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Dom Quixote: a aventura de ler um romance

Sua turma precisa conhecer a obra de ficção mais importante da humanidade, escrita há mais 400 anos!

Roberta Bencini

Quatro séculos atrás, um nobre velho, decadente e louco sai pela Espanha com Sancho Pança, seu fiel escudeiro, para lutar pela paz e a justiça. No caminho, encontra Dulcinéa, uma pobre camponesa a quem dedica suas conquistas; combate moinhos de ventos, pensando ser gigantes, e liberta presos perigosos, imaginando que fossem homens de bem. Até hoje o mundo comenta o livro Dom Quixote de la Mancha que o espanhol Miguel de Cervantes de Saavedra (1547-1616), lançou em duas partes: a primeira em 1605 e a segunda em 1615.

Como pode um herói de 400 anos ser ainda tão atual e importante para a literatura? Dom Quixote de la Mancha é a obra mais traduzida no mundo depois da Bíblia. Ela inaugura o romance moderno, com sua diversidade de gêneros e cenários. Para 100 dos mais reputados escritores da atualidade, a história foi eleita como a melhor obra de ficção de todos os tempos. E os valores que o personagem defende transcendem lendas e séculos — até hoje a paz e a justiça são temas atuais e urgentes. Dom Quixote de la Mancha é o melhor exemplo do que seja um clássico!

O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) escreveu uma vez: "Poderiam perder-se todos os exemplares do Quixote, em castelhano e nas traduções; poderiam perder-se todos, mas a figura de Dom Quixote já é parte da memória da humanidade". Difícil quem nunca tenha ouvido falar ao menos uma vez dessa figura encantadora. O escritor brasileiro Monteiro Lobato contou a história do nobre no livro Dom Quixote para Crianças e, depois, a saga foi exibida na TV como um episódio do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Nas artes plásticas, a imagem do cavaleiro foi desenhada por pintores como os espanhóis Pablo Picasso e Salvador Dalí e o brasileiro Candido Portinari.

O grande desafio é ler a obra original. Sim, é difícil encarar um livro enorme (são 126 capítulos!) e de linguagem antiga (pudera, o vocabulário tem 400 anos!). Mesmo com diversas adaptações disponíveis no mercado, não há como dispensar a leitura de ao menos alguns capítulos do original. "Trata-se, sem dúvida, de um livro arcaico, mas é interessante se deslocar no tempo, conhecer as façanhas de um personagem que defende os ideais que nós até hoje defendemos", explica Maria Augusta da Costa Vieira, professora da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Cervantes.

Como vencer o arcaísmo da obra

Para Irene Molinero, professora de Língua Espanhola do Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo, é possível que as novas gerações se encantem com Dom Quixote. "O prazer da leitura de clássicos é despertado com planejamento e dinamismo. Comparar a versão original com as diversas adaptações é um exercício necessário e instigante", diz. Muitos especialistas aprovam apenas a leitura de originais, mas uma adaptação bem-feita pode aproximar o leitor da obra.

Os alunos de Irene provam que a professora está certa. Basta uma pergunta sobre a história do cavaleiro para que os adolescentes de 6ª série desembestem a falar. "Eu fecho os olhos e posso imaginar como ele é: tem bigode e barba, o rosto fino e achatado e é um cara muito engraçado", conta o aluno Frederico Octaviano Nogueira. Para Lucas Lima, autor e personagem se confundem. "Eu acho que Cervantes se inspirou na própria vida para compor a história de Dom Quixote." Para chegar a esse nível de compreensão da obra, a professora começou o projeto apresentando o autor à turma. Os alunos leram o prólogo de Novelas Exemplares (1613), outra importante obra de Cervantes. Lá descobriram os traços físicos do autor, já que não há nenhum retrato dele. Num exercício de imaginação, desenharam Cervantes e só depois tiveram contato com Dom Quixote, que também foi representado. A turma leu o quarto capítulo do original em espanhol, consultando palavras desconhecidas e fora de uso. Depois comparou o mesmo capítulo com um texto de uma obra adaptada e com o filme Dom Quixote, de Orson Wells (o capítulo do livro se reduz a um trecho de quatro minutos do filme). Uma peça de teatro escrita pelos alunos encerra o projeto. "Hoje os jovens passeiam pelos corredores do colégio com o livro nas mãos e comentam as aventuras", afirma Irene.

