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Histórias de leitura sem fim

Graciliano Ramos
O melhor jeito de formar leitores é deixar as crianças livres para investigar, folhear e escolher o que quiserem

Ricardo Prado

A biblioteca ambulante viaja pelas escolas de Ribeirão Pires: teatro garante boa comunicação.  Foto: Gilvan Barreto
A biblioteca ambulante viaja pelas 
escolas de Ribeirão Pires: teatro 
garante boa comunicação. 
Foto: Gilvan Barreto

Vamos conhecer duas histórias felizes de leitura. Nelas, os livros derrubaram preconceitos e antigos mitos pedagógicos. O mais persistente deles sugere ao professor usar textos para treinar encontros consonantais, localizar dígrafos ou preencher fichas de compreensão. Acreditava-se, assim, matar dois coelhos: um chamado análise linguística, outro interpretação. Mas o que estava sendo morto, a golpes de gramática, era o futuro leitor. Graciliano Ramos relata, em Infância, que tomou raiva e desconfiança dos livros justamente por vê-los como obrigação, chatice, caceteação. Se alguém como "o velho Graça" trouxe dos tempos de escola essa péssima lembrança, dá para imaginar o estrago que a obrigação fez em cabeças menos preparadas. Ler naquela época, muitas vezes em voz alta e sob estreita vigilância do mestre, era quase uma sessão de tortura. É claro que muita gente encontrou gosto na prática, apesar da compulsoriedade. Raramente, porém, isso aconteceu graças a ela.

Esse caminho não deu certo. Tanto que no último Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), um exame que envolveu 265 mil estudantes de 32 países no final de 2001, a última colocação dos representantes brasileiros obrigou o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, a ser taxativo: "Nossa escola não sabe ensinar a ler e ponto". O caminho alternativo aponta para a criação do hábito. E isso se consegue deixando que leiam, que digam, que pensem. "Quer coisa mais bonita que uma lombada cheia de marcas? É sinal de que muita gente passou por ali e certamente saiu mais rica", argumentou certa vez a consultora em educação e comunicação Madza Ednir, diante de uma professora inconformada com o mau estado de um volume dos mais disputados de sua escola. 

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Nossas duas histórias são felizes porque ousaram dar o verdadeiro nome ao ato de ler: emoção. Personagens misteriosos, tramas envolventes, surpresas ao virar páginas, desfechos inesperados, nada disso é um ato qualquer, corriqueiro. O escritor italiano Ítalo Calvino definia esse acontecimento mental poderoso, único, revelador de mundos, da seguinte forma: "Ler é aproximar-se de algo que acaba de ganhar existência".

Houve dificuldades semelhantes nas duas escolas para montar acervos e contrariar hábitos condicionados. Só que em ambas, diferentemente das páginas de algumas histórias, ninguém "foi feliz para sempre" no final. Não por falta de felicidade, mas por falta de final mesmo. O objeto-livro entrou no cotidiano dos alunos e continua lá até hoje. Ao cabo delas, veremos que não precisam, de fato, de um grand finale. E justamente por isso são bem-sucedidas

Vestiu um ônibus de livros e saiu por aí...

Quer criar leitores? Cerque as crianças de livros. Que tropecem neles enquanto andam pela escola, que eles sejam uma presença tão constante que seja impossível ignorá-los. Essa premissa serviu como ponto de partida para Cínzia Ferreira do Amaral, diretora da Escola Municipal Comendador Abdalla Chiedde, em Ribeirão Pires (SP), implantar um estado permanente de leitura na escola, que atende crianças de 4 anos até a 4ª série.

Na entrada, ao lado da secretaria, lugar em geral asséptico e neutro, há um aconchegante espaço com almofadas e estantes baixas onde ficam os volumes relacionados ao tema gerador. O palco, localizado no pátio, é usado freqüentemente para peças que os alunos criam a partir das histórias que lêem. Cada turma tem sua biblioteca de classe, na qual os títulos são trocados periodicamente pela professora, para que se adequem ao tema trabalhado. Isso acontece mesmo em classes que ainda não estão alfabetizadas. "Tenho visto várias crianças que estão conosco desde os 4 anos chegando à 1a série como leitoras já formadas", conta Cínzia, à frente do Abdalla há onze anos. Na sua gestão, ela conseguiu formar uma biblioteca (sim, além das bibliotecas de sala há outra, central) com cerca de três mil volumes. Para isso, recorreu a doações de empresas e principalmente da comunidade, de uma forma simples: pedia um livro para cada mãe que matriculasse seu filho. Contribuição não obrigatória, mas raramente negada. Quando os volumes começaram a se acumular, Cínzia conseguiu com a prefeitura uma bibliotecária emprestada. Os livros foram classificados e as estantes colocadas de forma que pudessem ser alcançadas por leitores com menos de um metro. Uma questão de ponto-de-vista.

Os alunos também podem escolher o que querem ler em casa. "Não é obrigatório, mas nunca vi uma criança que não quisesse levar um livro na sexta-feira", completa Cínzia. Como alguns pais são analfabetos, são eles que escutam as histórias lidas pelos filhos. "Uma escola que tem um projeto de leitura permite a adesão de professores que não têm hábito de ler. Ou essa inversão curiosa de papéis, quando a criança é quem nina a mãe com uma história", comenta Maria José Nóbrega, consultora da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e membro da Associação Brasileira de Leitura.

