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Como trabalhar as definições de literatura em sala de aula

Depois de entrar em contato com várias abordagens do que é literatura, a turma tem de saber o que difere um texto desse tipo de outras produções

Anderson Moço, de São João del Rei, MG

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=== PARTE 1 ====
Foto: Pedro Motta
COMPREENSÃO REAL A turma do Centro Educacional Frei Seráfico estuda literatura usando um jornal literário. Fotos: Pedro Motta
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Uma situação paradoxal paira sob as turmas dos anos finais do Ensino Fundamental: a literatura não tem merecido a devida atenção nas aulas de Língua Portuguesa, embora estudar as questões literárias seja um dos objetivos da disciplina. Às vezes, a garotada até é convidada a ler algumas produções do tipo ou os professores as apresentam em aulas expositivas. Mas é raro encontrar estudantes debruçados sobre textos literários, aprendendo a ler e analisá-los. Com esse quadro, não é de estranhar que, ao perguntar "o que é literatura?", os jovens tenham dificuldade em responder ou usem definições simplistas, como "são textos de ficção".

Não faz sentido, portanto, o docente dizer que trabalhou com literatura em sala se não desenvolveu um trabalho para investigar qual a natureza e a função dela. "É primordial que os estudantes tenham clareza do que faz um texto ser literário e quais características garantem a identificação dele. E isso só é possível se todos tiverem familiaridade com esse tipo de leitura", diz João Luís Tápias Ceccantini, professor de Literatura da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus de Assis. Por ter percebido essa sutileza do conteúdo e trabalhado com ela de modo coerente, Maria Tereza Gomes, professora de Língua Portuguesa do Centro Educacional Frei Seráfico, em São João del Rei, a 180 quilômetros de Belo Horizonte, fez jus ao Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10 de 2009. Focada no estudo da linguagem literária e da compreensão do que é literatura, ela organizou aulas para discutir com alunos de 8º e 9º anos várias questões com base na leitura e análise do jornal O Domingo, uma publicação especializada em literatura e crítica literária que circulou na cidade em 1885 e 1886. Ela também estimulou a percepção das diferenças que existem em textos literários e não literários usando o veículo (leia mais na segunda página). "Manejar um jornal especializado em literatura é algo refinado, diferente do que é proposto tradicionalmente, como estudar as definições de literatura que aparecem nos livros didáticos", diz Claudio Bazzoni, assessor da prefeitura de São Paulo e selecionador do prêmio.

Foto: Pedro Motta
PESQUISA HISTÓRICA Os alunos investigam o cotidiano da cidade no século 19 para entender a 
literatura da época

No entanto, definir o que é literatura não é fácil. São várias as abordagens possíveis e nenhuma é abrangente o suficiente - nem se basta isolada de outras. Até por isso, esse conteúdo deve ser encarado como algo estimulante e desafiador tanto para o docente como para os alunos. Literário é um conceito que depende de muitos fatores. Por isso, a prioridade tem de ser dada ao desenvolvimento do estudo, ajudando os estudantes a se aprofundarem em várias definições e desconstruí-las a fim de que construam outras e compreendam por que esse tipo de texto é tão especial. Evidentemente, não é possível ensinar tudo isso apenas falando. Apropriar-se do material literário propriamente dito é fundamental (leia o projeto didático).

 

=== PARTE 2 ====

Mergulho na história dos textos

Foto: Pedro Motta
TÁTICA INTELIGENTE Maria Tereza apresentou um modelo de pesquisa para a turma entrar em contato 
com a literatura

Maria Tereza Gomes nasceu em São João del Rei e iniciou sua carreira no Magistério em 1993, lecionando Língua Portuguesa em escolas da rede pública municipal. Desde 2005, é professora do Centro Educacional Frei Seráfico, onde, a partir de 2007, passou a dar aulas de Literatura. Quando estudou para o mestrado em Teoria Literária e Crítica da Cultura, da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), descobriu na Biblioteca Pública da cidade o acervo completo do jornal O Domingo, que circulou no século 19, e tratava de assuntos literários. Ao se deparar com uma publicação repleta de definições de literatura, percebeu que tinha em mãos um bom instrumento didático.

Objetivo
Maria Tereza planejou fazer as turmas de 8º e 9º anos entrarem em contato com a literatura e com os textos do gênero sem se ater a (nem fazer os alunos decorarem) nomes, datas e características. Organizou um projeto para que eles se apropriassem de noções literárias, aprendessem ler textos ficcionais e não ficcionais em verso e prosa e conhecessem o acervo histórico são-joanense.

