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Como evitar que alunos com necessidades especiais sejam rotulados

Alunos com necessidades especiais de aprendizagem se desenvolvem quando não são rotulados

A escola é o primeiro lugar que a criança frequenta fora de seu círculo familiar e a maneira como ela é tratada lá pode marcar toda a sua vida. Por isso, me preocupa quando, em encontros de formação com professores, percebo que alguns - muitas vezes, de forma inconsciente - rotulam os alunos, principalmente os que têm necessidades especiais de aprendizagem. É possível perceber isso ao ouvir, deles mesmos, expressões fortes, capazes de marcar os estudantes. Por exemplo: "O Marcos é Down". Melhor seria que o verbo fosse "ter" no lugar de "ser", como "o Marcos tem Down".

Quando dizemos que alguém é, automaticamente imputamos a ele um significante que o distingue dos outros. É como se o Antônio, por exemplo, recebesse uma placa: deficiente intelectual - fardo, inclusive, bastante pesado de carregar, pois determina de maneira categórica que o indivíduo só pode ser aquilo na vida, sem alternativas. Tudo o que ele vier a produzir - ou mesmo deixar de produzir - será creditado a essa característica. Quando os educadores agem assim, petrificam o estudante numa identidade que pode mortificá-lo.

Uma das funções da escola é possibilitar à criança perceber-se de maneira diferente da qual é reconhecida na estrutura familiar. Nesse sentido, ela tem a obrigação de exercer sua função libertadora. Quando há uma falha nessa atribuição, o que acontece é preocupante. Vamos dar um exemplo. Um pai, ao matricular o filho na Educação Infantil, fez questão de alertar a equipe pedagógica: "Ele é deficiente e acho que não vai aprender como os outros meninos. Se ficar aqui até o 5º ano, tá bom." A equipe - que era despreparada - aceitou a fala do pai. Durante boa parte da vida escolar, o estudante foi tomado como alguém incapaz de se desenvolver no campo cognitivo. Porém, num determinado semestre, a professora titular precisou ausentar-se e a substituta, nova no quadro docente - e, portanto, desinformada sobre o significante previamente anunciado -, conseguiu alfabetizá-lo em tempo considerado recorde por desconhecer a sentença "ele não aprenderá a ler e escrever". Ela nada mais fez do que sua obrigação: ensinou o que deveria ensinar. O menino respondeu à demanda e conseguiu se libertar do único significante que o marcava (e que lhe custou tanto tempo, tanta vida).

Por que a rotulação de alunos com deficiência ou com qualquer dificuldade de aprendizagem ocorre com tanta frequência? Quando o educador percebe que a criança não aprende da forma como planejou, ele começa a procurar uma explicação para o fato. Quem tem qualquer tipo de deficiência geralmente recebe a "marca" de suas deficiências. Os outros, na maioria das vezes, são encaminhados para a área de saúde para que seja feito um diagnóstico. Muitos educadores esperam que médicos, psicólogos e psiquiatras elaborem, com seus conhecimentos específicos, uma justificativa para o fracasso escolar. Infelizmente, alguns atendem à demanda.

O diagnóstico é importante, sim, mas apenas para que todos os adultos que convivem com esses jovens possam sempre ajudá-los a usufruir da relação com o outro que se estabelece na escola, a sentir prazer no ato de aprender e a aproveitar os ambientes que frequentam da melhor maneira possível, com propriedade e conhecimento. O parecer médico jamais pode ser usado com a finalidade de marcar o indivíduo.

Sigmund Freud (1856-1939) defendeu que educar é da ordem das coisas impossíveis. Com isso, ele quis dizer que o aluno nunca corresponderá totalmente às expectativas de quem ensina. Por mais que se tente, algo sempre faltará - e é essa falta que faz com que o aprendiz busque saber mais. Esses desencontros são de ordem estrutural e sempre existirão nessa relação. Assim, educadores e estudantes viveriam uma condição de impossibilidade. Quem não suporta nem aceita essa situação tende a fazer do diagnóstico a justificativa para os possíveis desencontros - e dificuldades -, em vez de buscar maneiras de enfrentá-los. Mesmo ciente de que os impasses fazem parte do jogo, assim como perguntas sem respostas e angústias sem solução, o educador deve ter certeza de que ele é, sim, o responsável pela aprendizagem de cada um dos alunos e tem de educá-lo até o limite das suas possibilidades.

Uma das funções do orientador educacional é observar os detalhes do cotidiano escolar e descobrir se ocorrem situações em que as crianças com deficiência ou necessidades especiais de aprendizagem estejam sendo rotuladas, intencionalmente ou não. Ele pode oferecer permanentemente à equipe pedagógica e a todos os funcionários - que também são educadores - as informações necessárias para que possam exercer o papel de agentes da socialização desses alunos e assegurar que as condições de aprendizagem de todos estejam garantidas.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
Inclusão - Um Guia para Educadores, Susan e Willian Stainback, 456 págs., Ed. Artmed, www.artmed.com.br, tel. (52) 0800-703-3444, 73 reais
Travessias - Inclusão Escolar: A Experiência do Grupo Ponte, Maria Cristina Kupfer e Fernando Colli (orgs.), 165 págs., Ed. Casa do Psicólogo, www.casadopsicologo.com.br, tel. (11) 3034-3600, 33 reais 

FERNANDO COLLI (gestao@atleitor.com.br) é pediatra e psicanalista do Centro de Educação Terapêutica Lugar de Vida

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Nome não registrado - Postado em 22/01/2012 10:57:45

A escola, família e comunidade precisam interagir juntos! É uma luta constante e diária, de uma sociedade preconceituosa que vivemos, não só contra os especiais mas, aos negros, ciganos, gordos , magros, nerds etc....É uma luta nossa de combater esse preconceito juntos, de nos aliar-mos aos que tem o temor de DEUS, e termos também paciência e confiar, pois há muitos profissionais que abraçam essa causa. Falta muito para que a inclusão aconteça falta! Mas vejo pouco a pouco, esse número crescendo, não é um número de matricula e carteira na sala, mas sim, de interação, socialização, professores sendo capacitados para LIBRAS, professores tendo oportunidade de ir a um congresso e assim aprender! Aqui na Paraíba (João Pessoa) fazemos a diferença na escola pública! Temos a Sala de Recursos, damos suporte ao professor, reduzimos o número de alunos para que possamos atender todos e para todos! E com apoio e parceria da família estamos caminhando a passo de formiga, mas eu acredito e eu faço a diferença! Então como incluir esses alunos especiais no Ensino Regular? Primeiro momento: apoio, parceria e confiança. No ato da matrícula conhecer mais sobre nosso aluno que dificuldades ele tem, o que será que ele irá precisá como apoio? como será sua rotina, se toma medicamentos, quais serão suas dificuldades, habilidades e capacidades? Bem nesse momento essas informações irão nos conduzir de como fazer, com quem contar na escola, pois todos precisam ser parceiros, sejam do porteiro, da merendeira aos gestores TODOS!!! nos mais no dia-a- dia quem irá nos conduzir serão eles mesmos nosso aluno com NE. Nunca é tarde para aprender e nunca devemos desistir! Mariléa-Psicopedagoga-PB

Publicado em GESTÃO ESCOLAR, Edição 002, Junho 2009.

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