Edição 225 | Setembro 2009
Fernando José de Almeida

A escola é um espaço, mas as paredes das salas, a quadra de esportes e os corredores são apenas o suporte para a aprendizagem de cada aluno e também para o trabalho de professores, funcionários, coordenadores e diretor. As dimensões dela se alteram conforme o papel de diretor-arquiteto desempenhado por aqueles que a gerem pedagogicamente.
Primeiro agente socializador da criança depois da família, a escola é o meio que a sociedade criou para dizer a ela "aqui temos um lugar para receber você!". A pessoa que a espera na porta deve estar pronta a lhe dar as boas-vindas. O portão e o muro bem pintados, os impecáveis corredores que levam do pátio até a sala, as paredes que exibem os trabalhos feitos em classe: tudo é a prova de que houve uma preparação para bem recebê-la. "Eu sou importante", ela pensa. E a segurança sobre essa sua importância é levada para a vida, e não apenas durante os anos de estudos.
Portanto, limpeza, ordem, boa sinalização, manutenção regular e cuidado com cada ambiente são agentes formais do espaço escolar que vão muito além da burocracia. Organizar um refeitório acolhedor e que permita a todos ganhar autonomia ao se servir e compartilhar a refeição com prazer, por exemplo, é um meio de demonstrar esse cuidado - como mostra reportagem da revista GESTÃO ESCOLAR de agosto/setembro. Ações como essa fazem parte do processo pedagógico, pois ninguém aprende onde não há um clima de respeito e de segurança.
O desenho de maquetes educacionais como essa e a definição do uso que terão vêm de um bom escritório de arquitetura com sede nas ideias do gestor, assim como nas de toda a equipe e dos pais.
O papel desse diretor-arquiteto é também permitir que se estabeleçam dois conceitos espaciais relacionados à escola: o primeiro é que ela é um local do aluno - e da sociedade. Lembro-me de uma pesquisa feita por estudantes da 5ª série com pessoas que levavam os cachorros para passear. A garotada constatou que o ponto escolhido para que os animais fizessem suas necessidades era a calçada e os muros da escola pública do bairro. Por quê? "Porque era um local público", respondiam. Para elas, o que é público não é de ninguém. Por isso, é necessário criar a consciência de que a escola é pública porque é de todos!
Sendo assim, as grades, por exemplo, nem sempre são uma proteção, pois a população do entorno pode pensar: "Esta grade é para proteger a escola de quem, senão de nós que moramos aqui?" A melhor forma para fazer a comunidade se apropriar dela como um bem público é abrir suas portas. Escolas que têm familiares de alunos e moradores do entorno envolvidos são mais limpas, menos depredadas, mais alegres.
O segundo conceito é que o espaço escolar decresce com o tempo. No início de nossa vida, a escola nos parece imensa, quase fantasmagórica. Os corredores não têm fim. Os professores são enormes. O corpo, a voz, as manias e a sabedoria deles não têm tamanho! No entanto, quando voltamos lá, décadas depois, vemos que ela não era tão grande e sentimos certa decepção. Corredores estreitos, salas apertadas. Parece que até os professores encolheram!
Mudamos nós ou mudou ela? É função da escola fazer com que o tamanho dela pareça menor quando se alargam os horizontes do aluno em relação ao conhecimento das Ciências, da literatura, da História, da Geografia. Quando faz isso, ela leva o jovem a ter coragem de participar e de caminhar com suas pernas pelo amplo mundo que o cerca! Quanto mais cumpre sua missão de ampliar os espaços de participação, mais a escola se encolhe, pois o aluno cresce em capacidade de ver e criar horizontes espaciais mais ousados e próprios.
É filósofo, docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e vice-presidente da TV Cultura - Fundação Padre Anchieta.
Nome não registrado - Postado em 14/10/2009 18:08:29
Os cuidados e o tratamento que damos à escola são o retrato de como cuidamos da nossa casa, da nossa cidade. Acredito que precisamos estimular a todos (educandos e educadores) a demonstrar o seu amor pela escola, justamente pela sua importância na vida das pessoas que queremos formar.
josé carlos parra - Postado em 30/09/2009 20:57:56
Achei a reportagem excelente! Trabalho em uma escola como diretor auxiliar, e uma das coisas que mais peço ao pessoal do apoio é limpeza, limpeza e limpeza. Preocupo-me com os alunos, pais e a comunidade que frequenta a escola, pois estar em um ambiente sujo, é extremamente desmotivador. Parabéns!!! (profº Parra)
Neusa Carolina Machado Apostolo - Postado em 15/09/2009 18:25:26
Professor Fernando Concordo na íntegra com o texto. Finalizei minha carreira de Educadora como Diretora de Ensino da Fundação Bradesco de Marília de 1994 até janeiro de 2005. Sempre trabalhei para manter os espaços da escola limpos e agradáveis. Sempre valorizei que o exemplo é o melhor meio de mudar as pessoas. A Fundação subsidia muito o trabalho de toda equipe escolar, aliás preocupação que sempre tive como professora, coordenadora e diretora. A manutenção fica mais fácil se sempre estivermos atentos a todos os detalhes, Neusa Carolina Machado Apostolo