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Sequência Didática

Literatura na escola - 9º ano: Contos de Julio Cortázar

Introdução
Esta é a décima terceira de uma série de 16 sequências didáticas que formam um programa de leitura literária para o Ensino Fundamental II. Veja, ao lado, o conteúdo completo.

Objetivos
Estimular o gosto pela leitura;
desenvolver a competência leitora;
desenvolver a sensibilidade estética, a imaginação, a criatividade e o senso crítico;
estabelecer relações entre o lido/vivido ou conhecido (conhecimento de mundo);
conhecer as características do gênero Conto;
conhecer as características da narrativa fantástica.

Conteúdos
O conto: características do gênero;
Paráfrase, hipótese, análise e interpretação;
Características da narrativa fantástica.

Tempo estimado
Seis aulas

Ano

9º ano

Material necessário
- Livro Todos os fogos o fogo. Julio Cortázar. Ed. Civilização Brasileira, 2009.

Desenvolvimento

1ª aula: Antecipação/Motivação/Sensibilização

Lance a pergunta à classe:
- Você já ouviu falar do escritor Julio Cortázar? Conhece alguma obra que ele escreveu? Apresente o autor aos alunos.

Julio Cortázar

Filho de pai diplomata, Julio Cortázar nasceu por acaso em Bruxelas, no ano de 1914. Com quatro anos de idade foi para a Argentina. Com a separação de seus pais, o escritor foi criado pela mãe, uma tia e uma avó. Adquiriu o título de professor normal em Letras e iniciou seus estudos na Faculdade de Filosofia e Letras - tendo que abandoná-la em seguida, por problemas financeiros. Para poder viver, deu aulas em diversos colégios do interior do país. Por não concordar com a ditadura vigente na Argentina, mudou-se para Paris em 1951.

Autor de contos considerados como os mais perfeitos no gênero, podemos citar entre suas obras mais reconhecidas "Bestiário" (1951), "Las armas secretas" (1959), "Rayuela" (1963), "Todos los fuegos el fuego" (1966), "Ultimo round" (1969), "Octaedro" (1974), "Pameos y Meopas" (1971), "Queremos tanto a Glenda (1980) e "Salvo el crepúsculo" - póstumo (1984). O escritor morreu em Paris, de leucemia, em 1984.
http://www.releituras.com/jcortazar_menu.asp 

2ª aula: leitura compartilhada

Leia com os alunos o conto "A Autoestrada do Sul", de Julio Cortázar, publicado no livro Todos os fogos o fogo, conversando, ao final da leitura, sobre as possíveis dúvidas e a compreensão do enredo.

3ª aula: o conto como gênero literário
Peça aos alunos que se reúnam em grupos de quatro e, com base no conto lido na aula anterior (e em todos os outros do repertório de sua turma), tentem chegar a uma definição de conto. Em seguida, discuta coletivamente as hipóteses da turma. Tente chegar a uma definição coletiva.

Julio Cortázar, além de grande contista, teorizou sobre o gênero conto. No livro Valise de cronópio (ed. Perspectiva, São Paulo, 2006.), Cortázar fala sobre o gênero em dois momentos: "Alguns aspectos do conto" (p. 135 a 146) e "Do conto breve e seus arredores" (p. 227 a 238).

É interessante que o professor leia tais ensaios para discutir o conto enquanto gênero com seus alunos. A seguir, alguns apontamentos de Julio Cortázar:

("Alguns aspectos do conto")
Quase todos os contos que escrevi pertencem ao gênero chamado fantástico por falta de nome melhor, e se opõem a esse falso realismo que consiste em crer que todas as coisas podem ser descritas e explicadas... (p.148)

... o conto parte da noção de limite, e, em primeiro lugar, de limite físico, de tal modo que, na França, quando um conto ultrapassa vinte páginas, toma já o nome de nouvelle... (p. 151)

...o Romance e o conto se deixam comparar analogicamente com o cinema e a fotografia, na medida em que um filme é em princípio uma "ordem aberta", romanesca, enquanto que uma fotografia bem realizada pressupõe uma justa limitação prévia, imposta em parte pelo reduzido campo que a câmara abrange e pela forma com que o fotógrafo utiliza esteticamente essa limitação. ...o fotógrafo ou o contista sentem necessidade de escolher e limitar uma imagem ou um acontecimento que sejam significativos, que não só valham por si mesmos, mas também sejam capazes de atuar no espectador ou no leitor como uma espécie de abertura, de fermento que projete a inteligência e a sensibilidade em direção a algo que vai muito além do argumento visual ou literário contido na foto ou no conto. (p.. 151-152)

