Revistas do mês
Nova Escola
Gestão Escolar
publicidade

Projeto

Qualidade de vida nas cidades: como aferir?

Introdução
"Rio, 40 graus / Cidade maravilha / Purgatório da beleza e do caos." Assim inicia a canção elaborada por Fernanda Abreu, cantora e compositora carioca. Mais adiante, a letra traz a seguinte passagem: "Capital do sangue quente / Do melhor e do pior / Do Brasil." O título da canção - Rio, 40 graus - é o mesmo do filme de Nelson Pereira dos Santos, que inovou na linguagem e na temática na época em que foi produzida, no ano 1955. A obra de Nelson, que influenciaria uma geração de cineastas do Cinema Novo, entre eles Glauber Rocha, conta a história de cinco garotos vendedores de amendoim em seu percurso pela cidade, apresentando situações no "morro" e no "asfalto".

Por que a compositora afirma que o Rio de Janeiro traz o melhor e o pior do Brasil? Há muitas respostas, mas certamente podemos considerar entre elas que a Cidade Maravilhosa ficou conhecida, de um lado, por sua singular beleza: um ambiente de maciços cristalinos entremeados por inúmeras praias à entrada de uma baía, onde se ergueu a segunda metrópole brasileira; nos morros, barracos, casebres e casas de alvenaria terminadas nos finais de semana; no asfalto, edifícios cercando o mar. Mas assim como outras cidades brasileiras, o Rio de Janeiro vive um cotidiano em que se combinam, entre outros problemas, a falta de saneamento básico e moradias dignas para todos, precariedade dos transportes coletivos, congestionamentos, segregação espacial e um permanente clima de insegurança e violência em zonas da cidade - atingindo especialmente os mais pobres.

Esse quadro indica um tema interessante e bastante relevante para um projeto coletivo de trabalho na escola: como medir e avaliar a qualidade ou condições de vida nas cidades brasileiras? Sob quais critérios? Existe um único entendimento do que seja qualidade de vida, extensivo a todos? O que se espera que uma cidade deva oferecer aos seus habitantes?

A relevância do tema vincula-se também ao ritmo e estrutura da urbanização brasileira referida aqui ao aumento da população urbana e a expansão ou crescimento de cidades (o que não esgota as concepções de urbanização; esta pode ser entendida também como a expansão do modo de vida urbano para além dos limites da cidade). Segundo dados da PNAD 2007 (ano-base 2006), o país conta hoje com 83% de sua população vivendo em cidades, algo em torno de 140 milhões de habitantes.

O Censo demográfico de 1940, realizado pelo IBGE, o primeiro a fazer a distinção entre população rural e urbana, registrou que apenas 1/3 da população nacional vivia em cidades no período. Portanto, a maior parte dos brasileiros passou a experimentar diariamente a "dor" e a "delícia" de viver na cidade.

Entre outras perspectivas, a idéia de urbanidade oferece uma ferramenta para refletir sobre a vida nos núcleos urbanos. Antes de tudo, é preciso fazer algumas considerações sobre a cidade. Conforme o geógrafo francês Jacques Lévy, ela é um objeto essencialmente geográfico marcado pela conjunção de diversidade e densidade e concentração de pessoas e atividades. Ela foi criada em praticamente todas as sociedades humanas para superar ou eliminar as distâncias espaciais e permitir as interações sociais. Elas se constituíram, assim, no berço principal da filosofia, da política, das ciências e das artes. Trata-se de um ambiente de evidente artificialidade, uma obra humana por excelência.

Assim, a urbanidade refere-se ao que a cidade deve ser e deve ter. Portanto, deve ser avaliada em relação ao que ela pode oferecer, tal como ela é, e não em relação ao que não é próprio dela. Uma cidade com bom potencial de urbanidade reúne um grande número de pessoas com diversidade de tipos, o que propicia relações sociais múltiplas e diversificadas (contrariando concepções do planejamento urbano moderno, que buscavam, ao contrário, a homogeneidade social). Além disso, a idéia de urbanidade assinala que uma cidade deve, antes de tudo, assegurar a todos os seus moradores o acesso aos recursos disponíveis. Isso começa pela existência de um bom sistema de mobilidade e existência de espaços públicos. Como ressalta o recente estudo do Fundo de População da ONU, "O estado da população urbana mundial em 2007", trata-se de resguardar o direito à cidade que todos têm, inclusive os recém-chegados.

