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Língua Portuguesa

Edição 211 | 04/2008

Projeto para desenvolver oralidade e escrita na pré-escola

Trabalho faz com que as crianças expressem suas preferências e respeitem os colegas

Adriana Toledo

HORA DE ESCOLHER - Camila, da Creche Aventura do Aprender, em Osasco, aponta sua opção de brinquedo. Foto:Patrícia Stavis
HORA DE ESCOLHER - Camila, da Creche Aventura do Aprender, em Osasco, aponta sua opção de brinquedo. Foto:Patrícia Stavis

A comida favorita, a história mais legal, a música mais divertida. As crianças adoram trocar experiências e falar sobre as coisas que gostam de fazer. "Eu prefiro brincar de boneca", diz Camila Vieira de Souza, 5 anos, da Creche Aventura do Aprender, em Osasco, na Grande São Paulo. "Eu adoro jogar bola, contam alguns dos colegas dela. Eu gosto mais de pular corda", afirmam outros, mostrando que desde cedo são capazes de fazer escolhas e manifestar-se a respeito delas. Como esses temas rendem muito bate-papo na hora do parque ou da merenda, a organização não-governamental Associação das Mulheres pela Educação - que presta consultoria pedagógica a algumas creches da cidade resolveu usá-los como base de um projeto didático.

O principal objetivo é desenvolver a linguagem", justifica Terezinha dos Santos, coordenadora de Educação e presidente da entidade. Durante a primeira fase, os educadores dedicam atenção à oralidade, fazendo a garotada se expressar e justificar suas opções. Numa segunda etapa, o foco é a escrita e o objetivo, a montagem de um livro coletivo com as predileções dos autores.

No decorrer do trabalho, outras metas importantes também são alcançadas. Falar sobre o que agrada e o que satisfaz ajuda na construção da identidade e favorece a criação de vínculos, pois muitos vão se identificar com o gosto do colega. Caso isso não aconteça e apareçam divergências durante as exposições, o resultado também é positivo: está criada a oportunidade de aprender a respeitar as diferenças e a diversidade de opiniões. Além disso, a variedade de citações amplia o repertório em relação a brinquedos, brincadeiras, livros, músicas etc. Por revelar muito sobre a personalidade e os gostos individuais, é interessante que o projeto seja proposto no início do ano para haver maior aproximação entre todos.

Intervenção didática

Embora seja interessante deixar o grupo falar à vontade, cabe ao educador fazer interferências que incitem à participação, principalmente dos mais tímidos. A professora Luciane Teixeira, da Creche Aventura do Aprender, desenvolve a atividade atualmente na pré-escola. "Na hora do conto, quando alguém tem dificuldade de se expressar espontaneamente, eu pergunto por que aquela é a história preferida, o que é mais legal nela, de qual personagem mais gosta." Depois, ela procura confrontar as opiniões, questionando se os outros concordam ou não com aquele colega. Nessa fase, é fundamental usar a sensibilidade. "Quando dois falarem ao mesmo tempo, é preciso dizer 'Quando você fala, você não gosta de ser escutado?' Então vamos esperar o amigo terminar para que você possa falar depois?"", ensina Clélia Cortez, coordenadora pedagógica da Creche Central da Universidade de São Paulo, na capital paulista.

Como explica o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, entre 4 e 6 anos a garotada usa a língua para brincar, expressar desejos, opiniões, idéias, sentimentos ou fazer relatos de acontecimentos. E situações de interação como a proposta por Luciane contribuem para a construção do conhecimento sobre as regularidades da linguagem oral, como a repetição de palavras e o uso de algumas delas como apoio para o pensamento ("né", "então" etc.). As crianças dessa faixa etária empregam os recursos de que dispõem. Muitas vezes chegam a criar expressões e palavras visando a apropriar-se das convenções ("Minha lista de preferições é...", em vez de "preferências").

Um projeto como esse pode desencadear uma série de outras ações, com os mesmos princípios, para ser realizadas em outros momentos ou até mesmo fora da sala. Uma idéia, dada por Clélia, é a garotada escrever um bilhete para a merendeira com a lista das frutas prediletas, pedindo que faça, com elas, uma gostosa sobremesa. Outra sugestão é propor uma pesquisa sobre os animais mais citados - podem ser os dinossauros, sempre presentes no imaginário da garotada, ou então os bons e fiéis cãezinhos. "Com isso, o educador consegue que o pequeno se sinta acolhido e perceba a importância de sua opinião", ressalta Clélia.

