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Aqui, a violência não entra

Comunidade, equipe unida e aprendizagem. Com esses ingredientes, três escolas construíram uma barreira contra a violência sem precisar de grades, cadeados e câmeras

Gustavo Heidrich

Os muros pichados e os vidros quebrados são apenas o cenário de um drama presente em muitas escolas. Enquanto do lado de fora o tráfico de drogas e as gangues envolvidas com roubos e homicídios pressionam para entrar - e não raro encontram brechas -, do lado de dentro alunos e professores são agentes e vítimas de agressão física e verbal e de uma lista enorme de atos violentos.

Alguns acreditam que a solução é trancar-se, isolando- se do mundo exterior com grades reforçadas e portões cada vez mais altos, cadeados e câmeras de vídeo. Essas barreiras, embora deem a sensação de segurança, não resolvem o problema. Ao contrário, deixam a instituição ainda mais acuada, com professores amedrontados e gestores intimidados.

A população, apreensiva com os frequentes casos divulgados pela mídia, coloca a preocupação com a integridade dos filhos acima das questões de aprendizagem. Pesquisa realizada com 2.002 pessoas em 141 municípios brasileiros e divulgada em março pelo Movimento Todos pela Educação aponta que metade dos entrevistados tem a sensação de que a falta de segurança nas escolas é o principal problema do sistema educacional do país (a baixa qualidade do ensino ocupa a terceira posição).

As instituições que venceram a violência, em vez de se isolarem e culparem o entorno pelo baixo desempenho dos alunos, investiram na consolidação de uma equipe unida e determinada, na formação de professores, na aproximação com a comunidade e no acompanhamento dos jovens usuários de drogas ou com dificuldades de aprendizagem. Com isso, criaram uma barreira muito mais duradoura e eficiente do que a formada por grades e cadeados.

No jargão dos especialistas, a violência resultante de atos criminosos é chamada de "dura". No ambiente escolar, ela costuma estar relacionada a um entorno inseguro. Em situações extremas, armas e drogas invadem as salas de aula - e isso é mais comum do que muitos imaginam. Levantamento feito em 2006 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em cinco capitais brasileiras mostra que, entre os alunos, 69,4% já presenciaram roubos e 34,8% viram amigos portando armas. Entre os professores e funcionários, 55,8% presenciaram invasões e 14% testemunharam tráfico de drogas dentro de suas unidades.

A EM Expedicionário Aquino de Araújo, no Rio de Janeiro, viveu essa realidade. Em 2002, ela ganhou as páginas dos jornais quando o professor de Educação Física Alberto Vasconcellos foi assassinado por traficantes na secretaria da escola. Na época, a reprovação atingia 25% dos cerca de 2 mil estudantes e a taxa de evasão beirava os 20%. Fora dela, roubos e tráfico de drogas eram frequentes. Porém, depois de quatro anos de ação firme dos gestores - com projetos didáticos que relacionam aprendizagem e combate à violência, monitoramento dos estudantes usuários de drogas e daqueles com baixo rendimento -, a Aquino de Araújo vem enfrentando a insegurança com sucesso (leia mais no quadro abaixo).

 Escola e comunidade 

EM EXPEDICIONÁRIO AQUINO DE ARAÚJO. Foto: Marcelo Correa

EM EXPEDICIONÁRIO
AQUINO DE ARAÚJO

Número de alunos
2 mil

IDEB 2007 (anos finais)
Escola: 2,9
Município: 2,7
Estado: 3,5 

Foto: Marcelo Correa 

Localizada entre duas comunidades de baixa renda de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a EM Expedicionário Aquino de Araújo convive com a violência dura originária do tráfico de drogas. Há alguns anos, o comércio era livre nos portões da unidade e muitos alunos se tornaram usuários.

A situação atingiu seu pior momento em 2002, quando o professor de Educação Física Alberto Vasconcellos foi morto a facadas depois de pedir aos traficantes que se afastassem. A primeira ação da equipe gestora, comandada por Naise Martins, foi fazer uma parceria com a Secretaria de Assistência Social para mapear os jovens usuários de drogas e álcool e encaminhá-los para a recuperação. Ao mesmo tempo, dentro das salas de aula, a orientação era desenvolver projetos didáticos que valorizassem a origem e a identidade dos estudantes. Um deles foi o Repensando a Negritude (foto), em que lutas e conquistas dos afro-descendentes uniram a aprendizagem sobre a importância dos povos africanos na história do Brasil (já que 80% dos estudantes são negros) à quebra de preconceitos.

