Verônica Fraidenraich

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Imagine uma escola pública de Ensino Médio, com nove prédios espalhados em uma área de 54 mil metros quadrados, 300 professores e 4.261 alunos de baixa renda. A maioria é descendente de imigrantes vindos da Ásia, África, América Central e América do Sul, compondo um lugar no qual se ouvem mais de 40 idiomas. Tudo isso numa cidade industrial, Brockton, a cerca de 50 quilômetros de Boston, nos Estados Unidos, com índices preocupantes de violência. Esse é o perfil da Brockton High School, a maior escola pública do estado de Massachusetts e uma das maiores do país.
Diante desse quadro, ela tinha tudo para não dar certo. E não dava mesmo: em 1998, o índice de reprovação em Matemática chegou a 75% e, em Inglês, a 44%. Os resultados alarmantes fizeram com que um grupo de educadores desse início a uma campanha de alfabetização em todas as disciplinas e para todas as séries. Houve uma mudança de paradigma e foi iniciada uma verdadeira reforma pedagógica na escola. O fracasso, antes aceito, tornou-se inadmissível. As avaliações dos alunos passaram a ser monitoradas e a formação dos professores por área foi incorporada ao cotidiano da escola.
Uma década depois, a Brockton conseguiu uma das melhores notas do estado, segundo exame obrigatório para todas as escolas de Massachusetts. Em 2010, a taxa de reprovação nessa disciplina caiu para 5% e, em Matemática, foi para 14%.
"Se os alunos dão sinais de que não estão envolvidos com o ensino e de que não estão aprendendo, é preciso pensar em maneiras diferentes de abordar os conteúdos", afirma Matthew Crowley, um dos integrantes do comitê reestruturador. Há 15 anos na instituição, ele já foi professor de História e técnico de natação até se tornar diretor assistente, cargo que exerce há cinco anos. Durante visita ao Brasil, em dezembro, ele concedeu a seguinte entrevista a GESTÃO ESCOLAR.
Como começou a reforma pedagógica na Brockton High School?
MATTHEW CROWLEY Primeiro foi a indignação e depois a ação. Em 1993, o governo de Massachusetts fez um exame para avaliar o nível de aprendizagem dos alunos do 10º ano em Inglês e Matemática (a High School equivale ao Ensino Médio no Brasil e vai do 9º ao 12º ano). Em 1998, ele passou a ser obrigatório. Nossa escola sempre obteve péssimos resultados: 75% dos estudantes foram reprovados em Matemática e 44% em Inglês. Além disso, um em cada três jovens abandonava os estudos. Diante desse quadro, a então professora Susan Szachowicz, hoje diretora principal da instituição, reuniu os colegas com os quais tinha mais afinidade e que desejavam mudar aquela situação. Assim surgiu o comitê reestruturador, que tinha total autonomia para agir.
Quem fez parte da equipe?
CROWLEY Inicialmente, eram oito pessoas. Para conseguir mais adeptos, os membros do comitê insistiram com os colegas e deixavam convites na sala dos professores. Hoje são 25 integrantes, entre professores, coordenadores de disciplina e diretores, que se reúnem uma vez por mês. Cada um dos membros, por sua vez, se organiza em grupos com nossos pares para repassar o que é discutido e pegar sugestões, democratizando as ações.
Qual foi a primeira proposta do comitê reestruturador?
CROWLEY Nossa ação inicial foi definir uma espécie de roteiro básico para ajudar os professores a planejar as aulas. Todas elas passaram a contemplar quatro conteúdos: a leitura, a escrita, a oralidade e a argumentação. Seja qual for a aula, inclusive de Educação Física, o professor deve propor que os alunos tomem notas, expliquem o raciocínio, defendam um argumento, façam comparações, escrevam uma resposta dissertativa, apontem conclusões, critiquem o que foi lido, visto e escrito, expressem um raciocínio em frases completas e produzam uma apresentação com uma estrutura formal. Também foi feito um calendário de avaliações constantes para monitorar o aprendizado dos alunos. O resultado desse trabalho pôde ser visto nas avaliações, cujas notas foram gradualmente aumentando. Em 2008, a Brockton obteve no teste de Inglês um aproveitamento 90% acima das outras 350 escolas do estado. Dois anos depois, a reprovação nessa disciplina era de 5% e, em Matemática, 14%. A escola ganhou destaque em jornais e tevês do país e foi incluída no estudo Como Escolas de Ensino Médio Podem se Tornar Exemplares (How High Schools Become Exemplary), realizado pelo pesquisador Ronald Ferguson, da Universidade de Harvard.
Os professores receberam formação para mudar a maneira de trabalhar?
CROWLEY Criamos grupos interdisciplinares e por área de conhecimento. Foram definidos objetivos e metas para cada um dos quatro conteúdos citados. A partir daí, foi feita uma análise do que é preciso ensinar aos alunos para que eles aprendam e atinjam bons resultados.
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