Tudo vai para o papel

Depois da ênfase nas atividades de oralidade, o trabalho começa a se concentrar na leitura e na escrita. Vale lembrar que na pré-escola às crianças estão no processo de alfabetização e escrevem de acordo com suas hipóteses sobre o funcionamento do sistema de escrita. Mais uma vez as intervenções do professor são essenciais. "Para ajudar as crianças a avançar nos registros escritos, é preciso conhecer as diferentes fases do aprendizado da alfabetização", recomenda Beatriz Gouveia, coordenadora do programa Além das Letras, do Instituto Avisa Lá, em São Paulo. Segundo ela, antes de tudo se deve fazer dessas atividades momentos de reflexão sobre a língua escrita. Para que isso ocorra, uma das principais intervenções é pedir que cada um leia o próprio registro. Luciane Teixeira ajuda a turma a avançar na escrita distribuindo, logo no começo do ano, crachás para todos. Mais do que facilitar o entrosamento, nesse projeto a identificação tem por objetivo estimular a comparação entre as grafias dos nomes. As crianças observam que o "bru" de "bruxa" que está no título do livro de contos preferido da turma é igual ao de "Bruno" e que o "ma" de "maçã" - a fruta mais gostosa, segundo boa parte da turma - está também no nome de Maria.

Uma página por autor

O ponto alto dessa etapa é a elaboração do produto final, o livro. Luciane costuma dar uma folha para cada um preencher com os itens que prefere. Depois de escrever e revisar, a turma toda se envolve na decisão sobre o título da obra, o visual da capa e a ordem das páginas. Antes de colaborar na montagem final, cada um escreve o nome completo e faz uma ilustração. A professora propõe o desenho do auto-retrato por achar que ele ajuda ainda mais a personalizar a produção. Nessa fase, ela apresenta obras desse gênero de autoria de pintores famosos, que serão analisadas pelos pequenos e servirão de referência nas produções artísticas. Para enriquecer os momentos de criação, solicita que todos levem de casa uma foto recente. Uma outra opção é oferecer um espelho para que a garotada se observe antes dos primeiros traços. Luciane também deixa à disposição material de pintura, como giz de cera e lápis de cor.

Na opinião de Beatriz Gouveia, esse projeto é uma excelente opção para incluir a garotada nas práticas de linguagem, incentivando a compreensão de sua função comunicativa e da leitura e da escrita convencionais. A possibilidade de trabalhar com as listas é outra vantagem. Os pequenos aprendem a estrutura do gênero e que a organização das palavras, dentro de um contexto, adquire um sentido. Palavras como "carro", "doce" e "bola" são aparentemente desconexas. Mas, organizadas em uma lista das preferências, passam a ter um campo semântico definido e uma função comunicativa.

Beatriz também elogia a idéia da criação de um livro. "Essa iniciativa convida a assumir o papel de leitor e escritor." O terceiro trunfo é trabalhar questões de interação. Afinal, é por meio das relações sociais que a criança se insere no mundo da linguagem e tem acesso a outras realidades. "O projeto abre a possibilidade de expor idéias, trabalhar em grupo, respeitar a opinião do outro e entender as diferenças", opina Clélia Cortez.

Quer saber mais?

Contatos

Associação das mulheres pela Educação, R. Frei Gaspar, 59, 06230-000, Osasco, SP, tel. (11) 3687-8590

Creche Aventura do Aprender, R. Frei Gaspar, 39, 06230-000, Osasco, SP, tel. (11) 3602-1873

Creche Central da Universidade de São Paulo, Av. da Universidade, 200, 05508-900. São Paulo, SP, tel. (11) 3032-2233

Bibliografia

Contextos de Alfabetização Inicial, Ana Teberosky e Marta Soler Gallart, 176 págs.,Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 38 reais

Ler e Escrever na Escola: o Real, oPossível, o Necessário, Délia Lerner, 128 págs., Ed. Artmed, 36 reais

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Fernanda Ferreira - Postado em 22/08/2010 22:56:51

ameiiiiiiiiii o material disponível sobre a educação infantil...... parabéns, isso faz com que tenhamos um novo planejamento em sala de aula, com aulas ricas e com certeza bem sucedidas..... um abraço......

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