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Uma vitória da educação

Estatísticas do ensino fazem o Brasil ganhar pontos no IDH, o ranking mundial do desenvolvimento

Márcio Ferrari

Como acontece desde 1990, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou em julho o Relatório de Desenvolvimento Humano 2003, que compara e comenta índices referentes a 175 países. As conclusões são sombrias para o mundo, mas positivas para o Brasil. O documento destaca que o país foi o que mais avançou desde que a ONU começou a medir o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), em 1975. O salto do Brasil (65º) nesse período foi de 16 posições, ficando perto da Rússia (63º) e à frente da China (104º), países com que costuma ser comparado.

A melhor colocação do Brasil no ranking atual se deve, em parte, a avanços no campo da educação. Embora, como você sabe, ainda reste muito a conquistar, a melhora do ensino se torna cada vez mais clara no desenho do perfil social brasileiro. "Nos últimos anos a valorização da escola foi muito forte no país", diz a socióloga Felícia Madeira, diretora-executiva da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados de São Paulo (Seade).

Por que avançamos

O IDH vai de 0 a 1. O país em primeiro lugar no relatório de 2003, que na verdade reúne os dados estatísticos referentes a 2001, é a Noruega (0,944 ponto) e o último, Serra Leoa (0,275). O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano (PNUD) aproveitou o relatório para fazer um balanço da evolução da qualidade de vida desde 1990. O relatório aponta, em âmbito global, "estagnação e reveses que não haviam sido vistos em década anteriores", sendo uma amostra disso a queda da renda per capita em 54 dos 175 países.

Graças aos avanços em educação e na expectativa de vida, o Brasil saltou, do relatório de 2002 para o de 2003, da 69ª posição para a 65ª sua pontuação passou de 0,772 para 0,777. Com isso, continua entre os países considerados de médio desenvolvimento (aqueles situados entre 0,500 e 0,779 ponto). As matrículas no Ensino Fundamental passaram, em dez anos, de 87% para 97% da população até 14 anos de idade. Além disso, cresceu o percentual de adultos alfabetizados, chegando a 87,32%.

Fundef é fator de melhora

A ONU mudou neste ano os critérios de apuração dos índices relativos à escolaridade, aceitando as informações dos governos, que se referem exclusivamente ao total de matriculados, sem entrar no mérito da qualidade do ensino. Paralelamente ao avanço na educação, a expectativa de vida brasileira subiu, entre os anos de 1975 e 2001, de 59,5 para 67,8 anos um indicador que reflete transformações positivas na saúde pública, no planejamento familiar e no acesso ao saneamento básico.

Para a socióloga Felícia Madeira, dois fatores principais influenciaram a melhora do ensino. Um deles foi a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), que, segundo ela, "corresponde à aposta na escola pelas famílias pobres". O outro foi o incentivo ao aprendizado dado às crianças por mães que já têm alguma escolaridade. "Estudos mostram que o aumento da escolaridade da mãe tem impacto maior que as políticas públicas, promovendo um círculo virtuoso", diz Felícia.

O sociólogo Cândido Grzybowski, diretor-geral do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), e Sueli Furlan, professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), relacionam o desenvolvimento dos últimos 20 anos à redemocratização e, em particular, à Constituição de 1988. "A voz da população passou a valer na definição das políticas de Estado", diz o sociólogo.

Nem tudo se comemora

Apesar dos avanços, o Brasil foi advertido pelo PNUD de que precisa rever seu cronograma para atingir metas preestabelecidas, especialmente em três setores críticos: erradicação da pobreza, acesso a saneamento básico e a água potável. A porcentagem da população que dispõe de esgotos sanitários cresceu, entre 1990 e 2001, de 71% para 76%, bem longe do objetivo de 86% estabelecido para 2015.

Desde que foi criado o ranking de desenvolvimento mundial, a renda sempre foi o calcanhar-de-aquiles do perfil estatístico brasileiro. De 1975 a 2001, a renda média per capita anual cresceu 0,8%, taxa menor do que a média mundial (1,2%) e do que a registrada pelos países em desenvolvimento (2,1%). "Se fôssemos medir apenas a evolução do PIB do Brasil, teríamos um retrato muito enganoso", afirma Felícia. "O IDH mostra que o país melhorou substancialmente. Mudou menos do que gostaríamos, mas mudou."