O livro inaugura o romance moderno

Para as séries avançadas, é possível ir mais longe e explorar como Dom Quixote inaugura o romance moderno e influencia diversas obras. Até o lançamento do livro, a forma literária típica da época medieval eram as novelas de cavalaria. No século 16, já considerava-se o gênero ultrapassado. Cavaleiros corajosos e damas eternamente à espera de um amor, características dessas histórias, não faziam mais sentido em um tempo de expansão mercantil. Em Portugal e na Espanha, que se destacavam pelo descobrimento de terras distantes, esses ideais se mantinham. "A obra de Cervantes encerra essa antiga forma de narrativa, parodiando os cavaleiros jovens, valentes e destemidos. O autor cria um personagem velho e louco, que, por mais encantador que seja, não consegue vencer uma batalha. Ele ridiculariza o gênero e apresenta um novo, muito mais interessante", explica a professora Maria Augusta. No final, Dom Quixote não é coberto de louros, como os outros heroís, mas morre arrependido. Suas ilusões e o choque entre a realidade e o sonho é que seduzem o leitor.

Mais uma prova do fascínio que a obra desperta está no fato de que personagens de muitos livros são inspirados no cavaleiro. O náufrago Robinson Crusoe e o nativo Sexta-feira, da obra do inglês Daniel Defoe, têm muito a ver com Quixote e Sancho Pança, assim como Pinóquio e o Grilo Falante, da história infantil de Carlo Collodi. Até o dramaturgo inglês William Shakespeare, acreditam alguns especialistas, criou Otelo e Hamlet depois de ler Cervantes — os personagens têm muitos traços em comum com Dom Quixote. No Brasil, Mário de Andrade bebeu da fonte espanhola para compor Macunaíma. No cinema, a alma de Quixote está presente no Carlitos, de Charles Chaplin, e no personagem-título de Cidadão Kane, de Orson Wells.

Mesmo sendo tão antiga, essa saga é, sem dúvida, capaz de despertar o interesse dos seus alunos. As figuras de Dom Quixote e Sancho Pança estão muito próximas do perfil dos adolescentes de hoje: apesar da violência, eles sonham com um mundo ideal e mais justo, vivem entre a realidade e a fantasia, mudam de humor com facilidade e sofrem por não conseguir levar a vida como desejam. É isso que diferencia uma obra clássica de outras fugazes: o leitor experimenta as emoções dos personagens e busca respostas para a própria vida.

Quer saber mais?

COLÉGIO MIGUEL DE CERVANTES, Av. Jorge João Saad, 905, São Paulo, SP, 05618-901, tel. (11) 3779-1800

COLÉGIO DOM BOSCO, Av. Gen. Affonseca, 313, Resende, RJ, 27520-170, tel. (24) 3355-3608

REDE MUNICIPAL DE SÃO JOAQUIM DA BARRA, R. São Paulo, 1305, São Joaquim da Barra, SP, 14600-000, tel. (16) 3818-1455

BIBLIOGRAFIA

O ENGENHOSO FIDALGO DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, Miguel de Cervantes (tradução Sérgio Molina), 736 págs., Ed. 34, tel. (11) 3816-6777 , 69 reais

DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, Miguel de Cervantes (tradução de Ferreira Gullar), 224 págs., Ed. Revan, tel. (21) 2516-2581 , 38 reais

DOM QUIXOTE PARA CRIANÇAS, Monteiro Lobato, 91 págs., Ed. Brasiliense, tel. (11) 6198-1488 , 26,80 reais

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 183, Junho 2005,
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