Desde o ano passado a "obsessão leitora" do Abdalla ganhou uma vertente móvel. Ou melhor, uma estante móvel. Para disseminar essa idéia entre as 16 unidades da rede municipal, a escola empresta regularmente um ônibus da Secretaria de Educação e o transforma em biblioteca ambulante. Pendendo do fio que segura a cortina das janelas, pequenas estantes feitas de pano, velcro e costuradas com plástico transparente exibem os volumes prediletos entre os pequenos leitores. A criançada escolhe os preferidos, separa aqueles que foram transformados em peças de teatro (são os que todos querem ler, logo após a apresentação) e lá vão eles, espalhar o que acabaram de descobrir: que ler é como embarcar em um ônibus e viajar.

Uma escola rural onde se lê todo dia

 

Leitura em voz alta e caixotes itinerantes: todo dia é dia de história nesta escola rural.
Leitura em voz alta e caixotes 
itinerantes: todo dia é dia de 
história nesta escola rural.

Vera Lucia Consolini, professora na escola rural José Avelino, em Poços de Caldas (MG), está cercada pela 2ª série. É hora da leitura diária e seus alunos estão sentados no chão, junto dela. A maioria veste camisetas com furos e têm os pés descalços sapato, só para ir à cidade. Mas têm ao alcance livros, autores e edições de primeiro time, como José Paulo Paes, Cecília Meireles, Ana Maria Machado ou clássicos internacionais infanto-juvenis, como As Memórias de Bruxonilda. Amanda de Oliveira, uma das contadoras de história que faz visitas periódicas à escola, lê um volume ilustrado sobre os bichos da fazenda.

A criançada conhece o assunto, e demonstra isso aos berros. Quando Amanda reproduz o som produzido pelo galo, tal como está escrito, é secundada por um coro do canto com que aquelas crianças acordam toda manhã. É um som gutural, mais próximo do verdadeiro do que o dela, universitária, habitante de São Paulo, onde não há mais galos nos quintais. Em compensação, a classe se espanta com uma concha. "Que é isso, tia?", estranham, tão longe estão de conhecer os bichos do oceano.

"Quem aqui conhece o mar?" Ninguém. Mas já o viram pela TV e sabem que as conchas vivem nele. "Nas casas aqui da roça conversa-se muito pouco, quase nada. Toda informação vem da escola ou da TV", comenta a vice-diretora Maria Aparecida Silva Muller.

Passemos para a classe da professora Danusa Ribeiro Neves, que leciona Matemática. Ela está lendo para sua turma da 8ª série uma adaptação juvenil de Romeu e Julieta. Sim, Shakespeare está em sala e os adolescentes parecem muito interessados no desfecho do romance criado há quase quatro séculos. A professora também. "Vou lendo em capítulos, sem saber como termina. Também pensava que nem eles: ah, letra miúda, sem figura, não leio. Mas estou mudando de idéia. Um dia desses, me empolguei tanto com a história que, em vez de ler meus dez minutos diários, ocupei a aula inteira", relata Danusa na reunião entre os professores e os coordenadores do projeto, a Fundação Abrinq e o Centro de Estudos A Cor da Letra.

Na Educação Infantil, a professora Marieta Carneiro dos Santos pede que todos depositem seus exemplares no centro do círculo para prestarem atenção na história que ela vai contar. Enquanto ela se concentra na narrativa, as crianças vão discretamente recuperando seus livros, puxando-os com os dedos dos pés ou agachando-se, um olho na professora e outro no objeto a ser alcançado. Em pouco tempo, todos recuperaram seus volumes e parecem mais interessados neles do que na leitura da professora.

Em vez da aula expositiva, querem a liberdade de passar de um assunto para outro, de uma imagem para outra. Muitos deles já são pequenos leitores, mesmo antes daqueles garranchos pretos chamados letras fazerem algum sentido. "A principal dificuldade em trabalhos desse tipo não é mostrar o que fazer, mas justamente o que não fazer", analisa Cíntia Carvalho, uma das coordenadoras do projeto Biblioteca Viva, da Fundação Abrinq. Parece simples, mas não é. Os professores carregam desde a época em que se sentavam nos bancos escolares o hábito de "fazer alguma atividade com o texto". Ler para a classe e permanecer quieto, aguardando as impressões surgirem, ou deixar que os alunos flanem livremente pelas páginas é desafiar a lógica da leitura como meio para se alcançar alguma coisa e não como um fim em si mesmo.

Na reunião de professores discute-se o que fazer com o "contrabando de títulos" provocado por alguns alunos que não se conformam com o rodízio mensal dos caixotes, contendo 60 exemplares cada. Isso não era justo, pois algumas turmas poderiam ficar com menos volumes que outras; por outro lado, era um bom sinal. Aquela escola nunca havia presenciado crianças disputando um livro...

Tão improvável como ver filhos de agricultores lutando para manter livros por perto é o fato deste projeto ter nascido por iniciativa do proprietário da Fazenda Lambari, onde se localiza a escola. Investindo nela, ele alimenta a esperança de reter sua mão-de-obra, sempre tão fugaz. É costume entre as fazendas de café uma itinerância intensa, que prejudica a produção. Fazendo a ponte entre livros e crianças pouco afeitas a eles, um grupo de mediadores de leitura trabalha com os professores, há três anos, a mesma idéia: quem forma leitores, cria cidadãos. Se sairão muitos deste projeto, ainda é cedo para saber. Mas se não fazê-lo, como sabê-lo?

Quer saber mais?

Escola Municipal José Avelino de Melo, Rodovia Poços-Palmeiral, km 12, CEP: 37700-000, Poços de Caldas, MG, tel. (35) 3715-8072

Escola Municipal Comendador Abdalla Chiedde, R. Aspásia, 334, CEP: 09400-000, Ribeirão Pires, SP, tel. (11) 4828-1755

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Publicado em Março 2002.
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