Como é calculado o índice 

O IDH foi criado pela ONU para avaliar a qualidade de vida num país ou numa região. Antes dele, a única medida de desenvolvimento era o Produto Interno Bruto (PIB), que apenas calcula a riqueza gerada num determinado período, mas não como ela contribui para o bem-estar da população. A ONU define o IDH como um indicador "sumário" de três dimensões do desenvolvimento humano: "Ter uma vida longa e saudável, ter instrução e ter um padrão de vida decente". Idealizado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq (1934-1998), o IDH, que é calculado e analisado pelo PNUD, aperfeiçoou-se ao longo dos anos e tornou-se uma referência mundial. Em 2000, o índice foi adotado como referência-padrão para as Metas de Desenvolvimento do Milênio, compromissos estabelecidos e assumidos pelos membros da ONU para serem atingidos em 2015. Nos últimos anos, o IDH passou a ser adotado pelo governo federal brasileiro como índice oficial para orientar a destinação de verbas dos programas sociais. "Hoje ele tornou-se muito importante para estimular os gestores a se mobilizar na melhora das condições de vida das pessoas", considera a socióloga Felícia Madeira, da Seade.

Para a pontuação de escolaridade, o IDH computa a taxa bruta de matrícula e a taxa de alfabetização de pessoas com mais de 15 anos. Para avaliar a renda, o índice recorre ao PIB per capita. Em relação à saúde, utiliza a expectativa de vida ao nascer. "Dessa forma, levam-se em conta os fatores que são estruturais no desenvolvimento de um país", afirma o sociólogo Cândido Grzybowski, do Ibase.

"A renda, isoladamente, pode ser reduzida de modo drástico, de uma hora para outra, mas não a educação e a saúde."

Plano de aula

IDH une Matemática e Geografia
O relatório sobre o Índice de Desenvolvimento Humano permite não só discutir a diversidade entre vários países e a situação do Brasil no cenário internacional , como também a importância e os mecanismos de estatísticas dessa natureza.

Tendo isso em mente, as consultoras Sueli Furlan, de Geografia, e Maria Sueli Monteiro, de Matemática, prepararam um roteiro de aula em torno do IDH dividido em três partes. As atividades são recomendadas para classes de 7ª e 8ª série.

1ª Parte

Sondagem e pesquisa
Apresente aos estudantes as informações recentes sobre o IDH e faça uma sondagem do que eles conhecem a respeito. Peça uma pesquisa sobre o histórico do índice. Converse sobre o que a turma encontrou e organize um glossário sobre alguns conceitos que são utilizados para o cálculo dele, como esperança de vida, porcentagem de adultos alfabetizados, taxa de alunos matriculados, renda per capita e PIB. As informações podem ser organizadas num painel para que a classe toda possa consultar. Lembre-se de mostrar que a renda per capita é sempre assinalada em dólares. Caso seja interessante, pode-se fazer a conversão para real.

2ª Parte

No cálculo, os dados de 2003
Os números apresentados na tabela a seguir referem-se aos índices que compõem o IDH de quatro países. Lembre-se de que a variação é de 0 a 1. Solicite que a turma localize geograficamente as quatro nações citadas, que pesquise sobre os possíveis contrastes sociais entre elas e os fatores considerados quando se estabelece um nível de qualidade de vida das pessoas, bem como o planejamento de medidas que conduzam a um desenvolvimento sustentável.

Caso haja possibilidade de fazer uma pesquisa na internet, solicite à garotada que procure os dados que constam da tabela abaixo no site http://www.pnud.org.br.



3ª Parte 

Comparação entre países



No gráfico ao lado é possível representar as três dimensões do IDH renda, saúde e educação. O máximo desenvolvimento de uma nação acontece quando há uma perfeita distribuição de renda, acesso à educação e saúde de boa qualidade. 

A situação ideal é representada por um triângulo eqüilátero. É possível perceber que a Noruega aproxima-se desse ideal. Peça aos alunos que refaçam o gráfico em papel milimetrado e representem os índices de Serra Leoa, Brasil e Colômbia.

Com base em todas as informações trabalhadas em classe, convide a turma para analisar a posição do Brasil na classificação mundial. Questione quais seriam os principais problemas brasileiros que estariam influindo nesses dados.

Quer saber mais?

INTERNET
Leia texto sobre a importância dos indicadores de desenvolvimento social no site da Seade www.seade.gov.br/hpseade/iprs/IPRS.pdf.

No site do PNUD, www.pnud.org.br, você encontra o ranking dos países de acordo com o IDH. 

 

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Publicado em Novembro 2006.
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