Luis Carlos de Menezes

Desde que nascemos, aprendemos a interpretar gestos, olhares, palavras e imagens. Esse processo é potencializado pela escola, por meio da leitura e da escrita, o que nos dá acesso a grande parte da cultura humana. Isso envolve todas as áreas, pois, mais do que reproduzir o som das palavras, trata-se de compreendê-las - e quem sabe relacionar termos como paráfrase, latifúndio, colonialismo e transgênico aos seus significados faz uso de um letramento obtido em aulas de Língua Portuguesa, Geografia, História e Ciências, respectivamente.
A chamada alfabetização científico-tecnológica mostra essa preocupação no ensino de Ciências. Falta muito, porém, para que as linguagens sejam objetivos da instrução e não só pré-requisitos exclusivos das aulas de Língua Portuguesa e Matemática, como apontamos nesta coluna (edição 215, de setembro de 2008). A competência de ler e escrever, aliás, se desenvolve com a de "leitura do mundo" no sentido usado por Paulo Freire - e todo educador deve fazer isso sozinho e em associação com seus colegas.
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Cada estudante que, numa aula de Geografia, examina um mapa ou guia de ruas, assinala locais por onde passa e comenta em texto experiências ali vividas, além de aprender a se situar, faz um exercício expressivo e pessoal da escrita. Isso também pode ser um trabalho coletivo, como a maquete que vi numa cidadezinha mostrando a escola, o estádio, o hospital, a praça e a prefeitura. Estavam ali representados também o rio, com os pontos onde transborda e em que ocorre o despejo irregular de lixo. Cartazes ao lado comentavam o surgimento da cidade, a vida econômica e os problemas ambientais, com linguagem aprendida em aulas de Arte, Ciências, Geografia, História e Língua Portuguesa.
Mas essa prática só muda as estatísticas de alfabetização quando faz parte da rotina escolar. Há uma queixa frequente de que por lerem mal os alunos têm dificuldade com certos conteúdos. Diante dela, a escola deve trocar o círculo vicioso - em que o despreparo na língua dificulta a aprendizagem de outras matérias e perpetua o despreparo - por um círculo virtuoso - em que a leitura e a escrita melhorem em todas as áreas e ajudem na aprendizagem de qualquer conteúdo. De certa forma, todos os professores devem dar continuidade ao processo de alfabetização, em que os pequenos leem e escrevem sobre suas relações pessoais ou sociais e sobre as coisas da natureza, entre outros temas.
Para cumprir esse objetivo, é igualmente importante lançar mão de vários meios e atender aos interesses de crianças e jovens, muitas vezes relacionados às novas tecnologias. Buscas pelo conteúdo de enciclopédias ou por letras de música podem ser feitas pela internet. Nada impede que, além de escreverem agendas e diários e publicarem notas nos murais da escola, eles enviem torpedos por celular, conversem em chats ou enviem mensagens por e-mail. Se houver equipamentos suficientes, os alunos podem registrar e editar seus textos em computadores. Se não, pode-se realizar atividades em grupo na própria escola ou em equipamentos públicos. A crescente importância desses meios é mais um estímulo para o domínio da escrita, até porque os CDs, DVDs e pendrives logo farão - se já não fazem - parte da vida escolar tanto quanto livros e cadernos.
Com esses e outros meios, aprende-se a ler e escrever todo o tempo e em qualquer disciplina, e é ainda melhor quando a coordenação pedagógica orientar a equipe nesse sentido. O ideal é que todos sejam preparados para ações conjuntas, mas já faz uma enorme diferença se, antes de cada aula, os docentes souberem quais linguagens desenvolverão com os alunos e como vão estimulá-los a ler os textos e a escrever o que aprenderam, as dúvidas que restaram e seus pontos de vista sobre aspectos polêmicos.
É físico e educador da Universidade de São Paulo (USP).
Ednaldo A. Mendonça - Postado em 09/05/2010 19:14:10
Sou Professor de Física e trabalho com algumas das publicações do autor citado (como exemplos: ¿Toda a física: hoje e através de sua história¿, ¿O mundo da energia¿, como também, ¿Transportes, esportes e outros movimentos¿, editorados pelas Escolas Associadas Pueri Domus) e percebo o quanto é importante a parceria entre todos os professores, principalmente, com os colegas da Língua Portuguesa. Portanto, parabéns ao autor (Luís Carlos de Menezes) por evidenciar excelentes trabalhos nessa linha. Saliento também que o artigo: ¿A língua em todas as disciplinas¿ foi usado na prova do Concurso Público ¿ Edital no 20/2010 (para professor efetivo de Física) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba.
MARIA ARRUDA MARTINS - Postado em 15/03/2010 15:37:17
Muito pertinente o assunto para um projeto de incentivo à leitura que lancei recentemente na escola, onde sou Coordenadora Escolar. Com o título "Incentivando Leitores em Todas as Áreas, Formando Escritores Por Toda a Vida", o projeto propõe conduzir os alunos a leituras a partir das diversas disciplinas, de forma bem orientada pelos respectivos professores, de maneira a transformar tais atividades em hábitos prazerosos e consequentemente meios condutores de aprendizagens significativas
Adailton Rezende de Lirio - Postado em 24/01/2010 18:34:51
É reconfortante saber da existência de pessoas que compartilham do mesmo pensar.