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Carlos Alberto Torres - A escola precisa debater as influências da globalização

Para o sociólogo, é papel do professor estimular os estudantes a comparar os valores dominantes da atualidade com a realidade local

Karina Yamamoto

Carlos Alberto Torres. Foto: Mano de Carvalho
Carlos Alberto Torres

A trajetória de Carlos Alberto Torres é bem apropriada para uma pessoa que investiga a globalização. Argentino, ele fez doutorado em Stanford, nos Estados Unidos, e pós-doutorado na Universidade de Alberta, no Canadá. Como professor convidado, trabalhou em universidades de 15 países, incluindo o Brasil. A experiência forneceu-lhe evidências para comprovar uma de suas teses recentes: a idéia de que poucos fenômenos tiveram tanto impacto na vida do professor como a globalização. Para ficar em um exemplo de sala de aula, ele lembra que hoje é preciso disputar a atenção dos estudantes com a mídia, que muitas vezes veicula informações que se chocam com o que diz a escola. Por isso, é essencial encarar o novo panorama. Segundo Torres, mais do que transmitir saberes, o professor deve orientar a comparação das imagens e dos valores dominantes com a realidade local. Considerado um dos mais reconhecidos especialistas na obra do educador brasileiro Paulo Freire, Torres hoje leciona na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Recentemente, esteve  em João Pessoa para a Conferência  Internacional Educação, Globalização e  Cidadania. Nesta conversa com NOVA  ESCOLA, ele contou como é possível responder  aos desafios dos novos tempos.

De que maneira a globalização entrou  na sala de aula?
CARLOS ALBERTO TORRES
De certa forma, ela sempre esteve presente. O professor é talvez um dos primeiros internacionalizadores com quem temos contato na vida. Quando você vai à escola, não estuda somente filósofos, artistas e cientistas brasileiros: conhece profissionais do mundo inteiro. O docente é, por definição, um grande internacionalizador. É bom que seja assim: esse processo divulga a riqueza da civilização humana e impede que fiquemos restritos apenas ao conhecimento do nosso espaço.

Mas a recente explosão na circulação de informações, opiniões e valores pelos meios de comunicação mudou esse quadro radicalmente, não?
TORRES
Sim. É por isso que o atual processo de globalização precisa ser debatido. Por meio dos constantes bombardeios da mídia, ele contribuiu para a uniformização dos gostos e dos valores que supostamente se devem buscar. O estrategista de negócios Kenichi Ohmae chama isso de "californização" do gosto, que se observa principalmente nos adolescentes. Em todo o mundo, eles gostam da música rap, dos jeans Levi’s e dos mesmos tênis esportivos. O impacto das influências é grande, pois elas moldam a visão dos jovens sobre o mundo.

Como isso funciona na prática?
TORRES
Talvez uma conversa que tive com Paulo Freire seja um bom exemplo. Quando São Paulo era muito mais violenta, ele me disse: "Sabe, Carlos, hoje um menino foi assaltado e morto por causa de um par de tênis Nike. Essa valorização de bens cria um contexto de desejo em que as pessoas fazem qualquer coisa para tê-los". Ele estava falando do processo de veiculação de valores que foi intensificado pela globalização.

Como o professor deve trabalhar essas influências em sala de aula?
TORRES
Primeiro, é importante que ele faça uma ref lexão sobre seus valores, seus desejos e suas experiências. Em seguida, que estabeleça um diálogo com meninos e meninas naquilo que eu chamo de "dialética do local e do global". Trata-se de comparar imagens, influências e valores globalizados com o contexto local, discutindo se são válidos ou não em cada realidade. Quando estive na África, percebi que o ideal de beleza era diferente do predominante na mídia mundial. As modelos eram gordinhas - se você é gordo num ambiente de pobreza, isso é sinal de sucesso. Significa que a beleza anoréxica não se articula com a realidade local e não faz sentido persegui-la. Voltando ao exemplo do tênis: devemos nos preocupar apenas em ganhar dinheiro a todo custo para comprar mais? Simplesmente ignoramos os que não têm recursos mínimos? É esse tipo de questionamento que o professor deve ter e provocar.

Os professores percebem que estão sujeitos a tanto impacto?
TORRES
Aparentemente não. Coordeno uma pesquisa em 18 países que está chegando a alguns resultados surpreendentes. A maioria dos professores afirma que não se vê afetada pela globalização. Eles sempre falam como se fosse uma coisa externa, que só atinge os outros. Fiquei impressionado com essa descoberta.

Certos pesquisadores apontam ainda que o novo panorama mundial modifica a relação da escola com o conhecimento. Isso realmente ocorre?
TORRES
Sim. Um dos grandes dilemas do momento é que a escola não pode mais apenas reproduzir conhecimento, como fazia até pouco tempo atrás. Agora a escola tem de ser um lugar de produção de conhecimento. 

Qual é a participação do educador em todo esse processo?
TORRES É fundamental.
Primeiro, ele deve saber que o conhecimento é uma construção coletiva, que nasce das interações na sala de aula. Segundo, precisa ter competência técnica e possuir as ferramentas para fazer os alunos avançar. Paulo Freire já falava do cuidado que essa atividade exige. Afinal, o processo de conhecimento tem um aspecto diretivo, ou seja, precisa ser orientado, conduzido. Parte-se sempre do saber dos alunos, que carrega uma riqueza muito grande mas precisa ser reorganizado, decodificado, reconstruído pelo contato com outros conhecimentos e outras ciências. É preciso ser muito competente para fazer isso. 

