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História por meio das transformações da paisagem

Trabalhar as modificações da paisagem ajuda a compreender a dinâmica dos acontecimentos históricos

Bianca Bibiano de Indaiatuba, SP

Clique nas fotos da Avenida Paulista para ampliar e conhecer mais detalhes de cada época

 

Avenida Paulista, o maior símbolo da modernidade e da vida agitada de quem vive na capital de São Paulo. Prédios altos, inúmeros escritórios, bancos e lojas e o constante vai e vem de ônibus, carros e motos dão a esse famoso cenário um aspecto acinzentado e barulhento, característico das grandes metrópoles. Mas essa paisagem nem sempre foi assim. No fim do século 19, mais precisamente em 1891, ano em que foi criada, a via não tinha pavimentação, o tráfego era de animais de carga e as margens tinham muita grama e árvores. Havia poucas residências - na verdade, palacetes. No início do século 20, por lá passaram a circular os bondes elétricos e somente nove anos depois é que o asfalto finalmente chegou (veja essas e outras mudanças que ocorreram na Paulista nas quatro imagens acima).

Embora essas alterações pareçam óbvias - afinal, os homens fazem modificações na paisagem em que vivem o tempo todo -, elas precisam ser apresentadas e exploradas com a turma no início do Ensino Fundamental. Para as crianças, tais alterações simplesmente acontecem, como se não tivessem ligações entre si. Para complicar, o ritmo das ocorrências prejudica tal percepção, como afirma Leonardo Benevolo, arquiteto italiano especialista em desenvolvimento das metrópoles: "A velocidade é tão grande a ponto de apagar o ambiente de uma geração anterior. Os jovens não conhecem a cidade onde os adultos viviam quando também eram novos". Ou seja, dos cenários do passado acabam restando apenas lembranças na memória das pessoas mais velhas.

 

O conteúdo do 6º ao 9º ano

O estudo das transformações nas paisagens não pode ser dado como encerrado nos anos iniciais do Ensino Fundamental. É necessário que ele seja constante e permeie todo o currículo da disciplina de História. "Com o passar do tempo, mais que descrever as imagens e observar as mudanças, os estudantes devem ser levados a ir além", diz César Simoni Santos, professor da Escola da Vila, em São Paulo. Isso significa que eles têm de analisar as diferenças e as possíveis semelhanças criticamente e a relacioná-las com outros fatos históricos e fenômenos sociais, econômicos e políticos. Portanto, é importante que você proponha trabalhos com imagens de paisagens (pinturas e fotografias) para alavancar discussões. Os temas podem ser as desigualdades que surgem cada vez mais com a modernização do mundo, as transformações sociais que ocorrem em todos os países, a preservação ou a deterioração do espaço e da cultura das comunidades, o fenômeno da aglomeração humana em alguns pontos da Terra, enquanto em outros locais ocorre o inverso.

Conceitos de encadeamento e simultaneidade são básicos

Ao trabalhar com fotos e pinturas da mesma paisagem, porém de épocas diversas, o professor proporciona aos estudantes o desenvolvimento de saberes que serão fundamentais para a compreensão dos fatos históricos e da participação ativa que o homem tem neles (leia a sequência didática). "Assim a garotada começa a entender que a história não é feita de blocos isolados, mas de fatos encadeados", afirma Oldimar Pontes Cardoso, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Augsburg, na Alemanha.

O trabalho comparativo é a grande chave, mas antes dele é preciso explorar com as crianças o que é paisagem - o que não significa conceitualizar o termo, mesmo porque existem muitas definições pertinentes tanto do ponto de vista histórico como geográfico. "O importante mesmo é estimular a turma a distinguir e nomear os espaços, com termos como rural e urbano, por exemplo", explica Dora Martins Dias e Silva, autora de livros didáticos e coordenadora pedagógica da Escola Cooperativa de Presidente Venceslau, em Presidente Venceslau, a 595 quilômetros de São Paulo.

Para planejar uma atividade sobre o tema, é preciso dedicar tempo à escolha das imagens a serem comparadas. Apresentar apenas duas não funciona porque com isso a ideia polarizada de "antes era assim e agora não é mais" toma conta da cabeça dos pequenos. E o objetivo a ser alcançado é ampliar a visão de todos, levando-os a perceber que se trata de um processo que leva tempo e passa por diversas fases.

Foto: Marcos Rosa
1945-2009. OBSERVAÇÃO IN LOCO
A turma da EMEB Professora Renata Guimarães Brandão Anadão compara as cenas. Foto: Marcos Rosa

Cardoso recomenda que a seleção reúna material de épocas variadas, o que também evita a formulação do pensamento de que as paisagens mudam apenas de dez em dez anos ou apenas uma vez a cada século, dependendo do intervalo entre as imagens apresentadas. Foi o que fez Néli Freire, professora do 3º ano da EMEB Professora Renata Guimarães Brandão Anadão, em Indaiatuba, a 102 quilômetros de São Paulo. Com a ajuda de um morador local que é fotógrafo profissional e tem um acervo histórico do município, ela selecionou imagens que representavam paisagens de Indaiatuba em momentos diferentes. Depois de orientar as crianças na apreciação das fotografias antigas, ela organizou passeios por determinados pontos da região a fim de fazê-las comparar o que tinha sido visto em sala com as paisagens da atualidade. "Elas perceberam que os bairros por onde andam todos os dias estão muito diferentes e apontaram que as mudanças sofridas são fruto de ações humanas", explica Néli.

A pluralidade de paisagens apresentadas é outro fator a ser considerado no trabalho desse conteúdo. É assim que a garotada vai entrar em contato com outro conceito importante: a simultaneidade. Ou seja, com a percepção de que, ao mesmo tempo em que coisas mudam na paisagem local, cenários distantes e vizinhos também sofrem transformações. Com mais essa ideia em cena, as viagens do pensamento pelo tempo, tão importantes no estudo da disciplina, certamente vão ganhar mais sentido.

Quer saber mais?

CONTATOS
César Simoni Santos
Dora Martins Dias e Silva
EMEB Professora Renata Guimarães Brandão Anadão, R. Antonio Quinteiro, s/n, 13332-491, Indaiatuba, SP, tel. (19) 3894-3753
Lívia Motta
Oldimar Pontes Cardoso

BIBLIOGRAFIA
Avenida Paulista - A Síntese da Metrópole
, Vito D'Alessio (org.), 144 págs., Ed. Dialeto, tel. (11) 5575-4095, edição esgotada
História da Cidade, Leonardo Benevolo, 728 págs., Ed. Perspectiva, tel. (11) 3885-8388, 105 reais
Paisagens Urbanas, Nelson Brissac Peixoto, 347 págs., Ed. Senac São Paulo, tel. (11) 5085-8089, edição esgotada

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 227, Novembro 2009. Título original: Quanta diferença!
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