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Menos violência, notas melhores

O entorno influi no desempenho dos alunos, mas uma boa gestão pode anular os efeitos negativos

Raphael Hakime e Silvia Avanzi

A violência na periferia das grandes cidades sempre foi tida como um dos fatores responsáveis pelo baixo desempenho dos alunos. Um recente estudo do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), cruzou indicadores de 15 cidades brasileiras com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e concluiu que, quanto pior a situação social e urbana, menor o Ideb do município.

O que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi o cruzamento do desempenho escolar com a taxa de homicídios e o grau de atendimento à pré-escola. Na região metropolitana do Rio de Janeiro, por exemplo - em que são registrados 118 assassinatos para cada 100 mil habitantes e apenas 20% das crianças frequentam creches e pré-escolas -, a média do Ideb de 2007 para anos iniciais do Ensino Fundamental é de 3,8. Já na região metropolitana de Campinas, a 80 quilômetros de São Paulo, onde a violência urbana é menor (27 assassinatos a cada 100 mil habitantes) e 100% das crianças de 4 e 5 anos estão na pré-escola, a nota do Ideb é 5 (veja o quadro abaixo).

Arte: Mario Kanno
Arte: Mario Kanno

* Taxa de homicídio (dados do DATASUS de 2002), atendimento à pré-escola (estimativa de crianças de 4 e 5 anos, com base no DATASUS e censo escolar - dados de 2000 a 2005) e IDEB 2007

Uma das conclusões a que chegaram os pesquisadores é que os alunos de áreas com altos índices de violência têm pior desempenho por ter menos aulas (ou porque faltam mais ou por causa do alto absenteísmo do corpo docente). As escolas em áreas sociais instáveis sofrem ainda com a alta rotatividade de professores e com a evasão escolar, já que o estudante trabalha para se manter ou ajudar a família - sem contar os que se envolvem com atividades ilícitas.

Os dados levantam uma velha questão: afinal, a violência é culpada pela escola ruim ou a escola ruim também contribui para aumentar a violência? Caren Ruotti, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), diz que as áreas mais violentas apresentam uma sobreposição de carências que se reflete na escola. Esse contexto influencia inclusive a forma preconceituosa pela qual a instituição enxerga os alunos. "É comum os jovens não receberem o devido incentivo dos docentes, pois já chegam estigmatizados como pessoas sem perspectiva de vida", explica Caren. "Por isso, não se pode dar todo o crédito negativo ao entorno e se eximir de realizar um bom trabalho pedagógico."

Renato Alves, também do NEV-USP, afirma que boa parte da origem da violência está na história recente do país. "A disparada do crescimento populacional das regiões metropolitanas ocorreu entre os anos 1980 e 1990, com maior demanda por serviços públicos, nem sempre atendida pelos governos. E isso é um aspecto gerador de violência", explica.

Outro fator a ser considerado, dizem os especialistas, é o despreparo da escola para atender à população que começou a frequentá-la, com a universalização do Ensino Fundamental. Segundo Mariane Koslinski, pesquisadora do Ippur, as redes públicas ainda não sabem como receber esse público mais carente. "A escola desestimula esses alunos e deixou de ser um valor social importante." De acordo com ela, são comuns os depoimentos de crianças que conhecem pessoas da própria comunidade que não estudaram e, mesmo assim, acumularam capital e prestígio.

Escolas driblam o problema

A prova de que a violência não é um estigma intransponível está em inúmeras escolas que conseguem superar as dificuldades e ensinar com qualidade. A EM Santo Tomás de Aquino, que fica ao pé do morro das favelas Babilônia e Chapéu Mangueira, no Rio de Janeiro, obteve 4,5 no Ideb dos anos iniciais e 4,1 nos finais do Ensino Fundamental (as médias da cidade são de 3,8 e 3,05, respectivamente). "Ações violentas ocorrem na região, mas não entram aqui, na escola", orgulha-se o diretor, Jorge Ferrari. Ele investe na formação dos professores e faz parcerias com organizações não-governamentais que oferecem atividades culturais e esportivas aos alunos e familiares.

Outro exemplo é a EM IV Centenário, na favela da Maré, também na capital fluminense. Sua média no Ideb passou de 4,6, em 2005, para 5,2, em 2007. A diretora, Rita de Cássia Magnino, aponta a união da equipe e a atenção às metas como um dos pontos fortes e diz que o segredo do bom resultado está na gestão democrática.

A estratégia dos dois diretores - investir no clima escolar, na mobilização comunitária e no fortalecimento da equipe, visando o aprendizado - tem o aval de especialistas. "O papel da gestão é um fator diferencial no desempenho da escola de qualquer região, inclusive das situadas em áreas carentes e de entorno violento", ressalta Caren Ruotti. Segundo ela, o essencial (para reverter a tendência negativa) é olhar de perto cada situação para transformar a realidade de forma eficiente e produtiva.

Carmem Lúcia Borges Rodrigues - Postado em 02/11/2010 18:11:39

É obvio que se uma situação vai mal todos os envolvidos tem sua parcela de culpa e neste caso incluam-se ai; pais/responsáveis, escola/comunidade escolar e governo. Porém fica muito acessível colocar a culpa no outro e eximir-se da sua própria, portanto penso que a solução é cada um fazer a sua parte, e promover a integração, conclamando os demais interessados a fazerem a sua, para que toda sociedade possa sair ganhando, com a diminuição da violência e um maior comprometimento dos profissionais da educação.Gestores e professores devem ter e promover formação continuada, autoestima elevada e orgulho do que fazem, desde logo que bem feito, é claro. Uma gestão democrática, comprometida, com disponibilidade, pode diminuir muito a violência e a repetência escolar. Carmem Borges-Pedagoga Porto Alegre-RS

Amanda Bianca - Postado em 27/11/2009 21:59:50

Em minha opinião, a escola é o berço de qualquer pessoa, é onde realmente aprendemos o que faremos da vida, onde nos relacionamos com pessoas até então desconhecidas, onde ultrapassamos obstáculos... Com toda essa responsabilidade de nos ensinar a "viver" a escola necessita de recursos; o que acontece com a maioria das escolas públicas brasileiras é a falta de recurso, com falta de recurso não se pode fazer muitas coisas... Portanto, a responsabilidade de nos conduzir é instável, professores ausentes, alunos com dificuldade de aprender, e com poucas expectativas... Logo, alguns alunos vêem que a escola não lhe dará grande futuro (o que eu acho uma grande burrice) e procuram de outra forma fazer seu futuro... Nisso, acabam se envolvendo com coisas ilegais (drogas, tráfico, roubos, assassinatos) e fazendo de seu suposto futuro brilhante um caixão. Em minha opinião a escola tem um compromisso com os alunos, mas o grande culpado é o governo, que para seu próprio lazer, acabam por não disponibilizar os recursos necessários para uma boa escola. Amanda Bianca. 7° C Turno: Tarde.

Coceição de Maria Pereira Lima - Postado em 31/10/2009 11:25:18

Atualmente percebemos que a violência influencia muito no processo ensino-aprendizagem de jovens e crianças, devido a vários fatores ( situação sócio-econômica, falta de estrutura familiar entre outros...) que são refletidos negativamente dentro e fora da escola. Mas acredito que as escolas são capazes de mudar esse quadro violento tanto no comportamento, como nas relações interativas entre toda a comunidade escolar através do diálogo, do respeito e da solidariedade.



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Publicado em NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR, Edição 004, Outubro/Novembro 2009

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