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Geografia

Março 2005

Conhecer o ambiente para viver bem na caatinga

Os alunos de Maria do Socorro aprenderam a reconhecer e a valorizar os recursos naturais do meio ambiente local. Daí para desenvolver uma agricultura de qualidade e preservar a natureza foi um pulo!

Roberta Bencini

Maria do Socorro mostra sementes de moringa às crianças: alternativa natural para tratar água Foto: Marcelo Min
Maria do Socorro mostra sementes de 
moringa às crianças: alternativa natural 
para tratar água Foto: Marcelo Min

A vida é dura para quem planta no semi-árido nordestino. O solo seco e a pobreza são uma realidade para a professora Maria do Socorro Silva e seus alunos. A situação se agrava com as queimadas, o uso de agrotóxicos e o mau aproveitamento da água da chuva. Muitas vezes, o sertanejo vê no abandono da terra a única alternativa de sobrevivência. O projeto mostrou que há outras saídas. "A caatinga é um ecossistema rico, basta conhecê-lo. Informação, aqui, vale a vida", explica. Assim, suas aulas de Geografia para a 4ª série na Escola Rural Ouricuri, a 700 quilômetros de Recife, foram além de mapas e dados estatísticos. A turma de Coca, como a professora é conhecida na cidade, aprendeu a armazenar e gerenciar a água, a produzir fertilizante natural e alimentos para os animais. Os jovens ensinaram as novas técnicas de agricultura aos pais e provaram que é possível ter qualidade de vida preservando o meio ambiente.

PASSO A PASSO E METODOLOGIA

1. Alunos reconhecem a paisagem local
O projeto durou três meses e foi dividido em três etapas: a água, a produção vegetal e a alimentação dos animais. A observação e a descrição da paisagem agreste do sertão foi o ponto de partida do trabalho, realizado com a orientação da organização não governamental Caatinga, que funciona na cidade. Com pouco material disponível, Maria do Socorro utilizou imagens de livros e fôlderes e a observação em campo para mostrar aos estudantes as características da vegetação predominante na região a caatinga e do clima semi-árido do sertão nordestino. Os alunos desenharam cactos e galhos secos, e como não há cartolina na escola, usaram o verso de anúncios encontrados nas paredes de supermercados e bares. Nessa etapa, o discurso da garotada sobre as dificuldades da vida no sertão era bem marcado pelo senso comum: "A seca castiga" ou "vida boa tá no Sul". Em debates, Maria do Socorro desmitificou a crença de que o fator natural é o único responsável pela fome e a miséria existentes na região.

2. Água da chuva vale ouro
No clima semi-árido, a chuva é um fenômeno que acontece de maneira irregular, durante cerca de três meses por ano. Mas é possível ter água sempre. Maria do Socorro mostrou uma solução conhecida pelo sertanejo as cisternas, pequenas construções de cimento que reservam as águas pluviais. A professora reiterou a importância de manter esse sistema simples e vital para a vida no campo.

Mas e a qualidade da água dos reservatórios e açudes? Ao apresentar dados sobre a mortalidade infantil no Nordeste, principalmente por diarréia nos primeiros anos de vida, a professora falou sobre as formas de tratar a água. Uma delas, comprovadamente eficaz, é a utilização da semente de moringa planta conhecida na região para purificar a água barrenta. Maria do Socorro improvisou um laboratório de Ciências na sala de aula para mostrar o sistema de decantação realizado com as sementes.

3. O cultivo da terra sem agrotóxico
"Contem-me sobre o trabalho em suas pequenas propriedades", pediu a professora para começar a falar sobre as técnicas de agricultura. Os jovens descreveram queimadas e o uso de agrotóxicos nas lavouras. Seriam esses os únicos meios de limpar e cultivar o solo? Apenas parte dos estudantes dizia que sim. Para mostrar o prejuízo que essas práticas causam ao meio ambiente, a garotada visitou junto com alguns pais um tanque de fermentado biológico, que substituiu o agrotóxico. Um morador da comunidade contou como se dá o recolhimento de folhas e fezes de animais e a preparação do líquido pastoso, rico em nutrientes para a terra. Depois, todos acompanharam a pulverização de uma lavoura de feijão enquanto faziam perguntas ao agricultor.

4. Alimentos para os animais o ano todo

As aulas práticas continuaram, agora, com o objetivo de levar as crianças a reconhecer e usar plantas forrageiras, alimento dos animais. A professora ensinou técnicas de silagem uma forma de guardar o excedente da lavoura e fenação meio de reaproveitamento e armazenamento de folhas nativas. Palestras e debates completaram as informações recebidas em campo. O resultado foram cartazes expostos por toda a escola e livros ilustrados, feitos pelos alunos.

GEOGRAFIA 
Tema do trabalho
Conhecer a natureza para conviver com a seca

4ª Série

OBJETIVOS E CONTEÚDOS
A turma aprendeu a reconhecer a paisagem do lugar em que vive e as diferentes manifestações da natureza e a preservar o meio ambiente. A intenção de Maria do Socorro era formar cidadãos conhecedores das alternativas agrícolas do semi-árido, capazes de desenvolver uma agricultura de qualidade. Assim, ensinou a captar e gerenciar a água da chuva, a aumentar a produção vegetal sem uso de agrotóxicos e a garantir a alimentação dos animais.

PARA AMPLIAR ESTE PROJETO
Sueli Furlan, selecionadora do Prêmio Victor Civita, sugere abordar mais a agricultura tradicional e compará-la às técnicas alternativas. As causas políticas da seca merecem maior aprofundamento. É importante ainda tornar a seqüência dos conteúdos mais flexível, aproveitando as questões dos alunos e fatos que surgem ao longo do projeto.

AVALIAÇÃO

A professora acompanhou o desenvolvimento dos alunos durante todo o projeto. Produção de textos e cartazes, discussões, participação em palestras e entrevistas com os agricultores sinalizaram para Maria do Socorro os pontos em que os estudantes avançavam ou precisavam de reforço. Ao final de três meses, a turma entendeu que é necessário cuidar da terra sem agredi-la, aprendeu técnicas importantes para a convivência com a região semi-árida e repassou os conhecimentos às famílias.

Quer saber mais?

Escola Rural Ouricuri, Sítio Lagoa do Urubu, s/n, 56200-000, Ouricuri, PE, tel. (87) 3874-1085

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