Edição 226 | Outubro 2009 | Título original: Repensar a indisciplina
Mais sobre indisciplina
Reportagens
Introdução
Para mudar a perspectiva em relação à indisciplina, é imprescindível que a escola se responsabilize cotidianamente por garantir um ambiente de cooperação, em que o valor humano, o respeito, a dignidade e a integridade marquem as relações. Essa conquista pode se dar por meio de um percurso de formação continuada para toda a equipe. Ao mesmo tempo, é preciso ter em mente que conflitos sempre vão ocorrer e não é possível esperar o fim da formação para resolvê-los. Lembre-se de que o mais importante é lidar com a causa do conflito e não apenas atribuir culpa e impor punições. Pouco importa quem começou uma discussão. O fundamental é analisar o que levou as pessoas a ter dificuldade de negociar soluções justas e respeitosas. Para ajudar nesse momento intermediário, apresentamos quatro estratégias.
1. Demonstrar que a honestidade será sempre considerada importante. Os alunos devem aprender que o que têm a dizer pode, sim, irritar o professor. Mas, em qualquer circunstância, em vez ser de punido por ter sido autêntico, ele deve ser orientado a perceber que o sentimento de bem-estar por ter seguido o valor da verdade é o que mais conta.
2. Não agir de improviso. Manter-se calmo e controlar suas reações. Os problemas não precisam ter uma resposta imediata por parte da equipe escolar. Agir de improviso pode levar a atitudes pouco adequadas.
3. Reconhecer sentimentos e orientar comportamentos. Ficar bravo e com raiva é uma reação natural de qualquer ser humano. Dizer ao aluno "você não pode se sentir assim" ou "você não pode ficar com raiva do seu amigo" é, portanto, inadequado. Oriente-o dizendo algo do tipo: "Você deve mesmo ter ficado muito bravo, mas bater no colega resolveu o problema?"
4. Acreditar que o conflito pertence aos envolvidos. Isso não significa aceitar qualquer alternativa de resolução ou se alienar do problema. Você deve ser um mediador, ajudando-os a descrever o problema, incentivar que falem sobre os sentimentos e as ações e busquem soluções, sempre incidindo sobre a causa e respeitando princípios. Acompanhe, a seguir, uma proposta de formação para a equipe, fundamentada na bibliografia indicada em cada etapa.
Objetivos
- Promover uma mudança de olhar em relação à indisciplina, estudando conceitos de desenvolvimento moral e ético e adotando-os como conhecimento necessário ao processo educacional
- Estimular a equipe a refletir sobrea própria postura.
- Conhecer os princípios de um ambiente de cooperação.
- Analisar o regimento da escola.
- Orientar a atuação da equipe frente a situações de conflito.
Conteúdos
- Desenvolvimento moral.
- Ética.
- Valores humanos.
Tempo estimado
No mínimo um ano, com reuniões semanais no horário de trabalho coletivo. Os problemas não acabam depois desse período. O objetivo é que todos aprendam a lidar com eles.
Desenvolvimento
1ª etapa
Para começar, levante com a equipe quais as principais situações de indisciplina na visão deles. Organize o grupo em duplas. Cada uma deverá classificar as situações em categorias e apresentá-las. Anote os resultados e guarde-os para retomá-los no fim da formação. O próximo passo é aproximá-los do significado de indisciplina. O que a distingue da violência, por exemplo? Para isso, além de consultar a bibliografia, use o mapa conceitual disponível no site para orientar a discussão dos seguintes pontos:
- A indisciplina escolar é um sintoma de que algo não vai bem. Se há conflitos, a falha está na relação e não nas pessoas.
- O comportamento indisciplinado é algo a ser alterado, mas isso só vai acontecer se as responsabilidades forem divididas entre todos. Não é mais possível dizer que "aqueles alunos do professor X são bagunceiros". Os alunos são de todos e deve haver parceria para transformar a situação.
Bibliografia O Mapa do Problema Escolar: Quando a Cidadania Parece Não Ser Possível (Anais do XXII Encontro Nacional de Professores do Proepre - Educação e Cidadania), Luciene Tognetta
2ª etapa
O foco da discussão se desloca para a origem da indisciplina. A ideia é discutir a prática da equipe escolar, as propostas didáticas, o domínio do professor sobre o conteúdo, sua postura frente ao aluno e sua ação em situações de conflito (como citado na introdução).