Essa proposta de projeto didático tem o objetivo de oferecer aos estudantes instrumentos e critérios para que possam avaliar as condições ou qualidade de vida nas cidades e propor soluções e alternativas. Nesse sentido, a cidade em que vivem será o laboratório principal para desenvolver um projeto dessa natureza.

a) Utilizar recursos da leitura, escrita, observação e registro em diferentes linguagens em procedimentos de pesquisa.

b) Construir e organizar critérios de avaliação da qualidade ou condições de vida em cidades utilizando quadros-síntese, textos ou esquemas gráficos.

c) Compreender e avaliar processos de organização do espaço da cidade por meio de pesquisas, entrevistas e leitura e produção de textos e imagens.

Conteúdos
- Cidade
- Urbanização
- Urbanidade
- Qualidade de vida

Ano
8º e 9º

Tempo estimado
Variável

Material necessário
Textos e esquema em anexo

Desenvolvimento das atividades
1ª etapa Para organizar um projeto de trabalho na escola, o ponto de partida é a escolha do tema. O tema pode proceder de um fato da atualidade, de uma experiência comum, de um episódio ocorrido na escola, pode pertencer ao currículo oficial ou surgir a partir de uma proposição inicial do professor. Em geral, para proceder a essa escolha, os alunos partem do que já sabem, de suas experiências anteriores, de outros projetos já realizados na escola. Alunos e professor deverão se interrogar a respeito de sua relevância, interesse e se efetivamente atende às necessidades de aprendizagem da turma.

Dessa forma, é decisiva para a realização do projeto a participação dos estudantes na definição do tema, focos, metodologias e planejamento das etapas (ver quadro-síntese em anexo), mesmo que a idéia inicial tenha surgido de outras fontes.Proponha que os estudantes reflitam em torno da questão da cidade, de sua qualidade de vida e da extensão dos eventuais benefícios da vida urbana a todos os habitantes. Para uma sensibilização inicial, você pode propor que os estudantes coletem, selecionem e organizem letras de canções sobre a cidade criadas por artistas brasileiros. A turma pode promover uma audição das canções selecionadas e debater perspectivas e focos para o projeto a partir delas (ver sugestões em anexo). Esse trabalho pode ser feito também com notícias, frases sobre cidades e vida urbana ou textos de apoio. É essencial finalizar essa etapa com uma questão ou conjunto de questões e hipóteses que deverão nortear o projeto e serem respondidas por ele, além de permitir a elaboração de objetivos gerais e específicos.

2ª etapa Definido o tema geral, é preciso definir o que os estudantes já sabem e o que precisam saber para a consecução do projeto. Trata-se de uma avaliação diagnóstica inicial no âmbito do projeto, que dará a partida para criar seqüências e ordenar os conteúdos, definindo quais as principais fontes de informação a serem buscadas. Nesse momento, pode-se definir a abrangência do projeto e quais sub-temas, processos e conceitos ele vai envolver no seu percurso de realização, cabendo aqui ao professor um importante papel na definição dos principais conteúdos e procedimentos.

O que pode ser verificado para avaliar a qualidade de vida da cidade? Considere em primeiro lugar que as cidades são espaços construídos sobre uma base natural em que podem aparecer morros, fundos de vale, cursos d’água, solos e coberturas vegetais. Uma cidade em que os solos estão impermeabilizados, por exemplo, está sujeita a enchentes, face à dificuldade de infiltração e ao aumento do escoamento superficial da água.

Um segundo quesito diz respeito ao ambiente construído, envolvendo as edificações e seus usos, as atividades econômicas e as infra-estruturas (redes técnicas de água, energia, saneamento) e serviços urbanos (coleta de lixo, transportes, varrição e limpeza de ruas etc.). Especial atenção deve ser dada ao sistema viário, aferindo as condições e funcionamento do transporte coletivo, organização da malha viária, o peso da circulação de automóveis individuais, existência ou não de alternativas de deslocamento (ciclovias, passeios e caminhos para marcha pedestre etc.).

