Paula Nadal

RUI CANÁRIO "Os principais recursos
da Educação são as pessoas, os
saberes e as experiências mobilizadoras.
Com isso, não há escolas pobres."
O fenômeno da globalização, tão conhecido no universo da Economia, também atinge a Educação. A velocidade das informações e dos transportes permite que os países troquem produtos, serviços e culturas. Contudo, nessa via aberta na qual tudo isso é intensamente compartilhado, também passam problemas e crises, como a do ensino, presente em vários países.
"Independentemente das condições econômicas e sociais, a ineficiência da escola é geral no mundo todo e se traduz pelos altos níveis de analfabetismo funcional, pela proletarização do trabalho dos professores e pelo descaso crescente dos alunos em relação aos estudos e dos docentes quanto ao ensino", afirma Rui Canário, doutor em Ciências da Educação e professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, onde faz pesquisas nas áreas de Sociologia e de formação de jovens e adultos.
Não raro, as consequências da crise, como o desinteresse de alunos e professores e a falta de condições ideais de trabalho, são apontadas como barreiras intransponíveis para ter um ensino de qualidade. Muitos profissionais da Educação se deixam abater por elas. Outros, ao contrário, usam as dificuldades como fonte para a busca de soluções. "Todas as escolas têm a possibilidade de atingir bons resultados, mesmo partindo de pontos diferentes e adversos. Isso porque elas, como qualquer sistema social, podem se autorregular."
A propriedade de gerir os recursos disponíveis para atingir os fins desejados teve origem no campo da Biologia, no estudo aprofundado dos sistemas vivos, e foi adaptada, nos anos 1960 e 70, para organizações sociais. Nesta entrevista a NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR, Canário explica como essa capacidade pode ser usada na Educação.
Como uma teoria criada na Biologia pode ajudar a Educação?
RUI CANÁRIO O biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy (1901-1972) percebeu que os sistemas vivos conseguem "aprender" a administrar os recursos disponíveis para atingir os resultados pretendidos. Alguns exemplos: se uma pessoa perde a visão, com o tempo ela adquire maior acuidade auditiva. Outra que perca os movimentos da mão direita passa a fazer tudo com a esquerda. Sabemos hoje que determinadas lesões no cérebro humano são superáveis por uma nova reconfiguração das diferentes áreas ou pela ativação de zonas menos utilizadas. À capacidade de se autorregular foi dada o nome de equifinalidade. Bertalanffy não parou por aí e percebeu que essa propriedade também está presente nos sistemas sociais - inclusive na escola. Ou seja, é possível que cada uma encontre o próprio caminho desde que as diversidades e os possíveis problemas ou crises sejam usados como estímulo para criar soluções inovadoras.
A ideia, então, é transformar problemas em ação e proposta educativas?
CANÁRIO Com certeza. Quer um exemplo? Muitos afirmam que o descaso dos alunos impede a escola de ser eficiente. Em vez de se conformar, que tal incentivar a criação de projetos que possam ser desenvolvidos pelos educandos, tratando-os como capazes de produzir e não como aprendizes que só têm a receber? É difícil não haver engajamento quando as pessoas se tornam sujeitos e atribuem um sentido positivo ao trabalho que realizam. O que parecia um obstáculo - a falta de envolvimento - virou um caminho para atingir os objetivos.
Muitos educadores apontam também o descaso das famílias e do próprio corpo docente.
CANÁRIO Eu mesmo participei de algumas iniciativas de intervenção em turmas das primeiras séries e um dos entraves era justamente o distanciamento dos atores das metas almejadas. E isso acontecia com os alunos, os familiares - que estavam completamente fora do processo de Educação dos filhos - e os professores, que se diziam desmotivados. Os elementos para lidar positivamente com públicos pouco comprometidos foram sintetizados em três aspectos: a implantação de uma Pedagogia que incentivou o estudante a se tornar produtor de saber, a elaboração de planos para aproximar as famílias, a comunidade e outras instituições da vida escolar e a adoção do trabalho participativo e em equipe para os docentes, permitindo a construção de práticas sobre as quais há uma reflexão permanente.
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Fala, Mestre! Palavra de quem entende de Educação
Entrevistas com especialistas de diversas áreas, organizadas por ordem alfabética de sobrenome
Solange Esmeralda Costa Barbosa - Postado em 27/08/2011 23:59:11
Concordo com os colegas em relação aos problemas que enfrentamos em nossa carreira docente, as classes são superlotadas, as escolas com poucos recursos humanos e materiais, nosso salário é ínfimo diante da responsabilidade que temos e nossos alunos, seus familiares e muitas vezes, nossos gestores não solidarizam-se conosco. Pergunto-me porém, por que chegamos a essas condições ? Será que não foi por nos resignarmos a essas condições, por delegarmos nossa responsabilidade de luta a entidades nas quais não mais acreditamos ? Será que não priorizamos nosso conforto individual ao reivindicarmos a última aulinha que sobrava, quando já tínhamos muitas e nosso colega corria o risco de desvincular-se da rede ? E o nosso aluno, que culpa ele tem de tudo isso ? De sua alienação, sua revolta, sua falta de afeto, de solidariedade ? Enquanto não nos mostrarmos capazes de lidar satisfatoriamente com tudo isso, as coisas só tenderão a piorar. Abs.
Edilson Germano Lucio - Postado em 23/08/2011 01:47:45
Gostei de mais da entrevista mas o nobre Rui Canário quando falou da desmotivação dos professores, esqueceu de mencionar os reais motivos desse triste cenário na educação.
Kelly Lovato - Postado em 21/08/2011 15:06:52
"se uma pessoa perde a visão, com o tempo ela adquire maior acuidade auditiva. Outra que perca os movimentos da mão direita passa a fazer tudo com a esquerda." Traduzindo tudo isso para a área da educação: O professor que ganha péssimo salário, trabalha em 3 períodos, entra numa sala com 40 alunos, etc, deve encontrar meios de se adaptar, pois a situação não vai mudar. Nunca terá um salário digno, a sala de aula ficará cada vez mais lotada, pois o Estado não quer investir em Educação, e não quer ser o otimista solucionador de problemas, isso vai deixar para o professor, munindo-o de giz e lousa e salário miséria. Na verdade quer-se um professor qualificado, otimista, solucionador de problemas, etc e que se sujeite a um salário miséria e a péssimas condições de trabalho (só que ele como um solucionador de problemas e um ótimista resolverá tudo).