EDIÇÃO 005
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Gestão Escolar

DiretorArticulação com a comunidade

Edição 001 | Abril 2009

Pelo bem das próximas gerações

Estabelecer limites para os adolescentes de hoje é uma das garantias de que o país terá líderes éticos no futuro. A tarefa cabe a pais e escolas - em conjunto

Lídia Aratangy

*A psicóloga Lídia Aratangy vai trocar mensagens com os leitores durante os próximos dias. Para participar, use a ferramenta de comentários, no final da página ou na coluna à direita.

 

Cenas de violência não se passam apenas nos cenários pobres de escolas públicas: acontecem também em escolas de classe média, freqüentadas por jovens de famílias econômica e culturalmente privilegiadas. Aí o problema pode ser até mais difícil, pois os professores dessas escolas têm a expectativa de que seus alunos tragam de casa uma educação adequada - e sentem-se despreparados para lidar com alunos agressivos e sem limites. Mas não adianta lavar as mãos nem clamar aos céus, com a alegação de que a escola não pode tomar a si a responsabilidade que a família não assume. Ainda é dentro de seus muros que esses jovens passam a maior parte do tempo, e essa oportunidade não pode ser desperdiçada. 

É na adolescência que se desenvolve plenamente a capacidade de raciocínio abstrato, e é esse o melhor momento para firmar o compromisso com valores morais como a tolerância pelo diferente, o amor à justiça, o sentimento de solidariedade e a compaixão. É verdade que a escola não pode se encarregar de todos os aspectos da formação de seus alunos, mas é indesculpável que não faça tudo o que estiver ao seu alcance. As situações de violência não devem passar impunes, as agressões não podem ser ignoradas. Mas o castigo é parte do processo educativo, e não uma vingança ou penitência: deve ser contingente (isto é, aplicado logo depois da falta cometida), ligado à transgressão e, de preferência, oferecer a possibilidade de reparação do erro. Se a violência teve a forma de depredação de bens da escola, por exemplo, o aluno deveria ser levado a consertar o que quebrou; se foi agressivo com colegas ou professor, deveria ser orientado a fazer um trabalho sobre violência. É preciso lembrar que, quando um aluno tem um comportamento agressivo, a violência que ele expressa não está só nele: ele é protagonista de todo o seu grupo. Sua expulsão não elimina a violência da escola, apenas a exime de lidar com a questão. A escola deveria aproveitar o episódio de violência para levar todo o grupo a refletir sobre a ética da convivência. Há excelentes filmes (veja indicações abaixo) que podem ser usados para mobilizar nos jovens os sentimentos de empatia e solidariedade. O ideal seria que os alunos assistissem a esses filmes na própria escola, junto com educadores (professores ligados ao tema e orientadores) e, se possível, também os pais. Antes da projeção, deve ser feita uma breve contextualização do tema do filme e, logo após, um debate ligando a ficção com a realidade.

Nessa área, é imprescindível uma parceria verdadeira entre escola e família. Infelizmente, na maioria das vezes, essa aliança é superficial, carregada de hipocrisia. Diante de uma crise importante, dificilmente os pais do aluno problemático e os gestores da escola podem de fato dar-se as mãos em prol do jovem: a tendência da escola é expulsar o aluno, com a alegação (em geral verdadeira) de que os pais dos outros alunos não tolerariam deixar seus filhos numa escola que eles consideram conivente com o aluno faltoso. Mais produtivo seria que a escola e os pais trocassem informações a respeito do comportamento do aluno. Para a escola, será útil conhecer as normas da família sobre disciplina, saber a atitude dos pais com relação a punições e ao uso da autoridade, saber como o aluno se relaciona com os irmãos e que tipo de lazer os pais oferecem. A escola, por sua vez, conhece, melhor do que os pais, o comportamento social do jovem. Essa troca de informações permite uma programação conjunta de atividades (leituras, discussões, escolha mais cuidadosa de videogames etc) dentro e fora da escola, que poderão ajudar o aluno a rever e mudar sua atitude inadequada.

É importante lembrar que, se esses jovens correm alguns dos mesmos riscos que os economicamente menos privilegiados, em suas mãos a sociedade talvez corra riscos até maiores: estatisticamente, é dentre esses alunos que sairão os políticos e empresários da próxima geração, é desse grupo que sairá a maior parte das autoridades e líderes que comandarão o país. Essa é a hora de encontrar canais adequados para o inconformismo e a rebeldia, esse é o momento de apontar espaços de atuação onde a contestação própria da adolescência contribua, de fato, para melhorar o mundo. Para dar vazão à inquietação adolescente, é preciso levá-lo a desempenhar atividades significativas, como participação em programas solidários, que rompam a barreira do individualismo e façam com que ele se sinta parte de uma comunidade maior.

Não podemos deixar que eles acreditem que o mundo é feito de corrupção e violência, e que nele só os valentões e os espertalhões levam vantagens. Para lutar contra a paralisia e o cinismo de que tanto nos queixamos, não há momento mais propício do que a adolescência, não há espaço mais adequado do que a escola.

FILMES

Abaixo, as indicações de Lidia Aratangy para exibições na escola.

Jamaica Abaixo de Zero
Direção: Jon Turteltaub
Aparentemente, um filme sobre o espírito esportivo. Mas é também uma obra-prima sobre a solidariedade, o espírito de equipe e o respeito a si mesmo e ao outro. Fundamental.

