as crateras com facilidade. E destaca a chegada dos americanos ao satélite, os únicos a pisar lá

Livro didático
Durante a atividade, professora sugere marcar as falas dos astronautas, mas a aluna sublinha dados físicos e sobre a ausência de vida na Lua

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Atividade 2

Transcreva informações que você considere importantes para seu texto sobre os 40 anos da chegada do homem à Lua. O que já foi sublinhado não precisa ser novamente destacado.

Resumo do texto 1
Do verbete do Almanaque Abril, aparecem informações sobre a distância entre a Lua e a Terra, crateras e a composição do solo

Resumo do texto 2
Da entrevista de Veja, destaque para o total de amostras de rochas trazidas para análise. O número de missões à Lua foi ignorado

Resumo do texto 3
No livro didático Ciências: O Planeta Terra, o único trecho escolhido pela aluna cita detalhes da chegada do homem ao satélite terrestre  

Leituras feitas, a turma vai para a sistematização e a produção

Depois da leitura e da discussão sobre o conteúdo, é hora de sistematizar as características de cada um dos diferentes gêneros informativos. Quais os termos recorrentes? Os estudantes percebem que esses textos, normalmente escritos em terceira pessoa, não costumam trazer uma opinião pessoal explícita? Veem que as informações tendem a ser rigorosas, com números retirados de fontes como estudos e pesquisas de universidades e entidades internacionais?

Unindo os dados sobre o formato do gênero e o conteúdo apresentado, é hora de planejar o que vai ser escrito, prestando atenção para não somente copiar, transcrever trechos longos na íntegra ou levantar um só aspecto da questão. O ideal é que o aluno consiga se "descolar" dos textos que serviram de base e criar outro novo, fazendo sua própria hierarquia dos dados com base no que selecionou das leituras. Ele deve ter claro para quê, para quem e o quê escrever, informações essenciais dadas por você logo no início do trabalho. Com uma bagagem razoável sobre o tema, espera-se que ele tenha condições de cruzar dados, relacioná-los com os conhecimentos que já tem, refletir sobre o que foi proposto e reorganizar as informações selecionadas numa nova estrutura.

Essa postura não significa jogar para o alto todo o estudo anterior. A turma pode continuar consultando os textos lidos, quando necessário, para confirmar uma grafia, ver como uma definição é usada, qual o verbo utilizado para indicar uma ação etc., mas evitando copiá-los. "Quando o aluno lida com mais de uma fonte, é possível que ele se depare com informações conflitantes. O que fazer com elas? No caso dos textos utilizados por Sara, isso ocorreu com a distância da Terra à Lua. Em um, aparece 380 mil quilômetros. Em outro, 384,4 mil. Nessas ocasiões, o melhor a fazer é buscar mais informações para confirmar uma das versões ou sugerir outra alternativa mais confiável. Entretanto, se o aluno resolver escolher um dos dados ou mesmo usar os dois, deve sempre citar as fontes em seu texto, indicando de onde foram retiradas. "Com a ajuda do professor, a turma acaba percebendo as limitações, as imprecisões e até os furos de notícias e reportagens", completa Bazzoni.

Como ocorre com os demais gêneros, os informativos podem (e devem) ser retomados em diferentes momentos da escolarização. O que vai variar na abordagem do professor será a dificuldade dos textos apresentados e a profundidade das discussões feitas em classe. Quanto mais familiarizado com essas práticas, mais o estudante será capaz de localizar informações, ler para saber mais e escrever sobre o que conhece - habilidades essenciais para a vida acadêmica.

Depois de estudar, é o momento de produzir

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Atividade 3

Você foi convidado a escrever um artigo para o jornal mural da escola sobre os 40 anos da chegada do homem à Lua, comemorados em 20 de julho de 2009. Para elaborar esse artigo, use informações dos três textos que você leu, organizando-as de forma a despertar o interesse do leitor. 

Título
Feito com ajuda da professora, é o que mais obedece à proposta. O restante do texto tende a escapar dela 

Cópia
O termo "essas viagens" indica informação copiada - em seu texto, a aluna menciona só uma viagem

Fuga do tema
São três parágrafos sobre as características físicas da Lua sem uma sequência clara entre os dados

Citação
Boa escolha, mas a autora não percebe que a frase citada é de Edwin Aldrin e não dele e de Neil Armstrong 

Comentário do especialista
"Por ser o primeiro texto informativo escrito pela aluna, ocorrem alguns problemas previsíveis. O principal deles é a falta de autoria, com cópia dos trechos grifados na leitura para estudo. É fundamental que o professor realize revisões e proponha novas produções para criar familiaridade com o gênero." 

Claudio Bazzoni
, assessor de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educacão de São Paulo e selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Agradecimentos: Equipe da EMEF Victor Civita, em São Paulo, e Sara Laiane Oliveira Souza, aluna do 6º série que escreveu, a pedido de NOVA ESCOLA, os textos reproduzidos nesta reportagem.

Quer saber mais?

CONTATOS
Claudio Bazzoni

EMEF Victor Civita, R. Gonçalo Aldana, 385, 05184-300, São Paulo, SP, tel. (11) 3941-1906

BIBLIOGRAFIA
Fichamento, Rosana Morais Weg, 67 págs., Ed. Paulistana, tel. (11) 3744-9754, 16 reais
Resumo, Marli Quadros Leite, 64 págs., Ed. Paulistana, 16 reais  

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 225, Setembro 2009. Título original: Raio X na notícia
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