Edição 004 | Outubro/Novembro 2009
Cinthia Rodrigues e Gustavo Heidrich
VISÃO INTEGRADORA
O olhar sobre o todo
Unir diversas áreas de atuação é uma das quatro práticas que fazem a diferença
Ter domínio sobre questões financeiras e produzir planilhas e balancetes é uma prática necessária a um bom gestor escolar. Porém, se não vierem acompanhadas de outras preocupações com o que acontece na escola, essas habilidades perdem o sentido. "O olhar dele deve recair sobre todos os aspectos da vida escolar e o grande desafio é conseguir estabelecer relações entre as áreas para que os alunos avancem", afirma Leunice Oliveira, coordenadora da especialização em Gestão da Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
A pesquisa da FVC comprovou que as instituições com melhor desempenho são aquelas em que os diretores são capazes de unir oito áreas de atuação:
- Gestão pedagógica,
- Gestão administrativa,
- Gestão financeira,
- Gestão da infraestrutura,
- Gestão da comunidade,
- Gestão de relações pessoais,
- Gestão dos resultados escolares e
- Gestão do relacionamento com a rede.
"Construir essa visão integradora significa entender que cada uma das áreas não é um fim em si mesma, mas um meio de fazer a escola cumprir seus objetivos", explica Mário Aquino, da FGV. Ao estabelecer rotinas e atividades coordenadas e relacioná-las com as metas, o diretor começa a criar a cultura de eficiência. A instituição que tem um projeto pedagógico construído coletivamente tem uma vantagem: os propósitos educativos e as metas estão definidos no documento - e ambos são conhecidos de todos, o que facilita atrelar novas ações aos propósitos educativos.
Um ponto importante para desenvolver a visão integradora é compreender que a escola pública faz parte de um sistema maior. "O fato de pertencer a uma rede exige que ela se adapte às políticas públicas. Além disso, existe uma comunidade dentro e ao redor dela, que precisa estar comprometida com o trabalho pedagógico. Sem a reflexão sobre esses elementos, a gestão deixa de representar as necessidades dos alunos e se torna cada vez mais burocrática", acredita Márcia Ângela da Silva, professora da Universidade Federal de Pernambuco.
No entanto, os números da pesquisa do Ibope que revela o perfil do diretor escolar mostram que isso está longe da realidade: apenas 13% dos entrevistados afirmam que observar todos os ambientes da escola é uma característica de um bom gestor e só 4% compartilham assuntos de gestão com a comunidade escolar (leia mais no quadro abaixo).
13% afirmam que observar todos os ambientes da escola é característica de um bom gestor.
4% dizem que compartilhar a administração com a equipe é fundamental para exercer bem a função.
40% se reúnem com o coordenador pedagógico só uma vez por semana.
Porém 45% tratam de questões administrativas e burocráticas todos os dias.
O diretor e a visão integradora
Os diretores brasileiros estão longe de ter uma visão global da escola. O espaço da agenda destinado à gestão administrativa ainda é bem maior do que o reservado aos outros campos: 45% afirmam lidar com questões burocráticas todos os dias, enquanto reuniões com o coordenador são realizadas com frequência bem menor (40% fazem isso uma vez por semana, e 38%, uma única vez por mês!). O conhecimento sobre a comunidade, básico para enxergar a escola como parte de um sistema, é citado por apenas 6% dos entrevistados como sendo uma atribuição do diretor competente. Para integrar as diversas áreas, é preciso conhecê-las, mas somente 13% afirmam que observar todos os ambientes escolares é uma característica de um bom gestor e míseros 4% mencionam que compartilhar a administração com outros atores é uma boa prática.
Fonte FVC/Ibope
Passar a ter essa visão integradora, portanto, exige procurar uma formação teórica sólida, que propicie mais conhecimento sobre as várias áreas da gestão e dominar os instrumentos que permitam analisar a realidade escolar dentro e fora dos muros.
Para enxergar a escola em sua totalidade, procure:
- Observar o movimento da escola no dia a dia para analisar o clima entre alunos, professores e funcionários e estar sempre atento aos sinais que mostrem que algo não corre bem.
