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Ler e escrever na 1ª série

Edinelma Ferreira Souza, de Utinga (BA), e Janice Cunha, de Porto Alegre (RS), têm o compromisso de alfabetizar a turma em um ano

Thais Gurgel

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=== PARTE 1 ====

Utinga, cidade de 17 mil habitantes na região da Chapada Diamantina, a 433 km de Salvador. Não há biblioteca nem banca de jornal a menos de 150 km de distância. A população local vive basicamente das lavouras de tomate e café e mais da metade se declara analfabeta ou analfabeta funcional. É nesse contexto que Edinelma Ferreira Cunha, professora do 1º ano da EM Dr. Eraldo Tinoco, está alfabetizando seus 22 alunos. O compromisso dela - como o de Mariluci Kamisaka, cuja prática foi mostrada na reportagem ''Vou alfabetizar todos eles até o fim do ano'', de NOVA ESCOLA, - é que todos cheguem alfabéticos até o fim do 1º ano. Para isso, muito estudo, planejamento e uma boa dose de determinação são imprescindíveis.

Um dos maiores desafios de Edinelma é levar os estudantes a superar a falta de contato com livros, revistas e jornais. Em casa, a leitura e a escrita não fazem parte do cotidiano. Fica nas mãos da escola, portanto, a responsabilidade de inseri-los no universo da escrita por meio do acesso e, principalmente, da reflexão sobre ela. A professora tem certeza de que só dessa maneira as crianças vão traçar um caminho diferente do da maioria da população da cidade, vítima da exclusão social. "É fundamental que elas não encarem a condição de analfabetas como algo normal", diz a professora. "Esse é um dos principais pontos de meu trabalho."

A infraestrutura da qual Edinelma dispõe, porém, não é nada favorável. A escola tem uma pequena biblioteca e os poucos livros disponíveis em sala de aula foram trazidos (com muito esforço) pela própria professora, não somando dez obras.

Como garantir a diversidade de tipos de textos que a alfabetização de qualidade demanda? Edinelma aciona então a criatividade: reproduz histórias infantis com o mimeógrafo e usa outros materiais que estão ao seu alcance, como receitas, embalagens de produtos, cartas, jornais e revistas, quando tem acesso a eles. Ela conta que cada livro novo que chega ao pequeno acervo da sala faz a alegria da criançada aumentar. "Os alunos levam os materiais para casa para ler com calma e mostrar aos irmãos ou aos amigos", diz.

A iniciativa da professora é fundamental, já que a familiaridade com uma diversidade de gêneros e o hábito da leitura são básicos para formar leitores e escritores capacitados para produzir e compreender todo tipo de texto. "Os meninos precisam ouvir linguagem escrita, ter contato com ela, manipulá-la, porque é isso o que as crianças da classe média das grandes cidades têm e que torna seu processo de alfabetização pouco doloroso", explica a pesquisadora Telma Weisz.

Prática consistente
Edinelma conta com a importante ajuda de uma coordenadora pedagógica para orientar sua prática. Nas quatro horas de encontros semanais, ela troca experiências, relata dificuldades e avanços das turmas e também estuda textos teóricos sobre alfabetização. Aliando sua experiência à discussão e à reflexão garantidas neste espaço coletivo, Edinelma - que também fez uma formação específica oferecida pelo Instituto Chapada de Educação e Pesquisa - organiza suas aulas para que algumas situações didáticas estejam sempre presentes.

Entre elas estão a produção de texto e o reconto de histórias para um escriba, a leitura diária feita pelo professor, a leitura de listas, parlendas e trava-línguas (textos memorizados) e a escrita desses mesmos tipos de textos (no papel e com o alfabeto móvel). As duas últimas são importantes por contemplarem a necessidade de reflexão sobre o sistema - o que permite a descoberta das relações sonoro-gráficas da escrita.
O desenvolvimento dessas atividades tem muito em comum com a prática da professora Mariluci Kamisaka, de São Paulo, e não só nas atividades propostas. A professora baiana também realiza atividades diferenciadas para não-alfabéticos e alfabéticos - para estes, focadas na ortografia, pontuação e segmentação de palavras. Ambas trabalham da mesma maneira com agrupamentos produtivos.

Edinelma, porém, destaca uma dificuldade que a colega paulistana não sentiu com tanta intensidade. "No início do ano, percebi que alguns estudantes não só jamais tinham manipulado um livro, como acredito que nunca tinham visto um: não sabiam para que servia aquele objeto", conta. "Tive de trabalhar, antes de mais nada, a função da escrita em geral e os usos dos diferentes tipos de texto." Hoje, o diagnóstico da hipótese de escrita da turma é promissor: ela tem seis alunos com hipótese alfabética, dez são silábico-alfabéticos, três silábicos com valor sonoro e dois sem valor sonoro. No início do ano eram 13 com nível pré-silábico, cinco silábicos com valor e três silábico-alfabéticos (um foi transferido e dois entraram no decorrer do semestre).

Seu trabalho se intensifica agora com as duas crianças que ainda têm hipótese silábica sem valor. "Pretendo fazer intervenções mais próximas com esses meninos, fazendo-os refletir sobre o sistema alfabético por meio da escrita de listas e a procura de palavras na leitura de textos memorizados", diz a professora.

=== PARTE 2 ====

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Publicado em Agosto de 2007,
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