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Crianças aprendem a ler e escrever na areia da praia

A professora Kátia Correia, do Maranhão, usou placas, receitas e cardápios dos restaurantes para alfabetizar sua turma de 1ª série. E as crianças da comunidade praiana de Araçagi entenderam o sentido da leitura e da escrita

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=== PARTE 1 ====
Legenda: Ao ar livre: areia vira papel e graveto serve de lápis Foto: Daniel Aratangy
Ao ar livre: areia vira papel e graveto serve de lápis.
Foto: Daniel Aratangy

"Bar do Neto", avisa a placa. Lá dentro, os pequenos "clientes" trazidos pela professora nota 10 Kátia Regina Reis Correia, se sentam e olham atentos o cardápio. Pescada, anchova, tainha, siri, camarão, caranguejo... A lista inclui o nome de peixes e crustáceos conhecidos das crianças — filhas de empregadas domésticas, pescadores e barraqueiros que também trabalham na praia. Assim começam a leitura. A praia de Araçagi, em Paço do Lumiar, a 18 quilômetros da capital maranhense, é um dos cenários escolhidos por Kátia para alfabetizar seus alunos. A professora sai da Unidade Integrada Y Juca Pirama, onde leciona, e vai para a orla ensinar mais que sons e grafia de letras e fonemas. A areia faz as vezes de caderno e um graveto vira lápis. Ali, atenta a diferentes textos, a turma aprende como a leitura e a escrita fazem parte do cotidiano.

Quando passou a aproveitar os escritos disponíveis na comunidade, Kátia percebeu que os resultados de seu trabalho melhoraram. "Antes eu não tinha experiência em alfabetização. Me apoiava no uso da cartilha e o número de repetentes só crescia", lembra.

A mudança de estratégia veio depois de muito estudo e de conversas com a irmã, também professora. Além dos letreiros e cardápios, as toadas de bumba-meu-boi, muito conhecidas pelo povo maranhense, também começaram a embalar as aulas de Kátia. E a escrita, que até então não tinha nenhum significado para a garotada, começou a fazer todo o sentido.

 

As produções escritas indicam as dificuldades de cada aluno

Nas produções de texto individuais, cada um colocava no papel seus pensamentos e sentimentos sobre temas sugeridos por Kátia ou pelos próprios estudantes. Ao analisar as escritas espontâneas, a professora podia avaliar em qual nível de desenvolvimento estava cada um deles. Em novas propostas de trabalho, ela verificava onde estavam avançando e em que ainda precisavam melhorar.

Exercícios desse tipo eram rotina e logo foi possível pedir que os alunos lessem e escrevessem sozinhos, mesmo que isso não acontecesse de forma convencional. À medida que trabalhava os textos sobre temas locais e levava a turma às aulas-passeio, Kátia promovia paralelamente a valorização do espaço em que todos viviam.

Acompanhamento constante garante o sucesso da turma

Kátia preparou uma pasta para cada aluno e lá foi arquivando todas as redações produzidas durante o ano. Assim, ela acompanhou o desenvolvimento individual e atuou de forma diferenciada para solucionar dificuldades específicas. As dúvidas eram trabalhadas ainda durante atividades em grupo.

Os estudantes foram, aos poucos, elaborando suas hipóteses de escrita, melhoraram a capacidade de expressão oral e conheceram a diversidade de textos que estava ao seu redor. A professora escolheu bem os materiais escritos que utilizou, pois eles tinham um nível de complexidade adequado à idade das crianças. Além disso, ao colocar a garotada em contato com informações de diversas áreas do conhecimento, Kátia soube explorar temas variados sem perder o foco na alfabetização. E assim acabou o fracasso generalizado na 1ª série. No início de 2003, a turma de Kátia tinha 41 alunos não-alfabetizados. No final do ano, 39 sabiam ler e escrever.

 

=== PARTE 2 ====

 

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Publicado em Março 2004,

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