- Montar um quadro com as oito áreas da gestão, prevendo rotinas e anotando os principais processos relacionados a cada uma delas e os profissionais envolvidos na realização das tarefas.
- Questionar as ações, os procedimentos e as novas propostas para se certificar da relação de cada projeto com os propósitos maiores da escola.
- Construir e avaliar com a equipe, ao longo de cada ano, o projeto pedagógico da escola. Ele deve conter as metas da instituição e projetar ações e caminhos para atingi-las. Dentro de cada área da gestão, é essencial prever as atividades necessárias, as condições e o tempo para executá-las.
- Solicitar que todos os funcionários façam uma lista das atividades cotidianas para poder discutir com eles os desvios de função e sugerir novas formas de organização do trabalho em função das reais necessidades da comunidade escolar.
Solução total

"Mesmo tendo 19 anos de experiência em sala de aula e seis como diretora, quando assumi o atual cargo, em 2005, me senti perdida. A escola tinha um histórico de violência e alta evasão e muitos alunos com baixo desempenho. Eram tantos os problemas que ações isoladas não iam resolvê-los nem evitar que voltassem a ocorrer. Minha primeira ação foi investir na gestão da comunidade, para trazer melhorias em todas as outras áreas. Mobilizei o conselho escolar para elaborarmos juntos projetos de adequação da infraestrutura, como a construção de um muro. Com o grêmio, montamos um programa em que os alunos mais atuantes vão à casa dos colegas que faltam muito para saber o que está acontecendo. A gestão pedagógica foi beneficiada com essas ações - e com a estruturação de um núcleo de atendimento aos estudantes com dificuldade de aprendizagem. Uma das grandes satisfações que tive foi ver meu trabalho reconhecido ao ser reeleita para o cargo, em abril, com 97% dos votos."
Maria Greoleide Alves é diretora do CAIC Maria Felícia Lopes, em Fortaleza, CE.
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lucinea santos siqueira - Postado em 24/11/2009 12:57:30
Parabenizo a toda equipe que sempre oferece assuntos dosquais estou indecisa e sempre que recebo a revista, parece que adivinham o que estou querendo saber, de maneira clara e objetiva; gostei muito da reportagem que fala sobre os pontos importantes de uma reunião produtiva, onde li o material e distribui para todos na escola; chegou em hora certa, pois muitos reclamam de reuniões; estou aprendendo muito com todas as reportagens, pois assumi o cargo de diretora a 1 ano e estou encontrando algumas dificuldades e dúvidas quanto a essa posição. Acredito que depois que saiu essa revista sobre gestão, muito já aprendi e farei até uma pós em gestão pública onde sei que a revista gestão muito me ajudará, parabens por mais essa iniciativa brilhante.Lucinea, diretora APAe de Ilicinea MG
Márcia Gallo - Postado em 21/11/2009 21:24:44
Parabéns à equipe da revista pela elaboração do Mapa Interativo. Além de muito prático e objetivo, oferece uma visão integral das diferentes frentes em que o gestor tem que atuar, demonstrando como a atividade gestora é abrangente. É muito interessante conhecer as experiências pelas quais alguns gestores passaram e obtiveram sucesso. Forte abraço a todos, Márcia Gallo - Diretora da EME Profª Alcina Dantas Feijão - São Caetano do Sul
Fernando David Gomes Jardim - Postado em 08/11/2009 21:06:25
Sou o diretor retratado em "Comissões de apoio" e gostaria de esclarecer que trabalho na E.E. Caminho à Luz há 31 anos - 25 só no atual prédio. Nunca quis criticar especificamente a gestão anterior e sim fazer um comentário no sentido geral de como era a rotina antigamente. Hoje e antes, quando atuava em sala de aula como professor, procurei mostrar a todos a importância da efetiva participação nas várias instâncias deliberativas da escola, tais como colegiado escolar e reuniões pedagógicas. Quando assumi a direção, fiz questão da participação dos vários segmentos representativos da escola. Por isso pedi que os funcionários dessem sugestões sobre como resolver algumas questões e, ao perceber que os palpites foram bem recebidos, eles perceberam que não havia o que temer ao se expor. Atenciosamente, Fernando David Gomes Jardim