Um questionário e conversas com as famílias foram os instrumentos usados para conhecer a realidade do entorno e direcionar a formação dos professores para lidar com suas origens e culturas. Atividades como festivais de música e poesia, feiras de ciência, olimpíada de Matemática e uma gincana cultural sobre a cidade de Duque de Caxias atraíram os pais e a comunidade para a Aquino de Araújo. A mudança de clima inibiu os traficantes que ficavam nos portões e reduziu a taxa de evasão. "Conversamos com os estudantes sobre tudo, até sobre a roupa com que eles vêm para a aula e a maneira como se expressam, sem discriminar ninguém, mas procurando mostrar respeito e fazendo com que também eles respeitem os outros", diz Naise.

O caminho mais eficaz para combater a violência dura é a integração com a comunidade, que passa a respeitar o papel social da escola (ensinar) e a reconhecer que aquele espaço é de todos. "De vítima, ela passa a ser parceira do bairro e das famílias", afirma Ana Maria Leite, pesquisadora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. A aproximação pode começar com o diálogo com os pais. Envolvê-los no acompanhamento da aprendizagem, dos êxitos e das dificuldades dos filhos é tarefa dos gestores e ajuda a romper o empurra-empurra sobre a responsabilidade pelo sucesso (ou o fracasso) escolar.

Outra frente bastante eficaz, segundo os especialistas, são atividades esportivas e culturais, que podem ser feitas em parcerias que articulem o trabalho extracurricular com a aprendizagem de conteúdos e valorizem a história e a cultura locais.

Mais do que disponibilizar o espaço físico para a comunidade, é preciso ultrapassar os limites dos muros escolares. "O diretor tem de estar presente nas tarefas cotidianas, visitar a casa dos alunos, conversar com os grupos e associações comunitárias, procurar parceiros e estimular professores e funcionários a fazer o mesmo", afirma Kátia Freitas, consultora do Programa de Capacitação a Distância para Gestores Escolares. Contudo, existem limites para essa aproximação. Negociar com traficantes e bandidos, por exemplo, não é função dos gestores. "Nesses casos, o melhor é buscar apoio na Secretaria de Educação e nas instituições públicas de segurança, além do Conselho Escolar", aconselha Roberta Panico, coordenadora pedagógica do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária e consultora de NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR.

Quando a escola é agressora

O bom convívio com o entorno ameniza os atos violentos, mas não resolve diretamente a agressão que a própria escola pratica. Essa violência é chamada de simbólica pelos especialistas: "Um espaço depredado, o professor que abandona o aluno ao faltar e um sistema disciplinar e de avaliação repressivos são parte desse problema", aponta Bernard Charlot, professor da Universidade de Paris 8. Já a violência na convivência escolar é chamada de microviolência. "Ela se manifesta nas relações entre os alunos e entre eles e os professores, em ações como ofensas, discriminação e bullying", analisa Miriam Abramovay, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACS).

A EMEF Comandante Garcia D’Ávila, na capital paulista, viveu uma situação semelhante e percebeu que parte da solução estava em olhar para si mesma. A chave para a mudança foi a união da equipe liderada pelo então diretor Waldir Romero (leia mais no quadro ao lado). A origem da violência simbólica e da microviolência geralmente está no fracasso da função principal da escola: a de ensinar. A frustração do aluno que não avança e a do professor que não atinge seus objetivos geram tensão no ato pedagógico", afirma Charlot. O caminho é investir na gestão da aprendizagem, na formação de professores e funcionários e na gestão participativa (saiba mais sobre esse tema na entrevista com Heloísa Lück).