...o romance ganha sempre por pontos, enquanto que o conto deve ganhar por knock-out. (p. 152)

Um conto é ruim quando é escrito sem essa tensão que se deve manifestar desde as primeiras palavras ou desde as primeiras cenas. (p. 152)

Um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta. (p. 153)

...a ideia de significação não pode ter sentido se não a relacionarmos com as de intensidade e de tensão, que já não se referem apenas ao tema, mas ao tratamento literário desse tema. (p. 153)

4ª, 5ª e 6ª aulas: análise de "A Autoestrada do Sul"
Em aulas expositivas dialogadas, analise o primeiro conto de Todos os fogos o fogo, obedecendo aos procedimentos de análise literária organizados abaixo:

1) Paráfrase:
A paráfrase é a primeira parte da análise. Ela corresponde à questão "o que fala o texto?". É um resumo do enredo, um "contar história com as suas próprias palavras", por isso deve ser curta e objetiva, deve resumir-se apenas ao essencial. 

Exemplo: Em um domingo à tarde, motoristas que tentavam chegar a Paris pela Autoestrada do Sul são surpreendidos por um grande engarrafamento. Ninguém sabe a causa do incrível congestionamento que dura horas, dias, meses. Durante esse período, os motoristas dos veículos são obrigados a se organizar como um grupo para conseguir comida, água, agasalhos, cuidar dos doentes e até mesmo decidir o que fazer com os mortos. Ao final, o engarrafamento se desfaz como se fez: sem maiores explicações.

 2) Questão norteadora e hipótese interpretativa:
Quando vamos analisar um texto de ficção, temos como objetivo construir uma interpretação dele ao final da análise. Acontece que, se por um lado a interpretação é uma consequência do que foi investigado na análise, por outro é a própria interpretação que norteia a análise toda. Como assim?

Ao analisarmos um conto, estamos buscando elementos para atingir o seu sentido mais profundo ou, em outras palavras, para interpretá-lo. Ao mesmo tempo, desde o início temos em mente uma ideia do que o conto significa, uma hipótese interpretativa ou um elemento que nos deixou intrigados - algo que parece que a história não responde por si mesma. Por exemplo, sabemos que não encontraremos o motivo que levou ao incrível congestionamento, mas por que o engenheiro do Peugeot 404 fica nostálgico da vida engarrafada quando finalmente o trânsito se põe a andar?

Em uma obra literária de qualidade, há sempre algo a ser respondido pelo leitor. A interpretação se constrói por um trabalho de leitura do qual participam ativamente tanto o escritor quanto aquele que o lê. O autor deixa pontos obscuros, "fios soltos", e cabe ao leitor "desatar os nós", ou seja, formular as perguntas e criar as respostas. Para responder a essas questões menos evidentes na leitura do conto, chamadas aqui de "questões norteadoras", precisamos criar as nossas hipóteses de leitura, nossas hipóteses interpretativas.

Exemplo de questão norteadora: Por que o engenheiro do Peugeot 404, quando finalmente se livra do congestionamento, sente falta da vida na Autoestrada do Sul?

Exemplo de hipótese interpretativa: Talvez isso se explique pelo fato de ele ter se apaixonado, namorado e engravidado a moça do Dauphine.

3) Análise:
Analisar é "desmontar" o texto, é verificar quais são as partes que o compõe e como elas se articulam. Cada obra literária tem inúmeros elementos que, articulados, a constituem. A ideia não é investigar todos - nem seria possível - mas apenas alguns. Quais? A análise deve construir argumentos que sustentem a interpretação. É ela que vai conduzir o leitor através do seu raciocínio.

Não podemos esquecer que, em arte, forma é conteúdo. Por isso, é preciso ressaltar a contribuição que alguns aspectos formais possam vir a ter na economia do conto. O que são aspectos formais? São elementos que se referem menos diretamente a o que está sendo dito e mais ao como está sendo dito, ao tratamento literário do tema. O tipo de narrador, a caracterização de algum personagem, o tempo, o espaço e o tipo de discurso são alguns dos elementos formais que podem ser fundamentais para desvendar mistérios. Se você observar bem o conto escolhido, não será difícil perceber algo que, em sua forma, lhe chame a atenção. Por exemplo, o fato de o narrador, apesar de ser em terceira pessoa, saber do engarrafamento tanto quanto os personagens: apenas um sem número de boatos sobre suas causas.