Bibliografia Estratégias de Intervenção nos Processos de Desenvolvimento Profissional e Pessoal Docentes (II Congresso Internacional do CIDInE: Novos Contextos de Formação, Pesquisa e Mediação), Ana Aragão e Idália Sá-Chaves
3ª etapa
Realize o acompanhamento direto do trabalho docente em sala de aula, com gravação em vídeo ou observação e registro realizado pelo coordenador durante as aulas, momentos de recreio, entrada e saída, dependendo de onde o problema se localiza. Em seguida, o grupo deverá discutir a postura do professor e dos alunos com base nos conceitos estudados. Aqui, é obrigatório que o observado consinta em ser objeto de análise e discussão.
Bibliografia Autoscopia: Um Procedimento de Pesquisa e de Formação (Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 30, n. 3, p. 419-433), Ana Aragãoe Priscila Larocca
4ª etapa
Para seguir uma regra, é preciso entender sua razão de ser. Se não houver explicação que a justifique, a restrição pode e deve ser questionada. A ideia, nessa etapa, é analisar o regimento da escola. Os problemas têm mais a ver com as regras morais ou com as convencionais? Os princípios que fundamentam o projeto pedagógico devem ser discutidos. Como sugestão, tome como base a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Bibliografia Viajantes Destemidos sem Mapas Precisos: Professores-Formadores (Professor Formador: Histórias Contadas e Cotidianos Vividos, Ed. Mercado de Letras), Vera Lucia Sabongi de Rossi
Avaliação
Por meio de questionários, peça aos alunos, funcionários e pais que analisem se houve avanços. Resgate a listagem feita no começo do projeto e peça que a equipe docente altere o que achar necessário, revendo as categorias definidas anteriormente.
Consultoria: Ana Aragão
Professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Mara Chagas fernandes da Silva Máximo - Postado em 30/12/2009 20:43:51
Observamos no dia a dia que a indisciplina está aumentando. Os alunos têm todos os direitos , mas nehum dever. A Educação Pública falhou em universalizar o Ensino e manter a qualidade. Respeito a opinião de todos, mas as teorias pedagógicas , não tem nada a oferecer ao ensino público neste momento . Os" especialistas" em Educação deveriam sair do ambiente acadêmico e ver na prática como estão as escolas públicas .Vivenciar o cotidiano dos professores ao invés de dizer:faça isso ou aquilo. Isso é comodismo.
Marçal Jansen costa - Postado em 26/12/2009 12:41:12
A indisciplina é constantemente observada no comportamento humano.Essa atitude é referente a situações sociais diversas.Se tratando de educando e educador,aí os problemas se confundem com valores.Um personagem está na condição de ouvir,informar,ajudar,compreender e amar; o outro encontra-se na busca de ser entendido,descobri e ser amado.Se todos os envolvidos,educador,educando,família e sociedade, atuarem com responsabilidade,os problemas de indisciplinas serão sanados na escola. Temos como exemplo: Se um determinado educando vai à escola e não foi possível tomar o café da manhã,almoçar , jantar ou o pai o espancou entre outros,já sabemos a reação.Aí deve surgir o entender e amor do educador em prol do educando. "AMOR É O ESSENCIAL". surgir
Tatiane de Oliveira - Postado em 23/10/2009 14:57:23
A indisciplina é sem dúvida nenhuma um dos grandes problemas enfrentados nas escolas, porém, não existem fórmulas mágicas para tal questão, do contrário, a realidade seria outra. Só quem vive o dia-a-dia de uma escola sabe das dificuldades enfrentadas, da falta de limites dos alunos, muitas vezes, do pouco caso de alguns pais, que não dão limite em casa, e querem cobrar a aducação e disciplina apenas da escola, e é aí que está o problema: O ALUNO É REFLEXO NA ESCOLA, DO QUE ELE É EM CASA. Deve ser feito um trabalho conjunto, unindo pais e escola para que realmente se tenha resultados mais positivos nessa questão, e essa sim, talvez fosse a fórmula mágica......