A força da equipe

EMEF GARCIA D'ÁVILA. Foto: Christian Parente

EMEF GARCIA D'ÁVILA

Número de alunos
     980

IDEB 2007 (anos iniciais)
     Escola: 4,2 
     Município: 4,5
     Estado: 4,8 

IDEB 2007 (anos finais)
     Escola: 4,8
     Município: 3,8
     Estado: 4,1 

Foto: Christian Parente

Os 13 anos de convivência ininterrupta da equipe gestora da EMEF Garcia D’Ávila, no bairro do Parque Peruche, na capital paulista, transformaram a escola, conhecida por "maloquinha", numa referência de bom ensino. O diretor Pedro Paulo Poudzius (de barba), Luiza Harumi e Luciana Sacchi, coordenadoras pedagógicas, e Waldir Romero, ex-diretor, começaram a trabalhar juntos em 1996. Waldir saiu no ano passado e Pedro Paulo assumiu seu lugar. "A Educação é um processo de longa duração e o sucesso está ligado à permanência e ao compartilhamento de um projeto de escola, senão vira um recomeçar constante", afirma Luciana. Conscientes de que a escola não estava ensinando os alunos e a infraestrura não era nada acolhedora, a equipe promoveu reformas físicas e mudanças na gestão da aprendizagem. Uma sala foi transformada em apoio pedagógico para a alfabetização e passaram a existir turmas de reforço em Língua Portuguesa e Matemática. Professores e gestores se uniram em grupos para acompanhar individualmente os alunos com dificuldades, num projeto batizado de "adoção", em que todos checam os cadernos, as avaliações e outros elementos que possam atrapalhar o desenvolvimento cognitivo.

Parcerias com empresas e organizações não-governamentais viabilizaram programas de formação continuada e o acompanhamento psicológico dos alunos. Para vencer o entorno inseguro, a equipe apostou no esporte, na cultura e na valorização da história do bairro. As ações reduziram a depredação, eliminaram as invasões e transformaram a Garcia D’Ávila num espaço valorizado. O reencontro de Romero com os ex-colegas para tirar a foto acima foi marcado pelo saudosismo e pelo orgulho do dever cumprido. "Quando um ex-aluno me disse que fazia questão que a filha dele estudasse no Garcia, percebi que tínhamos chegado lá", diz o ex-diretor.

"Isso não significa acabar com os conflitos, que são uma discordância sadia de ideias e podem se manifestar sem violência", destaca Reinaldo Nobre, professor da Universidade da Amazônia. No outro extremo do país, em Florianópolis, a EE Hilda Teodoro Vieira usou justamente o debate para superar a violência. Ela era palco de preconceitos e discussões que se transformavam em agressões físicas entre alunos e professores. O aluno Zeca, personagem da novela Caminho das Índias, da TV Globo, também é uma faceta do preconceito social e da falta de limites. Sempre acobertado pelo pai, o garoto não vê barreiras para ofender e agredir professores e colegas.

Na vida real, a Hilda Teodoro superou essa questão, ao investir na gestão colaborativa e na formação de mediadores de conf lito. A escola quase dobrou seu Índice de Desenvolvimento da Educação Básica em apenas dois anos (leia mais no quadro abaixo).

Manter um clima favorável à Educação apesar do entorno violento é uma ação de longo prazo. Cabe à equipe gestora reconhecer a existência da violência e buscar a melhor maneira de combatê-la. Uma direção que compartilha decisões, uma coordenação pedagógica atuante na formação dos professores e uma orientação educacional que atua para resolver os problemas de alunos, familiares e professores são o primeiro passo para fechar as portas da escola para a violência, mas deixá-las sempre abertas para a aprendizagem e para a paz.