É pelo fato de o professor fazer a ponte no diálogo entre o saber popular e o científico que se defende a idéia de que ele deve agir como um tradutor?
TORRES
Definitivamente sim. Ele tem de colaborar no processo de tradução não apenas de conhecimentos, mas também de culturas e de identidades. O multiculturalismo é uma característica que se intensificou com a globalização. Também passam a surgir diversas identidades baseadas no universo de preferências individuais - uma menina pode ser homossexual, a outra, heterossexual, um menino pode seguir uma determinada religião, e não outra... Essa complexidade já aparece fortemente na sala de aula, e o professor precisa saber lidar com ela. O que não é uma tarefa fácil: requer lucidez e compreensão das diversas linguagens que tentam comunicar-se. Quem já trabalhou com tradução simultânea sabe do que estou falando. É uma tarefa estafante. Para mim, falar e pensar mais de 30 minutos em duas línguas é um excesso, uma violência sobre meu corpo.

Esses são problemas anteriores à escola que ultrapassam suas fronteiras. Como lidar com eles?
TORRES
Atuando para fortalecer o diálogo, ajudando a estabelecer regras de confronto e negociação, tentando mostrar como a vida democrática pode acomodar uma diversidade de interesses, identidades e ideologias. A base para essa ação são os direitos humanos, que deveriam estar no coração de qualquer sistema de ensino. Na sala de aula, o trabalho de tradução é essencial para honrar as tradições da Educação: expandir os horizontes intelectuais e voltar a atenção para as dimensões cognitivas e morais da vida. O objetivo é a criação de uma consciência coletiva intercultural que promova o convívio entre as diferenças e seja capaz de combater duas coisas que fazem muita falta ao mundo de hoje. 

Quais são elas?
TORRES
Eu as chamo de "déficits". O primeiro é o déficit moral, que ocorre tanto entre as elites como entre os pobres. Na América Latina, ele está institucionalizado na forma de corrupção, que recebe punições brandas: há quem roube milhões do governo, passe um ou dois anos na cadeia e saia impune. O outro é o déficit de solidariedade, materializado, por exemplo, na sonegação de impostos. Quando as pessoas da classe média deixam de pagar tributos, isso significa que elas perderam o sentido de solidariedade. Se esses dois déficits persistirem, não haverá muitas opções para o futuro de nossa civilização. A escola pode contribuir para diminuí-los, embora a melhoria das condições da consciência só se manifeste quando melhoram as condições materiais. Por isso, devemos nos preocupar também com a forma com que são repartidos socialmente bens e serviços, lutando pela redistribuição e pela igualdade. 

Ao falar da influência da globalização fora da sala de aula, uma de suas constatações é que há um fenômeno mundial de avaliações regionais, nacionais e internacionais. No Brasil, temos o Enem, o Enade, a Prova Brasil e outros. Qual é sua opinião sobre esse tipo de exame?
TORRES
Eles são baseados num critério homogêneo para medir a aprendizagem, algo que em inglês se denomina one size feets all ("um tamanho serve para todos"). Se fizermos uma comparação com a produção de sapatos, é mais ou menos como imaginar que todos os 190 milhões de brasileiros calçam 42 e pronto. Em minha opinião, esses modelos de avaliação que pretendem medir todos pelo mesmo parâmetro são um horror. 

Mas há pontos positivos nos testes...
TORRES
Eles não avaliam o essencial. Não permitem descobrir competências específicas de um aluno para direcionar melhor sua trajetória de aprendizagem. Também não concordo com que uma avaliação nacional decida se ele tem ou não bom nível quando chega à 8ª série. Veja o meu exemplo: fui um excelente estudante universitário, mas medíocre na escola secundária. Só percebi que tinha alguns talentos no fim desse período. Incentivado por um professor, eu, que nunca tinha sido um aluno especial, me transformei no melhor estudante de Economia da classe. Encontrei uma competência que eu não sabia possuir. Isso demonstra que a descoberta do talento demora,e ele não pode ser medido por um teste num ponto isolado no tempo. 

Em sua opinião, como seria a avaliação ideal na escola?
TORRES
Antes de mais nada, quero dizer que não tenho dúvida de que é preciso avaliar. O que discuto são os critérios de avaliação. Primeiro, acho que esse tem de ser um processo que se estenda por um período relativamente longo de tempo - quatro anos, digamos. Depois, é preciso selecionar um modelo. Um dos que mais aprecio é a análise de portfólio. Com essa coletânea de redações e desenhos que contém as principais produções do aluno é possível identificar competências específicas. Outra vantagem é que se cria uma aproximação com cada estudante, pois o professor tem todo o histórico da evolução diante de si. Um terceiro ponto positivo é que a avaliação se torna coletiva, já que o portfólio passa de um professor para outro conforme a criança vai avançando nos estudos. Atrelada à criação de avaliações externas existe a tendência de remunerar os professores de acordo com os resultados de seus alunos nesses testes. 

O senhor concorda com isso?
TORRES
Não vejo problema em remunerar diferentemente profissionais responsáveis pelo avanço consistente de estudantes em termos de aprendizagem e produtividade. Mas insisto: é preciso considerar um período longo de tempo. Sou contra dar essa remuneração a um professor porque seu aluno teve, vamos dizer, 99% de acertos num exame. Esse não é um bom critério.

Quer saber mais?

Bibliografia
Democracia, Educação e Multiculturalismo
, Carlos Alberto Torres, 320 págs., Ed. Vozes, tel. (11) 3105-7144, 51,50 reais
Globalização e Educação, Nicholas C. Burbules, Carlos Alberto Torres e colaboradores, 240 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 44 reais

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Publicado em NOVA ESCOLAEdição 212, Maio 2008,
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