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As violências que estão na escola

Atos como brigas e quebra de móveis podem ter origem na desorganização ou num ensino burocrático, que não privilegia o aluno

Fernando José de Almeida

Nunca pensei que um dia fosse escrever uma coluna sobre gestão em uma revista educativa de dimensão nacional. Ao assumir o desafio, comecei a lembrar de quanto tempo trabalhei na área e das alegrias que isso me proporcionou. Ser gestor é cuidar da vida da escola, das pessoas, das políticas - afinal, elas também são vivas - e do futuro. Como pedagogo, fui 25 anos diretor de escola de Ensino Médio, depois pró-reitor acadêmico da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e secretário municipal de Educação da capital paulista. A partir de agora, vou reviver essa experiência a cada mês e deixar um pouco de minha reflexão com você, leitor de NOVA ESCOLA, que está interessado em saber mais sobre esse tema.

Durante minha trajetória, vi muitas coisas belas, mas outras nem tanto - como a violência, que transborda em muitas escolas. Esse fenômeno - e seus modos de enfrentamento - é o tema deste primeiro artigo. Sei que nas escolas são comuns paredes riscadas, muros pichados, chicletes colados sob o tampo das carteiras e vidros quebrados, além de agressões verbais - com apelidos maldosos - e físicas entre a garotada na hora do recreio e da saída. Fatos desse tipo estão presentes em unidades de ensino de qualquer rede ou país: Brasil, França, Estados Unidos, Finlândia... Os níveis são diferentes - vão da ofensa sutil e fina como um bisturi à aniquilação escancarada como uma bomba.

A chave para a solução da violência pode ser o gestor. Sem ele, nada se faz. Mas ele sozinho não faz quase nada. Ao lidar com a situação, esse profissional convive com diferentes interpretações. Uma delas é a do senso comum, alimentado pela imprensa. De modo geral, os meios de comunicação pouco levam à reflexão.

Noto em diversas reportagens um questionamento sobre de quem é a culpa pelos fatos ocorridos em escolas. Dos diretores, que não impõem limites? Dos pais, que são omissos na formação dos filhos? O tom vai pela seguinte linha: "O vandalismo contra os prédios públicos e a agressão a professores se devem a certa frouxidão dos dirigentes, que em tudo concordam com os jovens estudantes, à imagem das famílias. Diretores e docentes têm pulso fraco. A falta de limites dos adolescentes se apresenta como a causa principal da indisciplina."

Por outro lado, os educadores que convivem com as peculiaridades da sala de aula têm o hábito de buscar causas e fazer uma viagem introspectiva à realidade. A pintura recém-feita e agora estragada. As cadeiras quebradas novamente, após terem ficado quatro meses na oficina para ser restauradas. As torneiras arrancadas. Os rolos de papel higiênico entupindo as privadas... O que está acontecendo dentro desses muros? Temos alguma responsabilidade por atos desse tipo? Deveríamos nos prevenir de alguma forma para que eles não se repetissem?

Muitas dessas hostilidades que assolam o cotidiano educacional estão relacionadas com a gestão ou com o modelo pedagógico. Professores faltantes, horários desorganizados, salas abarrotadas de crianças e quadras de esportes insuficientes para que os adolescentes sublimem parte de suas energias podem aumentar a probabilidade de indisciplina - que se desdobra em atos de fúria.

A alma dessas violências está também nas centenas de aulas nos moldes da Educação bancária denunciada por Paulo Freire. Incluem-se aí atividades repetitivas e sem significado para o estudante, porque a ele não é dada nenhuma forma de participação, e "modelitos" de provas e avaliações que são apenas pegadinhas para reduzi-lo a alguém mais calmo e respeitoso nas próximas aulas no bimestre seguinte.

E nesse ponto a figura do gestor - sua sabedoria, capacidade de análise e condição de liderança - faz a diferença. Cabe a ele cuidar do estilo do ensino e orientar os professores: aí está o segredo da disciplina. Sejam quais forem as causas das situações de conflito na escola, cabe a ela, como instituição que tem relativa autonomia sobre seus atos, reconhecer o que é de sua conta e posicionar-se, tomar decisões e agir.

Bons exemplos de escolas que trilham esse caminho são contados na reportagem de capa da primeira edição de NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR. Os casos ali relatados deixam claro que a gestão fez toda a diferença para que essas escolas, situadas em áreas de risco, conseguissem afastar a violência unindo o trabalho pedagógico (reforço de aprendizagem e formação docente) com ações sociais, como abertura da escola para a comunidade e parcerias.

O diretor é o responsável em última instância por propor soluções como as que foram implementadas nessas unidades de ensino - e é comum que esse profissional assuma uma posição assim que fique sabendo de um caso. Embora quase sempre exijam urgência, as respostas às vezes são demoradas. Com calma, como líder da comunidade, ele precisa ainda buscar o comprometimento de alunos, funcionários, pais, coordenadores e professores, já que a decisão surgida de diálogo coletivo é mais eficaz e duradoura.

Cabe à escola, afinal, fazer sua parte, que é a Pedagogia, seus métodos e suas organizações internas. Isso inclui construir coletivamente regras sociais sobre procedimentos, deveres e direitos que mencionem as consequências para quem descumpri-las. Assim, todos ficam satisfeitos e se sentem agentes de sua história. Por que não? Regras simples e claras são uma boa saída para resguardar - considerando a autonomia própria do espaço - a tranquilidade, a paz e as condições de aprender e produzir conhecimento.

Fernando José de Almeida 

É filósofo, docente da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e vice-presidente da TV Cultura - Fundação Padre Anchieta.

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 221, Abril 2009,
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