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Sequência Didática

Gramática com textos: 8º ano - a vírgula

Introdução
Esta é a décima segunda de uma série de 16 sequências didáticas que fazem parte de um programa de estudo de gramática para 6º a 9º ano do Ensino Fundamental. Confira ao lado todas as aulas da série.

Objetivo
Identificar diferentes usos da vírgula.

Conteúdo
Sinal de pontuação: vírgula

Tempo estimado
Cinco aulas

Desenvolvimento

1ª etapa - Clarice Lispector e uma reflexão sobre a vírgula
Inicie a aula com o trecho de abertura da obra Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres de Clarice Lispector. Entregue aos alunos o primeiro parágrafo e leia-o em voz alta para a classe.

Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres  - Clarice Lispector

, estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos, dera vários telefonemas tomando providências, inclusive um dificílimo para chamar o bombeiro de encanamentos de água, fora à cozinha para arrumar as compras e dispor na fruteira as maças que eram a sua melhor comida, embora não soubesse enfeitar uma fruteira, mas Ulisses acenara-lhe com a possibilidade futura de por exemplo embelezar uma fruteira, viu o que a empregada deixara para jantar antes de ir embora, pois o almoço estivera péssimo, enquanto notara que o terraço pequeno que era privilégio de seu apartamento por ser térreo precisava ser lavado, recebera um telefonema convidando-a para um coquetel de caridade em benefício de alguma coisa que ela não entendeu totalmente mas que se referia ao seu curso primário, graças a Deus que estava em férias, fora ao guarda-roupa escolher que vestido usaria para se tornar extremamente atraente para o encontro com Ulisses que já lhe dissera que ela não tinha bom-gosto para se vestir, lembrou-se de que sendo sábado ele teria mais tempo porque não dava nesse dia as aulas de férias na Universidade, pensou no que ele estava se transformando para ela, no que ele parecia querer que ela soubesse, supôs que ele queria ensinar-lhe a viver sem dor apenas, ele dissera uma vez que queria que ela, ao lhe perguntarem seu nome, não respondesse "Lóri" mas que pudesse responder "meu nome é eu", pois teu nome, dissera ele, é um eu, perguntou-se se o vestido branco e preto serviria, então do ventre mesmo, como um estremecer longínquo de terra que mal se soubesse ser sinal de terremoto, do útero, do coração contraído veio o tremor gigantesco duma forte dor abalada, do corpo todo o abalo - e em sutis caretas de rosto e de corpo afinal com a dificuldade de um petróleo rasgando a terra — veio afinal o grande choro seco, choro mudo sem som algum até para ela mesma, aquele que ela não havia adivinhado, aquele que não quisera jamais e não previra — sacudida como a árvore forte que é mais profundamente abalada que a árvore frágil — afinal rebentados canos e veias, então sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranquilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro — pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver. Lembrou-se de escrever a Ulisses contando o que se passara, mas nada se passara dizível em palavras escritas ou faladas, era bom aquele sistema que Ulisses inventara: o que não soubesse ou não pudesse dizer, escreveria e lhe daria o papel mudamente — mas dessa vez não havia sequer o que contar.

Disponível em: LISPECTOR, C. Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. http://www.scribd.com/doc/3102385/Clarice-Lispector-Uma-Aprendizagem-ou-O-Livro-dos-Prazeres-86-pags. Acesso em: 24 de out. 2010.

Peça que os estudantes se coloquem em duplas e releiam o texto, procurando explicar o uso da vírgula. Dê um tempo para que criem suas hipóteses.

Ouça as respostas da turma e comente-as. É provável que alguém diga que o excesso de vírgulas e a falta de outros sinais de pontuação é resultado de um erro ou do desconhecimento da autora a respeito das formas corretas de escrita. Explique à classe que essa ideia está equivocada. Comente que os bons livros - como os de Clarice Lispector - são como obras de arte. Eles se caracterizam pela quebra de paradigmas e conseguem fazer com que um aparente equívoco ganhe novos significados.

