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Uma viagem no tempo e no espaço

Investigação sobre a vida de marinheiros nas caravelas faz com que alunos de 4º ano aprendam sobre a transformação social e tecnológica

Débora Didonê

Os relatos sobre as viagens de Marco Polo (1254-1324), mercador italiano da Idade Média, são fascinantes. Ele e seus corajosos acompanhantes passavam anos navegando e explorando os mais longínquos países em busca de riquezas (e descobrindo culturas totalmente desconhecidas para os europeus).

Quem gostaria de embarcar numa aventura como essa? A turma do 4º ano do Centro Educacional Sesi 80, em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo, topou na hora. Antes de ouvir histórias contadas pela professora Iara Rodrigues Alho Lopes, as crianças nem imaginavam como era dura a vida de aventureiro. Esse foi o início do estudo que as levou a conhecer as grandes navegações do século 16 e a perceber a dinâmica da história e a transformação das condições de vida e da tecnologia. O trabalho deu a Iara o título de Educadora Nota 10 no Prêmio Victor Civita do ano passado (leia o projeto didático baseado no trabalho dela no quadro da página 97).

"Quando era aluna, me incomodava muito não entender o encadeamento dos fatos. Por isso, proponho atividades em que todos reflitam sobre eles e estabeleçam relações", afirma a professora (descubra mais sobre ela no quadro ao lado). Segundo a selecionadora Flávia Aidar, um dos méritos da iniciativa foi fazer com que as crianças construíssem o pensamento histórico, usando o conteúdo da disciplina e propondo pesquisas para encontrar respostas. "Iara estimulou a comparação dos antigos modos de vida com os atuais, levando à busca do conhecimento por meio de questionamentos", diz ela (saiba mais sobre a avaliação do trabalho no quadro da página 96).

Quem é Iara

Iara Rodrigues Alho Lopes nasceu no Ipiranga, bairro de São Paulo conhecido em todo o país por ter sido o palco da proclamação da independência. Antes de assumir a turma de 9 anos do Centro Educacional Sesi 80, era responsável por classes de Educação Infantil e hoje também leciona para jovens e adultos em Santo André, na Grande São Paulo. No colégio, não era entusiasta da disciplina de História, pois se cansava das aulas teóricas. Quem a vê lendo, preparando aulas e fazendo avaliações com tanta animação não imagina que ela mora com o marido e os três filhos numa chácara, na zona rural de Ribeirão Pires, na Grande São Paulo. É ali que ela relaxa, curte a casa e cuida dos quatro cachorros, três gatos e dos muitos pés de frutas que cultiva no quintal.

O que levar?

Antes de embarcar na viagem do tempo, Iara precisava saber o que os pequenos conheciam sobre o tema. Para isso, ela dividiu a classe em grupos. Todos desenharam uma caravela - com tudo o que ela deveria carregar para a tripulação passar um longo período em alto-mar. Apesar da determinação de que se colocassem em 1400 ou 1500, foi comum a representação de geladeiras, fogões, armários e chuveiros (para comer, hambúrguer e pizza). O passo seguinte foi consultar livros para saber como era a vida na época: os marinheiros dormiam a céu aberto e se alimentavam muito mal (muitas vezes com alimentos estragados). Daí para pontuar as transformações nos modos de vida e nas tecnologias ao longo dos séculos, mostrando como a humanidade inventou recursos e adaptou os já existentes, foi um pulo. Na comparação com os dias atuais, Iara levou para a classe textos sobre as viagens dos Schürmann, família catarinense que vive aventuras no mar há mais de 20 anos. Antigamente, para saber como posicionar as velas para chegar ao destino, Cristóvão Colombo (1448-1506) e Pedro Álvares Cabral (1467-1520) se valiam da astronomia e de instrumentos como a bússola, o sextante e o quadrante. Hoje, as embarcações (e até alguns carros) usam o Sistema de Monitoramento Global, GPS, que dá a posição exata no planeta graças a 24 satélites que orbitam a Terra.

Atividades As grandes navegações e a vida nas caravelas

OBJETIVOS
■ Contextualizar o período histórico das navegações do século 16.
■ Investigar e analisar os costumes e as condições de viagem da época.
■ Reconstituir o raciocínio histórico dos navegadores e seus anseios.
■ Organizar informações e registrá-las em desenho e texto.
■ Basear-se nos gêneros de texto lidos para escrever e reescrever um texto

CONTEÚDOS
■ As grandes navegações.
■ Modos e costumes do século 16.

ANO 4º.

TEMPO ESTIMADO
Três meses.

MATERIAL NECESSÁRIO
Relatos de viagens da época ("O dia-a-dia nas caravelas de Colombo", do livro História, Tantas Histórias, e outros presentes em Viagem à Terra do Brasil), textos informativos sobre as navegações do século 16 ("A aposta contra a morte", Superinteressante, abril de 1999, "Navegando rumo ao Oriente", Folha de S. Paulo, de 27 de março de 1999) e sobre viajantes contemporâneos ("Na companhia de aventureiros", NOVA ESCOLA, dezembro de 1998), retroprojetor, imagens de caravelas, papel pardo, canetas hidrocor, lápis de cor, pincéis e mapa-múndi.


