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Sequência Didática

Literatura na escola - 7º ano: Poemas de Manuel Bandeira

Introdução
Esta é a sétima de uma série de 16 sequências didáticas que formam um programa de leitura literária para o Ensino Fundamental II. Veja, ao lado, o conteúdo completo.

Objetivos
Estimular o gosto pela leitura;
Desenvolver a competência leitora;
Desenvolver a sensibilidade estética, a imaginação, a criatividade e o senso crítico;
Estabelecer relações entre o lido/vivido ou conhecido (conhecimento de mundo);
Reconhecer a diferença entre sentido literal e figurado;
Aprofundar-se na particularidade da palavra poética.

Conteúdos
Intertextualidade;
Paródia;
Paráfrase, análise e interpretação;
Eu lírico ou Eu poético.

Tempo estimado
Quatro aulas

Ano
7º ano

Material necessário
Livro Belo Belo e outros poemas. Manuel Bandeira, 48 págs, José Olympio, tel (21) 2585 2000, preço 32 reais
Poema O Adeus de Teresa, de Castro Alves

Desenvolvimento

1ª etapa: paráfrase e hipótese interpretativa

Coloque no quadro o seguinte poema de Belo Belo:

Teresa

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Peça que os alunos respondam por escrito:

1) a) O que fala o poema? Faça uma "paráfrase", ou seja, explicite seu conteúdo no nível mais literal possível.

Na paráfrase, o leitor deve ater-se ao que as palavras significam literalmente, no seu sentido usual, como se estivessem fora de contexto. Quando interpretamos um poema, buscamos seu sentido figurado, aquele que só existe em situações não usuais. Para isso, temos que ler nas entrelinhas.

Assim, literalmente o poema Teresa apresenta um Eu-Lírico que observa Teresa em três momentos diferentes e, em cada um deles, obtém uma impressão diversa.

b) Quais são as três impressões do Eu-lírico sobre Teresa?

2) Do que fala o poema? Arrisque uma interpretação do sentido figurado, das entrelinhas de Teresa.

O poema figura uma aproximação amorosa entre o Eu-lírico e Teresa. Num primeiro momento, ele rejeita a sua aparência física; num segundo momento, se interessa pelo seu olhar; por fim, se apaixona cegamente.

Verifique se a classe conseguiu atingir o sentido figurado do poema. Mostre a eles que, para entendê-lo por completo, é preciso analisar a intertextualidade por traz dele.

2ª etapa: análise

Recoloque o poema na lousa e analise-o em aula dialogada.

Na primeira estrofe, o Eu-lírico conta que, quando viu Teresa pela primeira vez, achou-a estúpida. Note que primeiro ele olha para as pernas - o que pode sugerir que ela seja mais alta que ele - e depois para o rosto. A escolha da palavra "cara" sugere também um Eu-lírico de pensamento infantil, pois a perna é estúpida e Teresa tem cara de perna.

Na segunda estrofe, percebemos uma mudança de olhar do Eu-lírico sobre Teresa: ele atenta para o olhar da moça - não para os olhos ou para a "cara" - e reflete sobre sua maturidade.

Na última estrofe, as palavras são empregadas no sentido figurado com mais opacidade. A metáfora utilizada por Bandeira exige reconhecimento da intertextualidade com o texto bíblico do Gênesis, em que é descrita a versão cristã para a criação do Universo.

3ª etapa: análise intertextual

Pergunte aos alunos se eles conhecem explicações não-científicas para o surgimento do Universo. Garanta que a sala compartilhe os conhecimentos individuais.

É importante reforçar que antes da criação do céu e da terra, havia apenas um universo caótico e sem forma, e que as ações nas narrativas sobre a Origem se dão no sentido de ordenar esse caos.

Cabe reforçar também que a explicação científica para a origem do Universo só se tornou hegemônica na Europa, no século XIX. Antes disso, o homem produzia explicações mitológicas, a fim de dar sentido aos fenômenos que nos cercam. A essas explicações, damos o nome de mito.