Questione os alunos sobre as intenções da autora ao escrever um parágrafo tão grande, todo separado por vírgulas. Pergunte que sensação o texto passa. Para ajudar na resposta, peça que comecem analisando o uso da vírgula no início da primeira frase. Veja se alguém tem um palpite sobre o que a autora queria dizer ao começar o texto com vírgula. Dê um tempo para que reflitam.

Explique, então, que a intenção de Clarice era mostrar ao leitor que a história não começou ali. Os fatos estão ligados a uma série de acontecimentos anteriores. A abertura do texto, na verdade, é um pseudoinício: a pontuação insinua que a história se inicia em um momento anterior à primeira página.

Comente com a classe que essa ideia de uma sucessão de ações que se entrelaçam fica clara por meio da sequência de vírgulas. Elas são usadas para segmentar frases, dividir orações e sequenciar e organizar informações.

2ª etapa - a vírgula e a pontuação sequencial
Proponha que a moçada discuta três diferentes usos da vírgula por meio da análise de manchetes de jornal. Coloque a primeira delas no quadro:

O mundo perde, ao ano, uma Itália em áreas cultivadas
Disponível em: www.ig.com  Acesso em 25 out. 2010

Sublinhe o verbo perde e pergunte aos alunos com que palavras ele se relaciona. A turma deve perceber que ele está diretamente ligado a mundo, sujeito da frase, e a uma Itália, complemento do verbo. Explique que esses três elementos juntos criam uma unidade sintática.

Peça que os alunos coloquem a frase na ordem direta - sujeito, verbo e complemento, seguidos pelas circunstâncias temporais, espaciais ou de outra natureza. Eles devem chegar à seguinte manchete:

Mundo perde uma Itália ao ano em áreas cultivadas

Mostre à classe que, nesse caso, não é necessário usar vírgulas. Explique que não se separa com vírgula sujeito e verbo nem verbo ou nome e complemento.

Diga aos alunos que essa regra só é quebrada quando ocorre uma intercalação - ou seja, quando se introduz um elemento no meio da frase. Foi o que aconteceu na versão original da manchete. O termo ao ano foi colocado entre o verbo perde e o complemento uma Itália. Nesse caso, é preciso sinalizar o novo elemento colocando-o entre vírgulas.

Para facilitar o entendimento, use a imagem dos parênteses. "O mundo perde (ao ano) uma Itália em áreas verdes". Explique que a intercalação está associada à ideia de subtração: os elementos que estão entre as vírgulas podem ser retirados sem que se perca o sentido da frase.

Coloque a segunda manchete no quadro.

Para conter surto de cólera no Haiti, Brasil envia medicamentos na 4ª
Disponível em: Disponível em: www.terra.com.br Acesso em 25 de out. 2010

Pergunte aos alunos quais os elementos sintaticamente relacionados ao verbo envia. Eles devem citar as palavras Brasil e medicamentos. Pergunte por que não há vírgulas no trecho Brasil envia medicamentos na 4ª. A turma deve relembrar a explicação anterior e perceber que o trecho mantém a ordem direta, sem ser necessário o uso do sinal de pontuação.

Chame a atenção, então, para a primeira parte da manchete - Para conter surto de cólera no Haiti. Mostre aos estudantes que ela também indica uma circunstância, mas seu lugar na frase está invertido. Pensando na ordem direta, as circunstâncias de modo, tempo e espaço deveriam estar no final do período. Conclua com a classe que se trata de outra situação em que é preciso usar vírgulas: a inversão.

Passe à análise da terceira manchete.

Histórias de Ferreira Gullar
O poeta maranhense fala sobre inspiração, escrita e pintura em entrevista
Disponível em: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/literatura/historias-ferreira-gullar-602624.shtml Acesso em: 25 out. 2010. Com corte.

