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Para que serve ensinar Ciências?

Palavra de especialista
Popularmente reconhecidas como curiosas, atualmente as crianças não têm demonstrado o mesmo interesse pelos porquês dentro da sala de aula. Estudos ainda apontam as dificuldades que os alunos apresentam para assimilar os conteúdos relacionados às Ciências. Neste novo cenário, cabe ao professor estimular o interesse pelo aprendizado, correlacionando os conhecimentos do cotidiano e acadêmico

Luciana Hubner

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5. A Ciência escolar e a Ciência acadêmica

A Ciência escolar e a Ciência acadêmica. Foto: Marcelo Almeida
Aula no laboratório do CE do Paraná.

Estamos diante da sociedade da informação, do conhecimento múltiplo e do aprendizado contínuo. A escola não é mais a primeira fonte - sequer a principal - de conhecimento para os alunos. A informação disponível hoje é muito maior e, muitas vezes, nem é preciso procurar por ela - é ela que chega a nós em formatos, algumas vezes, mais ágeis e atraentes do que os utilizados pela escola. Geralmente quando vai começar a estudar alimentação, a causa das doenças, a circulação do sangue pelo corpo, as formas de lançamentos de foguetes, os movimentos de rotação e translação, os dinossauros, entre outros assuntos, os alunos já possuem muitas informações provenientes da televisão, do cinema, dos vídeos e dos textos disponíveis na internet.

É importante aceitarmos isso, mas considerar que, às vezes, é uma imagem, uma informação superficial, fragmentada. Os alunos precisam de informação, mas também, e principalmente, precisam de capacidade para organizá-la e interpretá-la, para lhe dar sentido. E para isso, precisam ter desenvolvido capacidades para buscar, selecionar e interpretar essa informação. Os alunos não fazem ciência em outros espaços que não o da instituição escolar. O currículo de Ciências é uma das vias por meio das quais os alunos devem aprender a adquirir estratégias e capacidades que permitam transformar, reelaborar, reconstruir os conhecimentos que se recebe. É o que mostram Juan Ignacio Pozo e Carles Monereo, no livro "El Aprendizaje Estratégico".

Então, aceitar isso implica em uma mudança didática no como se concebe o conhecimento que se trabalha na escola. É necessário renovar não apenas os conteúdos, mas acima de tudo as metas para as quais eles estão dirigidos, concebendo-os não como um fim em si, mas como meios para a construção de capacidades e pensamento científico.

Uma parte importante da educação em Ciências consiste no trabalho de ampliação e mudança conceitual, ou se refere a favorecer aos alunos novas maneiras de entender e interpretar o mundo, a partir das contribuições advindas do conhecimento científico de natureza mais universal - é o que destacam David Bearison no artigo "Socio-Cognitive Conflict and Cognitive Growth in Young Children".

Os conhecimentos do senso comum, que os sujeitos adquirem de sua cultura local, devem ser tratados e vistos como importantes na construção dos conhecimentos científicos, principalmente se considerarmos que hoje, e cada vez mais, as crianças, desde muito pequenas, têm contato e interagem com informações relacionadas às Ciências, assim como com o avanço da tecnologia. Ao entrar na escola, os alunos já trazem um conhecimento substancial do mundo, sobre o qual se pode construir para desenvolver a compreensão de conceitos científicos.

O desenvolvimento de habilidades experimentais e de resolução de problemas, também vai requerer que os conteúdos procedimentais ocupem um lugar relevante no ensino de Ciências e que não tenha como meta a transmissão de saberes científicos, mas sim o de permitir que os alunos se tornem autores dos próprios processos de construção e apropriação do conhecimento científico.

Para isso, o objetivo do trabalho com procedimentos não deve estar dirigido à transmissão do corpo conceitual das disciplinas das Ciências, mas voltado a ajudar os alunos a aprender e a fazer ciências, a ensinar os alunos procedimentos para a aprendizagem das Ciências. Os procedimentos devem estar integrados em atividades mais amplas e ter como objetivo não só a aprendizagem de destrezas, métodos e envolver a chamada solução de problemas onde estão envolvidas situações vivenciadas e que requeiram do aluno predizer ou explicar um fato, analisar situações cotidianas e científicas e interpretá-las a partir dos conhecimentos pessoais; problemas que requeiram manipular dados, interpretar a informação e trabalhar com ela, a reconhecer conceitos utilizados e a estabelecer conexões.

O papel ativo do aluno é importante, mas a simples manipulação de materiais, a simples ação física, não leva, necessariamente, à construção de conhecimentos científicos, a uma ação mental; constroem-se conhecimentos científicos buscando-se respostas a uma questão, a um problema, como destaca Gaston Bachelard em "La Formation de l’Esprit Scientifique". Práticas manipulativas não consideram que toda a observação ou interação com a realidade está dirigida por algum conhecimento e, grande parte de vezes, essas práticas transmitem uma visão rígida da atividade científica.

Assim como o objetivo da Educação Física na escola não é formar atletas e da disciplina de Língua Portuguesa não é formar romancistas ou poetas, o objetivo de ensino de Ciências não é formar cientistas, mas a difusão das atitudes e valores associados à postura indagativa e crítica própria das Ciências. Para compreender, utilizar e interagir de forma crítica não basta ter informação, mas ser capaz de identificar, explicar e aplicar conhecimentos científicos e sobre Ciências de forma consistente em diferentes situações, simples e complexas da vida real.

Se quisermos formar gerações de pessoas atuantes, críticas, produtivas e participativas é preciso olhar para o ensino de Ciências e superar a cultura transmissiva de informação, a organização e a distribuição linear e reducionista dos conteúdos. É preciso abrir espaço para uma nova cultura de aprendizagem de Ciências, que transcende a cultura impressa da informação como, também a manipulativa, abrindo espaço e aprofundando as dimensões de educação em Ciências, de educação sobre Ciências e educação para as (ou por meio das) Ciências.

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Publicado em Abril de 2013.
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