Assine Nova Escola
Loading
NAS BANCAS
assine
capa capa
publicidade
anuncie!

O que e para que(m)

Propostas de escrita devem ter intenção comunicativa, gênero e destinatário claros. Projetos didáticos ajudam a conjugar esses fatores

Tatiana Pinheiro

Seus alunos acham que escrever é uma chatice? Sofrem para rabiscar uma ou duas linhas e desistem? Não dizem nada com nada? Misturam gêneros - ou, pior, ficam sempre no mesmo, ou, pior ainda, não têm a menor noção do que se trata? Para resolver isso, um caminho é refletir sobre sua prática em sala. Mais especificamente, sobre suas propostas de produção de textos. É bem provável que esteja nelas a raiz da maior parte das queixas citadas.

O argumento é simples: uma boa proposta de texto precisa ter propósitos comunicativos claros. Trata-se, segundo os estudiosos, de garantir as chamadas condições didáticas da escrita: o que escrever? Para que escrever? E, finalmente, para quem escrever? Somente respondendo a essas perguntas é possível determinar como escrever (aqui entram os gêneros específicos: conto, fábula, receita, reportagem etc.).

Textos de tema livre costumam desconsiderar esses requisitos básicos. O resultado, quase sempre, é desastroso. Em seu livro Passado e Presente dos Verbos Ler e Escrever, a pesquisadora argentina Emilia Ferreiro demonstra claramente a diferença que uma boa proposta de escrita faz. Enquanto uma redação de tema livre sobre o frango (por incrível que pareça, a proposta era essa) gerou uma composição pobre de conteúdo e de forma indefinida, outra - em que destinatários, tema e motivo da escrita estavam explicitamente definidos - deu origem a um texto com diversas marcas do gênero, muito mais coerente e coeso (veja a ilustração acima).

Essa clareza de propósitos precisa estar presente em todas as propostas de escrita. Mas há alternativas de trabalho que acentuam essas características. A principal delas é o projeto didático, uma modalidade organizativa composta de sequências e atividades que culminam num produto final com destinatário definido. "O projeto é a melhor forma de realizar o que os especialistas chamam de transposição didática dos usos sociais da escrita por colocar o aluno diante de uma prática que considera a função comunicativa da linguagem", diz Beatriz Gouveia, pedagoga e formadora de professores do Instituto Avisa Lá, na capital paulista.

Um exemplo ajuda a esclarecer do que estamos falando. Vamos supor que a intenção seja propor um projeto didático sobre a vida dos dinossauros para alunos de 4º ou 5º ano. O produto final pode ser um livro, com uma coletânea de textos informativos, que ficará disponível na biblioteca da escola. Nesse caso, os propósitos didáticos - aprender a reconhecer e a produzir textos expositivos - e o propósito social ou comunicativo - produzir um livro sobre dinossauros para a consulta dos demais alunos - são do conhecimento de todos desde o início das atividades. Isso aumenta o entusiasmo para participar das tarefas. Quando sabem que aquela produção terá leitores reais, o empenho e o cuidado em todas as etapas da produção são redobrados.

Outro aspecto que diferencia o projeto didático é a duração. De acordo com a quantidade de conteúdos, ele pode ser feito durante um bimestre ou um semestre, seguindo um planejamento detalhado das atividades: como serão feitas, quanto tempo levarão, qual a meta de cada uma e como serão avaliadas. Nos projetos de produção de texto, é essencial considerar que cada etapa deve conter práticas de leitura e escrita ou de análise e reflexão sobre a língua (leia o projeto didático).

Interdisciplinaridade e culminância, palavrões a evitar 

Se a intenção principal for trabalhar produção de texto, é preciso tomar cuidado para não exagerar na interdisciplinaridade. A tentação de querer ensinar de tudo um pouco, forçando a barra para misturar diversas áreas, não costuma dar bons resultados. Para ficar no exemplo dos dinossauros, não precisa quebrar a cabeça para inserir a qualquer custo um conteúdo de Matemática, por exemplo.