Seguindo a lógica anterior, pergunte aos alunos se a ordem direta foi respeitada. Eles vão perceber que sim (Sujeito - o poeta maranhense - , verbo - fala - e complemento - sobre inspiração, escrita e pintura em entrevista). Questione-os, então, sobre o uso da vírgula.

Dê um tempo e explique aos alunos que ela aparece para indicar a coordenação de termos. Se, na primeira manchete, falou-se em intercalação e subtração; na segunda, em inversão; na terceira manchete pode-se falar em adição - a vírgula aparece para somar elementos.

Como atividade, proponha que os alunos reescrevam as manchetes, substituindo a expressão que caracteriza o uso da vírgula por outra. Dessa forma, a primeira manchete poderia ser reescrita assim: Mundo perde, inexplicavelmente, uma Itália em vastas áreas cultivadas. A segunda ficaria: Com o intuito de agradar Haiti, Brasil envia medicamentos na 4ª. E a terceira seria algo como: O poeta maranhense fala sobre medo, escrita e produção de poesias.

Se preferir, sugira que os estudantes criem suas próprias manchetes aproveitando as três situações de uso da vírgula.

3ª etapa - observação do uso da vírgula
Proponha que os alunos retomem as duplas e investiguem o uso da vírgula nos trechos de notícias abaixo. Peça que enumerem as diferentes aparições do sinal de pontuação e, depois, que elaborem uma legenda para explicá-las.

Quadrinhos levados a sério

Com livros em HQ distribuídos pelo governo federal, gênero entra de vez na pauta dos professores

Quando Cristina de Macedo, 47, estava na escola, HQ (história em quadrinho) era assunto quase proibido.

Hoje, a professora de língua portuguesa do colégio Santa Maria (zona sul de São Paulo) usa nas suas aulas uma adaptação em HQ do livro A Metamorfose, de Franz Kafka, para ensinar a seus alunos de 12 e 13 anos o gênero literário dos quadrinhos e, de quebra, apresentar a obra.

GOMES, P. Quadrinhos levados a sério. Folha de S. Paulo. 25 de out. de 2010.

Invenções acessíveis

Feira Internacional de Ciências apresenta 300 projetos e jovens inventores do mundo todo

A cidade de Novo Hamburgo (RS) se transformou, na semana passada, em uma espécie de Babel de sotaques.
Durante a Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia, estudantes de todo o país falaram um português variado com contribuições de diversas regiões. Já o inglês aparecia com toques que iam do cazaque ao eslovaco.

BERCITO, D. Invenções acessíveis. Folha de S. Paulo. 25 de out. de 2010.

Mais Forte

Na estreia do técnico Tite, Corinthians supera o Palmeiras, encerra série de sete jogos sem triunfos e fica a apenas um ponto da liderança do Brasileiro

Acabou a agonia corinthiana. Trinta e dois dias, sete rodadas, um técnico demitido e uma crise depois, o Corinthians voltou a vencer.

Quando a turma terminar, peça que apresentem suas respostas. Com base nelas, escreva no quadro as três regras de uso da vírgula estudadas:

1. Inserção de elementos no interior do período que poderiam ser subtraídos: inserção marcada pelo uso de duplas vírgulas;

2. Inversão da ordem canônica: colocação de palavras, expressões ou períodos indicando circunstâncias espaciais, temporais de modo etc no início da oração;

3. Sequenciação de termos ou orações coordenadas sem o uso de conectivo: colocação de vírgula entre termos sequenciais, exceto o último termo, que aparece precedido do conectivo e dispensa a vírgula.

4ª etapa - análise coletiva do uso da vírgula
Essa etapa é dedicada à análise coletiva do uso da vírgula em um texto de Francisco Achcar sobre a obra do poeta Carlos Drummond de Andrade. Para começar, peça que os alunos leiam o texto.