Existem inúmeros elementos passíveis de análise em uma boa obra literária. Se conseguirmos ter uma boa questão (que se refere mais ao conteúdo) e ainda um olhar atento no que se refere à forma, então já será possível traçar um caminho seguro pelo qual nossa análise pode seguir. Retomemos isso depois.

Exemplo resumido de análise: O conto se inicia já em situação: todos estão parados em um grande congestionamento na Autoestrada do Sul. Aos, poucos, vamos conhecendo os personagens envolvidos: a "moça do Dauphine", o "engenheiro do Peugeot 404"... Nenhum personagem é chamado por seu nome. Temos deles apenas as primeiras impressões que se pode ter em um congestionamento: "duas freiras do 2HP", um homem pálido que dirige um Caravelle etc.

As causas do engarrafamento não são reveladas: o narrador, mesmo em terceira pessoa, tem dos acontecimentos uma visão tão parcial quanto a de qualquer um dos personagens envolvidos. É como se o olhar fosse de um personagem qualquer, constituindo uma narrativa em terceira pessoa com "cara" de primeira.

Para o professor

Veja o que diz Cortázar sobre seu uso peculiar da 3ª pessoa narrativa no ensaio "Do conto breve e seus arredores":

...quando escrevo um conto busco instintivamente que ele seja de algum modo alheio a mim enquanto demiurgo, que se ponha a viver com uma vida independente, e que o leitor tenha ou possa ter a sensação de que de certo modo está lendo algo que nasceu por si mesmo... Talvez por isso, nas minhas narrativas em terceira pessoa, procurei quase sempre não sair de uma narração stricto sensu, sem essas tomadas de distância que equivalem a um juízo sobre o que está acontecendo. Parece-me uma vaidade querer intervir num conto com algo mais que o conto em si. (pp. 229-230)

O tempo do congestionamento, inicialmente contado pela moça do Dauphine em minutos e horas, passa a ser contado em dias pelo narrador e personagens. Depois, as únicas referências tornam-se o calor, o frio e umas árvores à direita que nunca ficam para trás.

Aos poucos, os motoristas são obrigados a travar contato para trocar água, comida, cobertores, cuidar dos doentes e entreter as crianças. O tempo se põe a passar de forma quase estática: todos permanecem parados, preocupados muito mais com a subsistência do que com as causas do incrível acontecimento. Por conta disso, os grupos de engarrafados se organizam em uma espécie de comunidade, repartindo os alimentos e cuidando dos doentes. Ainda assim, continuam a ser chamados pelo nome de seus veículos.

A vida vai entrando em outra lógica, aceita tacitamente pelo narrador e por todos os personagens. É como se fosse dado que, de agora em diante, suas vidas fossem se dar ali, na Autoestrada do Sul. Com naturalidade, acatam o suicídio do homem pálido do Caravelle, o tráfico de mantimentos realizado por um Ford Mercury e um Porsche, o romance entre o engenheiro do Peugeot 404 e a moça do Dauphine, a gravidez da moça, a morte da velha do ID, a sucessão do calor pelo frio e novamente pelo calor.

Sem explicação, depois de um tempo indefinido, a trânsito volta a andar e o grupo se desfaz. O engenheiro fica atordoado com a nova ordem que se impõe.

5) Interpretação:
A interpretação corresponde à questão "do que fala o texto?". Ela busca o sentido profundo da obra literária. Quando analisamos, queremos saber o que está dito através dos silêncios, nas entrelinhas; o que se origina da relação íntima entre forma e conteúdo. Se na análise desmontamos o texto em partes, na interpretação temos de reorganizá-lo como um todo, um todo de sentido capaz de reunir forma e conteúdo. Por isso, é essa a hora de dar resposta às questões pendentes.

Exemplo resumido de interpretação:
Temos duas questões a responder, separadas, sempre artificialmente, entre uma questão sobre o conteúdo da narrativa (Por que o engenheiro do Peugeot 404, quando finalmente se livra do congestionamento, sente falta da vida na Autoestrada do Sul?) e uma questão de forma literária (Por que o narrador, apesar de ser em terceira pessoa, mantém dos acontecimentos uma visão tão parcial quanto seus personagens?).