Outro dado imprescindível é a existência de espaços públicos de acesso irrestrito, que pode ser utilizado pelos moradores. Neles, é importante verificar a disponibilidade de equipamentos (como brinquedos para crianças) e serviços. As cidades podem ser avaliadas em sua condição estética (por exemplo, se há poluição visual, preservação de fachadas e outros) e se os ambientes são aprazíveis, convidando ao convívio social. Do mesmo modo, pode-se verificar se há diversidade ou homogeneidade social. É importante atentar aqui para o zoneamento da cidade, que normalmente restringe alguns usos e pode provocar verdadeiros "desertos" urbanos (zonas comerciais com muito movimento durante o dia e desertas à noite, ou bolsões residenciais com pouco movimento durante o dia).

Apresente esse conjunto de pontos aos estudantes e proponha que eles discutam e ampliem com outras sugestões. Eles poderão também criar indicadores, definindo uma escala de valoração das condições em que se encontram as edificações, infra-estruturas e equipamentos urbanos.

3ª etapa Uma vez organizados os campos para pesquisa e investigação, é importante definir responsabilidades individuais e coletivas para a coleta, seleção e tratamento das informações. É fundamental definir também de antemão o que deverá ser obtido por meio de pesquisas em livros, revistas especializadas, bancos de dados e documentos oficiais (tais como plantas e planos diretores do município) o que vai ser obtido em trabalhos de campo, com entrevistas, sondagens e visitas a órgãos públicos e outra instituições. Deve-se garantir tempos e espaços na sala de aula, biblioteca e laboratório de informática da escola para a organização e tratamento das informações. Vale a pena também detalhar quais serão as formas de registro utilizadas, como anotações (que podem ser feitas em planilhas ou quadros), gravação de voz ou filmagens. A organização desta etapa deve ser feita previamente, de modo a garantir os recursos técnicos e humanos necessários.

4ª e 5ª etapas Estas são as últimas etapas, momento de planejar os produtos finais, a apresentação dos resultados e a avaliação geral do projeto, enfocando um balanço, propostas e alternativas para a melhoria da qualidade de vida e dos níveis de urbanidade na cidade.

Os produtos finais poderão ser preparados preliminarmente nas etapas anteriores. Por exemplo, recolhendo material áudio-visual para a elaboração de vídeos ou transparências, ou organizando informações em quadros, mapas, gráficos e tabelas que irão compor um documento escrito. Havendo possibilidade, os documentos áudio-visuais podem ser produzidos em programas especiais no laboratório de informática. Um relatório ou texto dissertativo do projeto deve contar com uma estrutura que contenha título, introdução, justificativa, objetivos, metodologias, resultados e conclusões e referências bibliográficas.

Combine com os estudantes a forma de apresentação dos resultados, que podem envolver etapas com a própria turma e depois para grupos de turmas ou para toda a escola. Documentos, equipamentos, materiais, tempos e espaços para apresentações públicas devem ser organizados ou preparados previamente.

Avaliação
A avaliação final e auto-avaliação devem levar em conta os objetivos estabelecidos para o projeto e os processos e produtos com os quais os alunos estiveram envolvidos. Para tanto, podem ser organizadas sessões coletivas com toda a turma, retomando as etapas, os resultados e a participação e envolvimento dos estudantes. É importante que eles possam expressar livremente suas opiniões sobre o percurso percorrido.

Para a avaliação de cada estudante, leve em conta as aprendizagens ocorridas ao longo do processo e toda a produção individual e coletiva no âmbito do projeto. Contam aqui os processos e os produtos e resultados. Se necessário, prepare avaliações individuais após o balanço final do trabalho desenvolvido.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA

- Como usar a música na sala de aula, de Martins Ferreira. Contexto, 2002.

- Olhar geográfico, de Fernanda P. Fonseca et al. IBEP, 2007 (Vol. 7 - A vida nas cidades).

- A cidade e o urbano no mundo atual, de Roberto Giansanti. Global, 2004 (Viver, Aprender).

- Caracterização e tendências da rede urbana no Brasil, estudo do IPEA. IBGE. Unicamp. IPEA, 2001 (5 vols.)

- Morte e vida de grandes cidades , de Jane Jacobs, Martins Fontes, 2000.

- Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro, de Milton Santos e Maria Laura Silveira. Record, 2001.