Carlos de Drummond de Andrade

De 1930, ano de sua estreia em volume, até 1962, quando completou 60 anos, Carlos Drummond de Andrade (1902-87) publicou dez livros de poesia que contêm um dos conjuntos de textos mais prestigiados e importantes de toda a nossa tradição literária. Esses poemas fizeram que a opinião predominante no Brasil consagrasse seu autor como o maior poeta do país e um dos grandes do mundo em sua época. Mesmo os que preferem atribuir a primazia brasileira a João Cabral de Melo Neto consideram que caberia a Drummond, não fosse o isolamento imposto pela língua portuguesa, uma posição de destaque no panorama internacional.

Sua obra, elaborada ao longo de mais de seis décadas, compreende poesia e prosa. Apesar das qualidades e da quantidade da prosa (17 livros de crônicas e contos fora o que ficou nos jornais), o núcleo de sua produção é a poesia - mais de 20 livros cuja porção capital é o conjunto de poemas acima referido, ou seja, os melhores poemas das dez primeiras coletâneas.

ACHCAR, F. Carlos de Drummond de Andrade. São Paulo: Publifolha, 2000.

Pergunte à moçada as eventuais dúvidas a respeito do conteúdo e esclareça-as. Em seguida, peça que os alunos observem o uso dos parênteses no texto. Mostre que esses sinais de pontuação funcionam com uma intercalação de ideias - trazem informações que podem ser suprimidas.

Relembre a classe de que as vírgulas podem ser usadas de modo similar aos parênteses. Volte ao texto e peça que os alunos identifiquem os trechos do primeiro parágrafo que indicam intercalações.

" De 1930, ano de sua estreia em volume, até 1962, quando completou 60 anos, Carlos Drummond de Andrade (1902-87) publicou dez livros de poesia que contêm um dos conjuntos de textos mais prestigiados e importantes de toda a nossa tradição literária".

Mostre aos alunos que esses trechos, assim como os parênteses, poderiam ser suprimidos. Ressalte que a vírgula, nesse caso, deve marcar o início e o fim da intercalação.

Avaliação
Apresente aos alunos o trecho abaixo da obra A Aventura do Livro: do Leitor ao Navegador de Roger Chartier.

A Aventura do Livro

A leitura é sempre apropriação, invenção, produção de significados. Segundo a bela imagem de Michel de Certeau, o leitor é um caçador que percorre terras alheias. Apreendido pela leitura, o texto não tem de modo algum - ao menos totalmente - o sentido que lhe atribui seu autor, seu editor ou seus comentadores. Toda história da leitura supõe, em seu princípio, esta liberdade do leitor que desloca e subverte aquilo que o livro lhe pretende impor. Mas essa liberdade leitora não é jamais absoluta. Ela é cercada por limitações derivadas das capacidades, convenções e hábitos que caracterizam, em suas diferenças, as práticas da leitura. Os gestos mudam segundo os tempos e os lugares, os 5antigo ao códex medieval, do livro impresso ao texto eletrônico, várias rupturas maiores dividem a longa história das maneiras de ler. Elas colocam em jogo a relação entre o corpo e o livro, os possíveis usos da escrita e as categorias intelectuais que asseguram sua compreensão.

CHARTIER, R. A Aventura do Livro: do Leitor ao Navegador. São Paulo: Edra UNESP/Imprensa Oficial, 1999.

Leia e discuta o texto com a classe. Em seguida, proponha duas atividades:

1. Identificar no texto um exemplo de cada modalidade do uso da vírgula discutida em sala de aula.

2. Elaborar um pequeno comentário sobre o texto empregando os três usos da vírgula.

Quer saber mais?

Bibliografia
AZEREDO, J. C.. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Publifolha, 2008.
BECHARA, E.. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 2001.
CHARTIER, R. A Aventura do Livro: do Leitor ao Navegador. São Paulo: Edra UNESP/Imprensa Oficial, 1999.

Internet
LISPECTOR, C. Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Acesso em: 24 de out. 2010.
SANTOS, M. V. dos A interferência dos Sinais de Pontuação em Textos em Prosa na Proficiência da Leitura Oral. Acesso em: 2o de out. 2010. 
 

Consultoria Conceição Aparecida Bento
Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo e professora universitária.

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