O engenheiro do Peugeot 404 parece realmente ter se apegado a suas novas circunstâncias de vida na Autoestrada do Sul:

Nada mais se podia fazer a não ser entregar-se à marcha, adaptar-se mecanicamente à velocidade dos automóveis em redor, não pensar. (...) Absurdamente, aferrou-se à ideia de que às nove e meia seriam distribuídos os alimentos, teria que visitar os doentes, examinar a situação com o Taunus e o camponês do Ariane; depois viria a noite, seria Dauphine subindo sigilosamente em seu automóvel, as estrelas ou as nuvens, a vida. Sim, não era possível que isso tivesse acabado para sempre. (...) ...se corria a oitenta quilômetros por hora em direção às luzes que cresciam pouco a pouco, sem que já se soubesse bem para que tanta pressa, por que essa correria na noite entre automóveis desconhecidos onde ninguém sabia nada sobre os outros, onde todos olhavam fixamente para a frente, exclusivamente para a frente.

O regresso ao movimento na estrada não significava para ele apenas o retorno ao lar. Marchando em alta velocidade e olhando exclusivamente para frente, os personagens do conto regressam a uma ordem na qual, diferentemente da vida na Autoestrada, já não se olha para quem está ao lado, não se sabe nada das pessoas, e todos correm alucinadamente atrás de algo que não se sabe o que é. Uma ordem tão absurda ou mais do que a precária comunidade sem tempo e sem pressa que se estabelecera na Autoestrada do Sul.

Para o professor

Veja o que diz Cortázar sobre a narrativa fantástica no ensaio "Do sentimento do fantástico" (in: Valise de cronópio. São Paulo, Perspectiva, 2006.):

...A extrema familiaridade com o fantástico vai ainda mais longe; de algum modo já recebemos isso que ainda não chegou, a porta deixa entrar um visitante que virá depois de amanhã ou veio ontem. A ordem será sempre aberta, não tenderá jamais a uma conclusão porque nada conclui nem nada começa num sistema do qual somente se possuem coordenadas imediatas. (pp. 177-178)
...o verdadeiramente fantástico não reside tanto nas estreitas circunstâncias narradas. Mas na sua ressonância de pulsação, de palpitar surpreendente de um coração alheio ao nosso, de uma ordem que nos pode usar a qualquer momento para um de seus mosaicos, arrancando-nos da rotina... (p. 179)

Vimos na análise do conto que não cabe indagar pelas razões do incrível congestionamento. O ponto de vista narrativo, estritamente vinculado ao olhar dos personagens, reverbera ignorância à maneira kafkiana: nem o engenheiro do Peugeot 404, nem o narrador, nem muito menos o leitor conhecem ou conhecerão as causas do fantástico acontecimento. Dessa forma, Julio Cortázar lança o leitor no terreno da narrativa fantástica, onde subitamente e sem maiores explicações uma ordem de funcionamento das coisas é substituída por outra, aceita tacitamente como a ordem do real. Cortázar nos lembra que a ordem "natural" do funcionamento da vida e da sociedade é apenas uma ordem entre outras e, sendo assim, muitas outras ordens seriam possíveis.

A narrativa fantástica aponta para o horizonte da utopia: o mundo, tal como existe, é mais produto de uma circunstância do que de uma fatalidade; o que nos lembra sempre de que outros mundos, quiçá melhores e mais justos, podem vir a substituir esse que conhecemos.

Avaliação

Peça aos alunos que respondam por escrito a duas questões sobre "A Autoestrada do Sul":
1) Observe que nunca sabemos os nomes dos personagens do conto: todos são chamados essencialmente pelo nome de seus veículos. Arrisque uma hipótese interpretativa que explique tal escolha formal.
2) Compare o tempo da vida nas grandes cidades com o tempo experimentado pelos habitantes da Autoestrada do Sul durante o congestionamento Para tanto, releia os fragmentos a seguir:

a) Mas o frio começou a ceder, e depois de um período de chuvas e ventos que exasperaram os ânimos e aumentaram as dificuldades de abastecimento, seguiram-se dias frescos e ensolarados em que já era possível sair dos automóveis, fazer visitas, reatar relações com os grupos vizinhos.

b) Os automóveis corriam em terceira, adiantando-se ou perdendo terreno de acordo com o ritmo de sua fila, e do lado da Autoestrada viam-se as árvores fugindo, algumas casas entre a massa de névoa e o anoitecer. (...) De quando em quando soavam buzinas, os ponteiros dos velocímetros subiam cada vez mais, algumas filas avançavam a setenta quilômetros, outras a sessenta e cinco, algumas a sessenta. O 404 havia esperado ainda que o avanço e o recuo das filas lhe permitissem chegar novamente até o Dauphine, mas cada minuto o persuadia de que era inútil, de que o grupo se dissolvera irrevogavelmente...

Consultoria

Helena Weisz
Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP)

Regiane Magalhães Boainain
Mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC- SP)

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