Clique para baixar o infográfico em PDF

Também não vale pedir tarefas que a turma já sabe e achar que a missão está cumprida. Voltando aos dinos mais uma vez, imaginemos que os estudantes já possuem alguma familiaridade com a leitura de mapas. Pedir a eles que localizem os bichos num mapa-múndi, definitivamente, não é um bom exemplo de como abordar Geografia nesse projeto didático. Não se pode perder de vista que um bom projeto deve levar o aluno a aprender coisas que antes desconhecia. Trata-se de fazê-lo colocar em jogo seus conhecimentos para resolver um desafio, perceber que o que sabe é insuficiente e, com a ajuda do professor, encontrar caminhos para reorganizar suas hipóteses e seguir avançando.

Outro pecado muito comum nos projetos é a atenção demasiada à chamada "culminância", o produto final das atividades. A ideia é que a apresentação ou a entrega do projeto concluam uma caminhada permeada pelo aprendizado, na qual as crianças partiram de um estágio menor de conhecimento e chegaram a um maior. "Em nenhum momento da execução do projeto o propósito social e a culminância devem superar os propósitos didáticos. Não se pode perder noites de sono pensando no que servir de lanchinho no dia do sarau ou matutando em que tipo de papel o livro de poesias das crianças será impresso", alerta Silvia Carvalho, especialista em Educação e coordenadora do Instituto Avisa Lá.

E é sempre bom lembrar que não vale apostar apenas nos projetos didáticos. Apesar de bons, é preciso mesclá-los a outras modalidades organizativas para que os alunos escrevam mais. O ideal é que escrevam todo dia, em todas as situações que surgirem e complementem o projeto principal: tomar nota em situação de estudo, escrever cartas e bilhetes, trabalhar outros gêneros e assim por diante. Em todas elas, vale a regra de ouro: você deve deixar bem claro para a turma as perguntas essenciais - o quê, para quem e para quê escrever.

Quer saber mais?

CONTATOS
Beatriz Gouveia
Débora Rana
Silvia Carvalho

BIBLIOGRAFIA
Passado e Presente dos Verbos Ler e Escrever, Emilia Ferreiro, 96 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3611-9616, 15 reais  

ana claudia cardoso santos - Postado em 23/07/2009 20:57:42

Adorei as reportagens que a nova escola vem trazendo sobre Produção de Texto. Desde 2006 vem trabalhando com esse tema no trabalho de pos-graduação e agora no mestrado.São valiosas as informações para nortear , nós professores a propor metodologia diversificadas ligadas aos gêneros textuais.Parabéns pela publicação.Ana Cláudia Cardoso Santos.

Ana Lúcia Magalhães Araújo da Silva - Postado em 14/06/2009 21:07:53

Como sempre a NOVA ESCOLA traz propostas e orientações importantes no campo da leitura e da escrita. Aliás, não apenas em língua portuguesa, mas também nas demais áreas do currículo escolar, tornando-se excelente aporte pedagógico para os professores que buscam inovar em sala de aula.

Rosimeire Gonçalves Braga Oliveira - Postado em 05/06/2009 20:04:37

Como sempre as matérias da Nova Escola são um sucesso,e essa não poderia ficar para trás.Ao ler esta reportagem,passei para uma colega de trabalho que tem dificuldades nesta área e segundo ela através desta reportagem encontrou um caminho para ajudá-la.



Leia todos
Publicado em NOVA ESCOLAEdição 222, Maio 2009,

PATROCÍNIO Patrocinadores Editora Scipione Editora Ática Edições SM Editora Positivo
Expediente Termos de uso Assinaturas para secretarias de Educação Anuncie Fale conosco Trabalhe conosco Dúvidas frequentes
Fundação Victor Civita - 25 anos
Fundação Victor Civita © 2012 - Todos os direitos reservados.