O Clube da Felicidade e da Sorte 
Direção: Wayne Wang
A história de quatro imigrantes chinesas nos Estados Unidos serve de pano de fundo para lidar com o choque de gerações e o preconceito.

O Banquete de Casamento 
Direção: Ang Lee
O filme aborda a questão da homossexualidade masculina de maneira leve, levando o espectador a se identificar com os personagens, abalando assim os estereótipos sobre o amor e a sexualidade.

O Sol É para Todos 
Dieração: Robert Mulligan
Um dos mais pungentes libelos contra o preconceito que o cinema já produziu.

Glória Feita de Sangue
Direção: Stanley Kubrick
Um filme sobre a irracionalide humana, que mostra o desvario das guerras e do conceito de heroísmo.

Este Mundo É dos Loucos
Direção: Philippe de Broca
A metáfora dos loucos que tomam conta da cidade abandonada provoca o questionamento sobre a inversão dos conceitos de sanidade e doença em nossa cultura.

O Inventor de Ilusões
Direção: Steven Sodesbourgh
Relata a saga de um garoto cuja mãe sofre reiteradas internações para tratamento de saúde. O menino vive com o pai em um quarto de hotel, em St. Louis, e passa por vicissitudes para lidar com a solidão, o desamparo e a fome.

Grand Cannyon 
Direção: Lawrence Kasdan
Choque de gerações e de valores, num filme denso e emocionante.

Sociedade dos Poetas Mortos 
Direção: Peter Weir
O professor apaixonado e criativo leva seus alunos (e a plateia) a indagações sobre o significado do conhecimento e a importância da cultura.

O Feitiço do Tempo 
Direção: Harold Banis
A história aparentemente despretenciosa do repórter ranzinza e egoísta que se transforma com a repetição reiterada de um único dia de sua vida evoca temas fundamentais como a solidariedade e o preconceito.

Edward Mãos de Tesoura 
Direção: Tim Burton 
Recorrendo ao mito do rapaz que possuia duas tesouras no lugar das mãos, o filme trata com sensibilidade de questões como o desajeitamento do adolescente e o preconceito.

Todos os Corações do Mundo
Direção: Murilo Sales
O futebol serve de veículo para retratar diferentes expressões da emoção e momentos de solidariedade e confraternização.

 

Comente

Ana Rita P. de Moraes - Postado em 28/05/2009 07:41:24

Cara Ligia Muito boa a matéria e muito importante essa questão estar sempre sendo lembrada. Sou psicóloga e desenvolvi um curso de capacitação para colegas, professores e outros profissionais que trata de valores humanos ensinados através do cinema e do período do nazismo, inclusive assédio moral e bullying. Caso saiba como divulgar no site Escola, estou deixando meu email anaparreira@uol.com.br. Em tempos sombrios, ainda é possível se preparar para obter o melhor - a Paz.

marilene alcantara - Postado em 23/05/2009 19:04:41

Até que enfim a culpa não está sendo lançada na escola! A D O R E I!O que se lê sempre, é que a culpa dos problemas não resolvidos que os nossos alunos apresentam é culpa da escola,mas sabemos que não é bem assim, quem tem tempo para educar a criança ,é o seu responsável.Ele pode ,e deve chamar sua criança, conversar,explicar o que é certo e o que é errado,nós professores só podemos e devemos, reforçar esta educação que deve vir do seio da família! Cobram dos professores atitudes que deveriam ser cobradas das famílias,e eu por minha vez... não entendo bem o porquê.Só que sempre que penso nisso, me vem à mente, que cada crian ça tem dois responsáveis, e estas duas pessoas votam.Quem vai querer dizer a eles que precisam ser responsáveis por seus filhos?Sempre que se fala em cobrar responsabilidades me vem dúvidas deste tipo ,será que a sociedade está tão hipócrita e vendida que não se cobra responsabilidade por medo de perder votos?Nossos políticos precisam dos votos dos responsáveis?As direções de escola precisam dos votos dos responsáveis? Bem vamos voltar ao tema: concordo totalmente com tudo que foi dito no texto, só discordo com o momento, creio que a criança deve ser orientada com valores bem definidos desde bem nova,quanto mais cedo se começa a educar com clareza, menos trabalho se terá quando adolescente. O limite para que os pais possam acordar e se dispor a orientar os filhos, é até os 10 anos, após esta idade consegue ,mas certamente tudo será mais difícil e árduo, porque com esta idade as influências externas começam a ter muita força na vida da criança,e quanto menos orientada pela família ela estiver, mais ficará vulnerável a estas influências.

Maria Elisa Rezende Queiroz Takahashi - Postado em 23/05/2009 11:07:51

Olá Lídia, adorei seu artigo! Vem de encontro com um conteúdo que estou lecionando no curso de psicologia na disciplina de Psicologia Escolar e problemas de aprendizagem e com minha vivência profissional enquanto funcionária pública dos CREAS de Ipatinga e de Timóteo.Precisamos discutir mais esse assunto tanto nas escolas, nas políticas públicas, nas famílias, quanto na mídia de maneira geral! Essa novela da Globo está colocando a questão de uma maneira muito proveitosa para que nós pais , educadores e demais profissionais com poder de questionar, analizar e criticar possamos aproveitar... e você com seus textos tão pertinentes a esse conteúdo nos brinda de maneira clara e direta contribuindo para essa discussão. Parabéns e muito obrigada! Maria Elisa



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