INTERNET

Dados estatísticos dos Censos Demográficos e da Contagem da População 2007 podem ser encontrados no portal do IBGE: http://www.ibge.gov.br

O portal MPB net traz letras de canções de música popular brasileira: http://www.mpbnet.com.br/musicos/

O relatório O estado da população mundial 2007: liberar o potencial de crescimento urbano pode ser encontrado no portal do Fundo de População da ONU: http://www.unfpa.org/upload/lib_pub_file/697_filename_swp2007_spa.pdf (em espanhol). 


Anexos
Projetos: a escolha do tema
O ponto de partida para a definição de um Projeto de trabalho é a escolha do tema. Em cada nível e etapa da escolaridade, essa escolha adota características diferentes. Os alunos partem de suas experiências anteriores, da informação que têm sobre os Projetos já realizados ou em processo de elaboração por outras classes. (...) Dessa forma, o tema pode pertencer ao currículo oficial, proceder de uma experiência comum, originar-se de um fato da atualidade, surgir de um problema proposto pelo professor ou emergir de uma questão que fica pendente em outro Projeto.

O professorado e os alunos devem perguntar-se sobre a necessidade, relevância, interesse ou oportunidade de trabalhar um ou outro determinado tema. Todos eles analisam, de diferentes perspectivas, o processo de aprendizagem que será necessário levar adiante para construir conjuntamente o Projeto. (...)

Em qualquer caso, trata-se de definir o Projeto em relação às demandas que os alunos propõem. Nesse sentido, leva-se em conta uma organização curricular baseada nos interesses dos estudantes. (...)

O critério de escolha de um tema pela turma não se baseia num "porque gostamos", e sim em sua relação com os trabalhos e temas precedentes, porque permite estabelecer novas formas de conexão com as informações e a elaboração de hipóteses de trabalho, que guiem a organização da ação. (...)

Não existem temas que não possam ser abordados através de projetos. Frequentemente o sentido da novidade, de adentrar-se nas informações e problemas que normalmente não se encontram nos programas escolares, mas que o aluno conhece através dos meios de comunicação, conduz a uma busca em comum da informação, abrindo múltiplas possibilidades de aprendizagem, tanto para os alunos como para o professorado. Tudo isso não impede que os docentes também possam, e devam, propor aqueles temas que considerem necessários, sempre e quando mantenham uma atitude explicativa similar à que se exige dos alunos.

Quadro 1 - A cidade em canção

TítuloCompositor/Intérprete
Acender as velasZé Ketti
A cidadeChico Science - Chico Science & Nação Zumbi
AlagadosHerbert Viana, João Barone e Bi Ribeiro - Paralamas do Sucesso
Estação derradeiraChico Buarque de Holanda
HaitiGilberto Gil & Caetano Veloso
Manguetown

Chico Science, Lúcio e Dengue - Chico Science & Nação Zumbi

 

Rede urbanaOswaldo -Premeditando o Breque
Rio 40 grausFernanda Abreu
SampaCaetano Veloso
São Paulo, São PauloOswaldo, Biafra, Claus, Marcelo e Wandy - Premeditando o Breque
São SalvadorDorival Caymmi
Saudosa malocaAdoniran Barbosa
Venha até São PauloItamar Assumpção

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Fonte:
HERNÁNDEZ, Fernando. A organização do currículo por Projetos. Porto Alegre : Artes Médicas, 1992, p. 67-68.

Quadro 2 - Síntese das atividades de professores e estudantes no Projeto

Clique na imagem para ampliar.



Fonte:
HERNÁNDEZ, Fernando. A organização do currículo por Projetos. Porto Alegre : Artes Médicas, 1992, p. 82.

Consultor: Roberto Giansanti
Professor de Geografia, autor de livros didáticos para Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos e consultor educacional.

Compartilhe

Gostou desta reportagem? Assine NOVA ESCOLA e receba muito mais em sua casa todos os meses!

Comentários
 Garanta já a sua revista! Assinaturas, edições impressas e digitais

Assine suas revistas impressas ou digitais!

Compre suas revistas digitais e e-books!

Nova Escolar
  Patrocínio     Edições SM

Fundação Victor Civita © 2013 - Todos os direitos reservados.