Mediadores da paz

EE HILDA TEODORO VIEIRA. Foto: Edu Lyra

EE HILDA TEODORO VIEIRA

Número de alunos
     600 alunos

IDEB 2007 (anos iniciais)
     Escola: 5,8
     Município: 4,6
     Estado: 4,7

IDEB 2007 (anos finais)
     Escola: 2,7
     Município: 3,9
     Estado: 4,1 

Foto: Edu Lyra

O recreio na EE Hilda Teodoro Vieira, em Florianópolis, costumava ter mais do que brincadeiras de corda e amarelinha: não faltavam brigas e agressões verbais. Localizada entre um bairro de classe média e outro pobre, a escola sofria com a discriminação entre os alunos. Uma parceria com a ONG Universidade da Paz (Unipaz) ajudou a equipe gestora a transformar estudantes briguentos em agentes da paz - e a envolver professores e funcionários nessa batalha antiviolência. Todos são preparados para mediar conflitos usando o diálogo e jogos cooperativos. No dia-a-dia, a gestão participativa é a tônica. "Os conselhos administrativo, de classe e de segurança têm representantes de pais, alunos e funcionários. Assim, desde as questões pedagógicas até o modelo da ronda escolar são decididos coletivamente", afirma a diretora, Viviane Poeta. Fora da escola, a equipe fechou uma parceria com a associação comercial do bairro para oferecer aulas de robótica e outra com a Universidade Federal de Santa Catarina para a formação continuada dos professores. Completam a lista de ações colaborativas as atividades esportivas e um dia para os pais, em que eles acompanham a aprendizagem dos filhos. Graças à capacitação em serviço, o corpo docente começou a incluir o debate sobre a realidade social dos estudantes e a criar projetos didáticos que valorizem tanto os conteúdos como a convivência pacífica. O resultado veio na melhora no Índice de Desenvolvimento Básico (Ideb). De 2005 para 2007, ele saltou de 3,3 para 5,8 nos anos iniciais do Ensino Fundamental - o que tornou a Hilda Teodoro Vieira a melhor do estado e a sexta em todo o país. "O trabalho da gestão se concretiza quando chega à sala de aula, fazendo com que o professor aperfeiçoe suas formas de ensinar", diz Solange Foresti, professora de História e voluntária de oficinas de Arte.

Quer saber mais?

CONTATOS
EEB Hilda Teodoro Vieira
, R. Lauro Linhares, 560, 88036-000, Florianópolis, SC, tel. (48) 3333-0747
EMEF Comandante Garcia D´Ávila, R. Armando Coelho da Silva, 859, 02539-000, São Paulo, SP, 
tel. (11) 2239-1197
EM Expedicionário Aquino de Araújo, R. General Manoel Rabelo, 593, 25065-050, Duque de Caxias, RJ, tel. (21) 2771-5591

BIBLIOGRAFIA
Relações Sociais e Violências nas Escolas
, Reinaldo Nobre Pontes (coord.), 151 págs., Ed. Unama, tel. (91) 4009-3279, 20 reais
Cotidiano das escolas: entre violências, Miriam Abramovay (coord.), 403 págs., Ed. UNESCO, disponível em www.brasilia.unesco.org/publicacoes/livros/cotidianodasescolas

Angélica Marques - Postado em 21/03/2011 17:26:33

Amei esse artigo. Faço Curso Normal no Instituto de Educação Professor Manuel Marinho em Volta Redonda - RJ. Foi muito util em meu trabalho de Sociologia da Educação. Agradeço desde já pelo grande trabalho da revista. Um grande abraço educadores ...

paulo sérgio rocha da silva - Postado em 26/12/2009 08:56:49

Ótimos exemplos devem ser seguidos. Claro que dentro de uma perspectiva local, onde cada gestor faça as adaptações necessárias, juntamente com seu corpo docente, com o corpo discente e não esquecendo de chamar à responsabilidade da comunidade, também!. Rocha Projeto Patrulheiro Mirim

Agenor Nunes - Postado em 10/05/2009 22:23:01

O trabalho responsável da Gestora Naise Martins na Escola Municipal Expedicionario Aquino de Areújo em Duque de Caxias foi fantástico, entretanto esta cidade tão boa e rica, ainda apresenta falhas na gestão pública. As direções das escolas são indicadas pelos vereadores eleitos, e assim quando o governo muda as direções também, e não há continuidade de nenhum projeto educativo sério nesta Cidade. A Diretora Naise foi substituída por um senhor que foi candidato pelo partido do prefeito Zito e não se elegeu, em troca de todo o seu "empenho" durante a campanha recebeu a direção desta escola como premio de consolação. Mas o trabalho sério relatado nesta matéria desta revista foi um sonho que findou nas urnas eletronicas. Saudações a todos os trabalhadores honrados da educação que lutam por justiça e trabalham sério para manter a escola publica de qualidade de pé.



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Publicado em NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR, Edição 001, Abril 2009

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