DESENVOLVIMENTO
■ 1ª ETAPA

Pergunte o que motivou os antigos navegadores a atravessar oceanos e a arriscar a vida ao passar meses e às vezes anos longe de casa? O que eles precisavam para passar tanto tempo fora e para chegar ao destino? A turma embarcaria nessa aventura? Forme grupos de quatro alunos, distribua o material de desenho e peça que todos imaginem como eram as caravelas, colocando inclusive o que havia dentro delas e explicando o porquê de cada item. Faça uma lista dos objetos citados e prenda-a no quadro. Esse registro será útil para saber o que eles conhecem sobre o tema e para a avaliação final. Ao surgir dúvidas sobre a existência de determinados itens, leia em voz alta textos que tenham as informações procuradas. Peça que, em casa, todos pesquisem junto com os pais - em jornais, livros, revistas e internet - como era a vida no século 16.

■ 2ª ETAPA
Na aula seguinte, mantenha as equipes para ler e selecionar o material pesquisado. Oriente a montagem de cartazes que tenham não somente ilustrações, mas também textos informativos. Pendure-os na classe, pois eles servirão de material de consulta para as atividades seguintes. Mostre imagens de caravelas no retroprojetor e analise com os alunos como eram as embarcações.

3ª ETAPA
Entregue o material de arte para que os grupos desenhem novamente uma embarcação antiga. Dessa vez, eles devem usar as informações que foram descobertas nas pesquisas. Solicite uma nova apresentação dos resultados para que todos justifiquem as mudanças em relação à primeira representação. Elabore uma segunda lista dos objetos incluídos na nau, fixe-a ao lado da primeira e discuta as diferenças. Forneça um texto sobre navegações dos tempos atuais, como as dos viajantes Amyr Klink e a família Schürmann, que aborde a tecnologia dos barcos e o estilo de vida de quem hoje se aventura no mar. O que mudou nesses séculos?

4ª ETAPA
Em duplas, os estudantes devem elaborar um texto informativo sobre as condições das viagens do século 16. O objetivo é montar um livro com eles. Organize os alunos de modo que um narre e outro escreva. Recolha as produções e observe se há a redundância de informações, palavras repetidas e erros ortográficos. Coloque um por um no retroprojetor para fazer a revisão coletiva. Depois dessa atividade, os autores deverão reescrevê-lo e providenciar a ilustração. No dia seguinte, peça que cada dupla leia a produção para os colegas.

PRODUTO FINAL
■ Livro com textos escritos pelos alunos. Em conjunto com a garotada, organize a ordem em que os textos serão apresentados. É hora também de preparar o índice e a capa. Como somente um exemplar será editado, organize um calendário de modo que todos levem o livro para casa, ficando um ou dois dias com ele para ler com os pais.

AVALIAÇÃO
Compare os dois desenhos produzidos pelos grupos e os textos, observando se as informações ali representadas foram as colhidas durante a pesquisa.

CONSULTORIA
Flávia Aidar, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10. 

Saúde frágil

Mudanças também são perceptíveis nas condições de saúde e higiene. Há 500 anos, era comum os marinheiros perderem os dentes vítimas do escorburto, doença causada pela falta de vitamina C, presente em frutas e verduras frescas, que raramente eram levadas nas viagens. As especiarias, temperos originários do Oriente, eram cobiçadas na Europa por disfarçar o gosto da carne em putrefação. Nas caravelas, baldes e penicos serviam como vaso sanitário e os dejetos eram jogados ao mar. O banho, aliás, não era hábito, pois os europeus acreditavam que a pele suja protegia contra doenças.

Ao preparar uma boa seqüência de aulas, em que as atividades favoreceram o envolvimento dos alunos, Iara instigou as crianças a investigar, a ler e escrever, a discutir e a dividir o conhecimento com a escola, que teve acesso à produção final da turma. Assim, capitaneou a turma numa viagem no tempo e no espaço.

Palavra da especialista

Flávia Aidar, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, afirma que Iara Lopes soube dar o embasamento histórico necessário para os alunos compreenderem as noções fundamentais de tempo e espaço. "Ao analisar aspectos das antigas e das atuais navegações, ela despertou o interesse pela investigação sobre as mudanças que ocorrem na sociedade. E isso é importantíssimo para o estudo da disciplina", analisa. Iara trabalhou com textos atraentes para a faixa etária da turma. Ela destaca ainda a avaliação inicial, com o uso de escritos sobre o mercador Marco Polo para despertar a curiosidade e com a produção de desenhos como forma de expressão. Com as perguntas elaboradas pela professora, os estudantes se transportaram para outra época e imaginaram a vida no passado. "As leituras revelaram costumes e modos de pensar do período estudado e o contexto político, social e cultural, além de mostrar que os sujeitos são autores da história", conclui Flávia.

Quer saber mais?

Contato
Centro Educacional Sesi 80, R. Agda Tori Sortino, 115, 09401-160, Ribeirão Pires, SP, tel. (11) 4828-1652

Bibliografia
As Viagens de Marco Polo, Carlos Heitor Cony (trad.), 384 págs., Ed. Ediouro, tel. (11) 3071-7000, 39,90 reais Viagem à Terra do Brasil, Jean de Léry, 305 págs., Ed. Itatiaia, tel. (31) 3212-4600, 42 reais Histórias, Tantas Histórias (volume 3), Ana Luisa Lins, 135 págs., Ed. FTD, 0800-158-555, 49,70 reais

Internet
Relatos de viagem de Amir Klink e da família Schurmann

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 210, Março 2008,
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