4ª etapa: interpretação

Retome a discussão da aula anterior e a última estrofe de Teresa. Peça que os alunos busquem no poema os versos que remetem à explicação cristã para a criação do Universo. Em seguida, perguntar o que muda do fragmento bíblico para os versos de Bandeira.

Podemos deduzir que o Eu-lírico se apaixona por Teresa na terceira estrofe. No verso "Na terceira vez não vi mais nada", o poema dialoga com uma metáfora da fala cotidiana - estar cego de paixão, ou "o amor é cego". Os dois últimos versos confirmam a paixão na medida em que parodiam o texto bíblico, invertendo a ordenação divina em desordem passional. Mais ainda, o encontro do céu e da terra sugere o enlace erótico de forma sublimada.

Mais sobre paródia

Não há maneira de se estudar a paródia sem mencionar o nome de Mikhail Bakhtin. Em Problemas da poética de Dostoievski, Bakhtin (2005) afirma que, por meio dos diálogos interdiscursivos presentes no discurso dostoievskiano, é possível constatar dois fenômenos: a estilização e a paródia. Na estilização, o autor emprega o discurso de um outro e movimenta-o sem negar os princípios do discurso modelar. No entanto,

É diferente o que ocorre com a paródia: nesta, como na estilização, o autor fala a linguagem do outro, porém, diferentemente da estilização, reveste esta linguagem de orientação semântica oposta à orientação do outro. A segunda voz, uma vez instalada no discurso do outro, entra em hostilidade com o seu agente primitivo e o obriga a servir a fins diametralmente opostos. O discurso se converte em palco de luta entre duas vozes. Por isso, é impossível a fusão de vozes na paródia, como o é possível na estilização ou na narração do narrador. (BAKHTIN, 2005, p.194).


A paródia, como modalidade interdiscursiva, conta sempre com o leitor. Jenny (1979), ao discutir a importância do leitor na percepção da intertextualidade, afirma que cada referência comporta duas possibilidades de leitura: em uma, o discurso de outrem é encarado como "parte integrante da sintagmática do texto", sem que o leitor se preocupe em desvendá-lo. Em outra, as menções poderão ser investigadas e o leitor compreenderá o sentido provocado pela referência intertextual. Nesse tipo de leitura, exige-se um maior grau de preparo do leitor.

Avaliação
Leia com a classe o poema O adeus de Teresa, de Castro Alves:

O adeus de Tereza - Castro Aves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co’a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus".

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saiu um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos... séculos de delírio...
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse - "Voltarei!... descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

Após assegurar a compreensão literal, peça um trabalho, em grupos de três, no qual se comparem os poemas de Castro Alves e Bandeira a partir das seguintes questões:

a- O poema de Castro Alves foi escrito aproximadamente um século antes do de Manuel Bandeira. O poema de Bandeira pode ser lido como uma paródia do de Castro Alves?
b- O que da estrutura do poema O adeus de Teresa se mantém em Teresa?
c- Em qual dos dois poemas a linguagem se aproxima mais da fala cotidiana? Por quê?
d- No poema de Manuel Bandeira, o Eu-lírico termina unido à sua amada. Ocorre o mesmo no de Castro Alves?
e- Há algum momento, no poema de Bandeira, em que ele sai do registro cotidiano da linguagem e se torna mais parecido com o de Castro Alves? Por quê?

Quer saber mais?

Poemas de Manuel Bandeira:
http://www.releituras.com/mbandeira_menu.asp
http://www.revista.agulha.nom.br/manuelbandeira.html
http://www.pensador.info/poemas_de_manoel_bandeira/

No site do Brasil Escola, você encontra mais informações sobre sentido literal e figurado
Para saber mais sobre intertextualidade, leia "Intertextualidade, norma e legibilidade", de Gerard Vigner

Consultoria

Helena Weisz
Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP)

Regiane Magalhães Boainain
Mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC- SP)

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