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Vida profissional é matéria-prima de História

Partindo da própria experiência, alunos adultos estudam os conceitos de trabalho e emprego e compreendem que as dificuldades que enfrentam têm raízes no passado

A união incentivada pelo professor César foi essencial:a turma virou uma família - Foto Gustavo Lourenção
A união incentivada pelo professor 
César foi essencial:a turma virou 
uma família - Foto Gustavo Lourenção

Estudantes adultos, na maioria desempregados. Muitos deles, distantes da terra natal e com anos de experiência no mercado de trabalho não especializado. Em comum, a vontade de recuperar o tempo perdido nos estudos, interrompidos pela necessidade de trabalhar. Era esse o perfil da turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) para a qual lecionava em 2003 o Professor Nota 10 Ricardo César, do Centro Educacional dos Pimentas, em Guarulhos, São Paulo.

Não por acaso, as primeiras aulas de César foram exatamente sobre trabalho e emprego. Os conceitos, que guardam estreita relação, muitas vezes são confundidos. Trabalho é qualquer transformação que o ser humano faz na natureza, com um determinado fim. Emprego é uma relação estável, mais ou menos duradoura, entre quem detém os meios de produção e quem produz. Apresentado assim, o tema parece árido, à primeira vista. Mas para quem tem a chance de compartilhar a própria trajetória profissional com o professor e os colegas de classe, como fizeram os alunos de César, ele se torna claro e ganha mais sentido.

Plano de aula  Vínculo é chave contra evasão

Objetivos
César levou os alunos a compreender a diferença entre trabalho e emprego e a importância da atividade produtiva na sociedade. Mostrou a eles que o problema do desemprego não é pessoal, mas histórico. E deu a cada estudante condições para interpretar as informações divulgadas pela mídia e relacioná-las com a globalização econômica. Além disso incentivou a expressão de idéias por meio de debates e da escrita individual e coletiva. Por fim, organizou um levantamento de dados socioeconômicos do bairro, com pesquisas de campo.


Em média, apenas 30% dos alunos de EJA não se evadem, segundo o Ministério da Educação. Na turma do professor César, dos 25 que iniciaram o curso, 20 concluíram, ou seja, 80%. O sucesso de audiência se deve à criação de um vínculo entre todos, incentivado desde o primeiro dia. "Hoje somos uma família. Quando alguém falta, vamos atrás para saber o que houve e oferecer ajuda", confirma o estudante José da Silva Marques, de 35 anos.

Para quebrar o gelo
Na primeira aula do ano, com a turma dividida em duplas, César pediu aos alunos que se apresentassem ao colega. Quem sou? Onde moro? O que faço? O que estou sentindo? Ao término dos diálogos, cada um introduziu seu parceiro à turma. Era só o começo. César sabia que as experiências pessoais seriam um excelente ponto de partida para falar de trabalho e emprego. Na aula seguinte, com todos mais descontraídos, apresentou sua proposta para o semestre e estabeleceu com os alunos um contrato didático, no qual definiu temas e as responsabilidades de cada um, alunos e professor (veja matéria). A sensibilização e a motivação para as primeiras discussões foram incentivadas com a poesia Operário em Construção, de Vinicius de Moraes, e com a canção Construção, de Chico Buarque, verdadeiras críticas sociais às condições do trabalhador brasileiro. Em seguida, César pediu a cada um que preenchesse uma ficha descrevendo a própria trajetória profissional e que depois registrasse as informações numa linha do tempo.

Do pessoal para o coletivo
A turma, dividida em grupos, passou a analisar e comparar as linhas do tempo, destacando elementos comuns e debatendo sobre fatores externos que influenciaram as histórias ali documentadas: recessão, busca de oportunidades em centros urbanos, evolução dos meios de produção e mudanças nas profissões. Cada vez que um novo argumento surgia, César trazia textos para aprofundamento teórico, estimulando a leitura. Assim, definiram os conceitos de trabalho e emprego. A intenção era alertar os alunos para o fato de que as histórias profissionais não eram frutos do acaso, mas resultavam de relações e condições sociais cheias de complexidade.

Pesquisa de opinião
Com debates cada vez mais intensos, professor ampliou a perspectiva histórica sobre o assunto. Por que o desemprego? Por que os vínculos empregatícios são cada vez mais frágeis? Por que as distinções de gênero, tanto na natureza das funções quanto na remuneração? As respostas vieram após outras leituras, intercaladas com a exibição de filmes e documentários. Dessa forma, passou a fazer sentido estudar Revolução Industrial, trabalho no Brasil colonial, Consolidação das Leis do Trabalho e fortalecimento do sindicalismo nos anos 1980. Para colocar o conhecimento teórico em prática, César propôs à turma a elaboração de um projeto de pesquisa de opinião, com o objetivo de traçar um perfil socioeconômico da população do bairro dos Pimentas. Sempre em grupos, os estudantes elaboraram questionários e saíram a campo, para entrevistar os vizinhos. Com os dados, montaram tabelas e gráficos e apresentaram os resultados aos demais colegas do Centro.

Os alunos se transformam
Pessoas tímidas, que mal se expressavam, tornaram-se descontraídos parceiros de bate-papo. A transformação da turma ocorreu em um semestre. "Muito dessa conquista se deve ao uso que fizemos do teatro", explica. No decorrer do projeto, o professor pedia esquetes sobre o que havia sido estudado, estimulando a escrita e a expressão oral. A cada etapa o contrato de trabalho era revisto e adequado. Além disso, um diário individual foi preenchido e compartilhado com o professor.

Quer saber mais?

Ricardo César, R. Anhumas, 535, 07134-060, Guarulhos, SP, tel. (11) 6405-0216, e-mail: ricks@ig.com.br

 

Educação de Jovens e Adultos

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Publicado em Maio 2004.
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