Passo a passo
Para começar o trabalho, a professora propôs ao grupo pesquisar o que é literatura no jornal literário O Domingo, descobrir as definições da época e avaliar se elas continuam em voga. Para explicar como fazer a investigação, ela analisou um exemplar do periódico digitalizado com a turma. Na sequência, organizou uma visita à biblioteca da cidade para apresentar aos alunos o periódico impresso. De volta à escola, concentrou o trabalho na leitura de textos literários, relacionando o contexto de produção de cada um deles e as figuras de linguagem presentes. Em grupos, os estudantes pesquisaram em várias edições de O Domingo e em outras fontes confiáveis definições de literatura, observaram produções em verso e prosa, dissecaram essas maneiras de escrever e fizeram comparações com obras da atualidade. O resultado foi apresentado para toda a turma em seminários. O material também rendeu textos para o mural da escola e para o Jornal do Poste, outro periódico que desde 1958 é afixado em dez pontos 
da cidade.

Avaliação
Os seminários foram o principal recurso avaliativo. Por causa deles, a docente acompanhou o processo de pesquisa dos alunos e analisou o que compreenderam sobre textos literários.

=== PARTE 3 ====

Investir em definições para entender o mundo literário

Foto: Pedro Motta
LITERATURA É... Durante os seminários, a garotada revela vários exemplos de características literárias

De acordo com o senso comum, a literatura é uma escrita ficcional. "Um dos compromissos do literário é com a imaginação e a criação, não tendo, necessariamente, relação com a realidade", detalha Ceccantini. Realmente, essas ideias não estão erradas, mas são incompletas. Quem teria coragem de dizer que a narrativa verídica de Euclides da Cunha (1866-1909) sobre a Guerra de Canudos no livro Os Sertões não é literatura do mais alto nível? Ou que os ensaios do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) não são clássicos literários?

Pensemos então em outra abordagem: literário é o texto que emprega a linguagem de forma peculiar e única. Quanto a isso, não há dúvida. Se alguém diz: "Para ser grande, sê inteiro", é fácil reconhecer que se está na presença de uma linguagem literária. Isso graças à maneira como a frase foi construída pelo escritor português Fernando Pessoa (1888-1935), ao ritmo e à escolha das palavras, que fogem do comum. Trata-se de um tipo de linguagem que chama a atenção sobre si mesma, diferentemente do que ocorre quando se escuta algo rotineiro ("Como chego à avenida Brasil ?", por exemplo).

O que orienta essa visão é a ideia de que em literatura forma é conteúdo. "As orações e o enredo são construídos de modo a transmitir uma emoção estética em quem lê", diz Bazzoni. Os significados e as interpretações são individuais. Cada um, por meio de suas experiências pessoais, pode fazer uma leitura diferente de uma mesma obra. Segundo essa linha de pensamento, a especificidade do gênero, aquilo que o distingue, é o fato de ele deformar a linguagem comum de várias maneiras, condensando, intensificando, reduzindo, ampliando ou invertendo seus significados. O problema de definir literatura apenas em relação à linguagem é que esse recurso de manipular a língua não é exclusivamente literário. Basta lembrar que, diariamente, anúncios e comerciais publicitários lançam mão dele - e ninguém se confunde achando que a publicidade é literatura.

Foto: Pedro Motta
HISTÓRIA PARA CONTAR Estudar o passado rende notícias sobre literatura para uma publicação contemporânea da cidade

Outra forma de enxergar a questão é conceitualizar literatura como textos bem escritos e com valor estético. É literário, então, o que é clássico? Os julgamentos de valor parecem ter muita relação com o que se considera literatura. O problema é que o valor conferido por uma sociedade a uma obra varia ao longo dos anos. O poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891), por exemplo, é considerado um dos maiores escritores da humanidade, mas, na época em que suas obras foram lançadas, eram consideradas vulgares. Foi só em meados do século 20 que, redescoberto, passou a habitar o panteão das grandes figuras literárias.

Numa derradeira tentativa, é possível também tentar usar a função da literatura para defini-la. No ensaio Direito à Literatura, o crítico literário Antonio Candido afirma que "a literatura desenvolve em nós a quota de humanidade que nos torna mais compreensivos, abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante". Ou seja, de acordo com ele, o texto literário tem a função de humanizar.

Só depois de encerrada essa fase de busca e análise de definições é hora de explorar as questões estruturais e os movimentos literários, entre outros conteúdos. Assim, o sentido dos textos nunca mais será o mesmo para os alunos: eles saberão lê-los nas entrelinhas.

Quer saber mais?

CONTATOS
Centro Educacional Frei Seráfico, tel. (32) 3371-1448
Claudio Bazzoni
Maria Tereza Gomes 

BIBLIOGRAFIA
Letramento Literário - Teoria e Prática
, Rildo Cosson, 145 págs., Ed. Contexto, tel. (11) 3832-5838, 27 reais
Teoria da Literatura: Uma Introdução, Terry Eagleton, 248 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3082-8042, 52,64 reais

INTERNET
Na seção Biblioteca Municipal Baptista Caetano de D'Almeida, acervo de jornais históricos de São João del Rei.

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Especial Leitura Literária

 

 

Publicado em NOVA ESCOLAEdição 233, Junho/Julho 2010, com o título Definições valiosas
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