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Samba do Approach

Mostre como nosso vocabulário incorpora expressões originárias de outros idiomas

Ilustração: Fido Nesti

Saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch
Eu ando de ferryboat

Eu tenho savoir-faire
Meu temperamento é light
Minha casa é hi-tech
Toda hora rola um insight
Já fui fã do Jethro Tull
Hoje eu me amarro no Slash
Minha vida agora é cool
Meu passado é que foi trash

Fica ligada no link
Que eu vou confessar, my love
Depois do décimo drink
Só um bom e velho engov
Eu tirei meu green card
E fui pra Miami Beach
Posso não ser um pop star
Mas já sou um nouveau riche

Eu tenho sex appeal
Saca só meu background
Veloz como Damon Hill
Tenaz como Fittipaldi
Não dispenso um happy end
Quero jogar no dream team
De dia um macho man
E de noite drag queen 

 

Letra de Zeca Baleiro, ilustrada por Fido Nesti

 

Especial ERA UMA VEZ...


Explique que a língua tem vida

Mostre como nosso vocabulário incorpora expressões originárias de outros idiomas

Quando aprendemos uma língua não descobrimos apenas um sistema de signos. Aprendemos também que esses signos carregam significados culturais. A leitura de um texto nos aproxima de hábitos, costumes, conceitos e pontos de vista de povos e culturas diferentes. Ao preparar uma aula de leitura, o bom professor estimula os alunos a verbalizar expectativas, utilizar o conhecimento textual, lingüístico e de mundo e desvendar as pistas formais que o autor fornece. O exercício requer o domínio de habilidades de decodificação, para um compartilhamento mínimo de referências simbólicas que permitam a interlocução. Para tanto é importante os alunos aprenderem estratégias que dinamizem a interação de leitor e texto.

Material necessário
 

Vários dicionários de Língua Portuguesa (editados em anos diferentes), dicionários português-inglês, inglês-português, português- francês e francês-português e dicionários inglês-inglês e francês-francês. Se a escola tiver acesso à internet, oriente a classe a utilizar o site www.uol.com.br/dicionarios. O ideal é que a aula seja conduzida pelos professores de Língua Portuguesa e Língua Estrangeira.

Objetivo 

Ensinar os alunos a usar diferentes estratégias de leitura para se aproximar da intenção do autor. Ao ler, podemos ter diferentes intenções. Aqui importa atribuir sentido ao uso que o compositor Zeca Baleiro faz de palavras de origem inglesa e francesa no Samba do Approach. As atividades propostas enfocam o caráter cultural do signo lingüístico e pretendem mostrar como usar adequadamente o dicionário. 

Primeira aula

■ Para começar, disponha a classe em grupos. Antes da leitura do texto:
■ Pergunte quem conhece o Samba do Approach. Alguém já ouviu falar de Zeca Baleiro e Zeca Pagodinho?
■ Indague o que a garotada entende quando lê a expressão samba do approach. O que significa approach? Por que a canção tem esse nome?
■ Distribua os dicionários de Língua Portuguesa e peça que todos procurem o verbete approach (os dicionários mais antigos não têm a palavra).
■ Solicite que os adolescentes exponham o que encontraram e elaborem uma explicação para a ausência do vocábulo em alguns dicionários.
■ Segundo o Novo Dicionário Aurélio, approach quer dizer elo, ligação, enfoque. Com base nesse dado, pergunte o que a garotada entende por samba do approach e o que espera encontrar na letra da canção.
■ Verifique que tipo de linguagem, construção lingüística e dificuldades de compreensão os jovens prevêem na leitura do texto. Estimule-os a expor o próprio ponto de vista.

Durante a leitura:

■ Leia a canção em voz alta. Faça pausas e pergunte o que a turma entendeu. Motive os estudantes a rever perspectivas e conceitos equivocados. É provável que muitos não compreendam palavras estrangeiras.
■ Proponha uma leitura silenciosa com o objetivo de apontar outras palavras estrangeiras além de approach.
■ Convide os alunos a dizer o que encontraram e como entendem o que cada termo quer dizer. Sugira que procurem as definições no dicionário.
■ Entregue os dicionários inglês-português e encomende uma pesquisa sobre as palavras que não foram encontradas na atividade anterior. Proponha que os grupos façam anotações e depois comparem com o que produziram os colegas de outros grupos. Importante: mesmo dicionários inglês-português não oferecem algumas das respostas. Questione a classe sobre os motivos que levam um vocábulo a ser dicionarizado.
■ Pergunte, então, por que incorporamos ao nosso vocabulário palavras de outros idiomas. Encarregue os alunos de tomar nota das próprias hipóteses, já que a discussão terá continuidade.

Segunda aula

■ Propor uma análise coletiva da definição que o Novo Dicionário Aurélio oferece para brunch: "Ing. br(eakfast) + ( l )unch, refeição farta e substanciosa, ingerida especialmente nos fins de semana e feriados, e que substitui o desjejum e o almoço". Ressalte que não existe uma palavra em português com o mesmo significado, o que impossibilita a existência do verbete em dicionários português-inglês. Outro aspecto que merece atenção: algumas camadas sociais no Brasil já incorporaram o costume de substituir o café da manhã e o almoço por uma refeição só — principalmente nos fins de semana — e a chamam de brunch.
■ Agora tome a expressão happy hour. A prática de se reunir no final da tarde para beber e comer algo leve já existia entre nós quando passamos a usar a expressão em inglês para nomear esse momento, certo?
■ Chegou a hora de pedir que os alunos pesquisem o verbete brunch no dicionário inglês-inglês. Eles verão uma descrição similar à oferecida pelo Novo Aurélio, só que em inglês.
■ Pergunte, então, por que alteramos nossos hábitos de tempos em tempos e criamos palavras. Se houver oportunidade, defina estrangeirismo e explique que muita gente considera "sofisticado" e "elegante" empregar vocábulos importados mesmo quando há equivalentes em português. Discuta a Lei 1.676/99, do deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), que tenta reduzir o estrangeirismo na mídia.
■ Por fim, sugira que todos releiam o texto e tentem traduzir a intenção do autor ao chamar sua obra de Samba do Approach. Que hábitos ele descreve no texto? Que grupos sociais se identificam com essa linguagem? Peça que os adolescentes retomem suas anotações para debater em grupo. Observe que Zeca Baleiro mescla palavras recentes na nossa cultura a outras mais antigas, como ferryboat, macho man e pop star. 

Trocando em miudos
 
Há três termos usados no início deste plano de aula que merecem um olhar mais atento. Signo, para os lingüistas, designa o conjunto formado pela palavra e o que ela quer dizer. Mais adiante aparece decodificação. Leve em conta que toda língua é um código cheio de sinais que só fazem sentido para seus usuários. Decodificar é traduzir esse código. É ler ou ouvir uma palavra e entendê-la. A proposta de aula também cita referências simbólicas. O termo referências, no caso, indica conhecimento. E simbólicas, aqui, tem a ver com o sentido não literal das palavras. Referências simbólicas, portanto, são o conhecimento de mundo necessário para perceber as entrelinhas de um texto.

A autora

Este roteiro pedagógico, para 7ª e 8ª séries, foi elaborado por Celina Bruniera, consultora de Língua Estrangeira do Prêmio Victor Civita - Professor Nota 10, para ser desenvolvido em duas aulas de 50 minutos.

Quer saber mais?

Celina Bruniera, R. Diana, 649, ap. 41, 05099-000, São Paulo, SP, tel. (11) 3871-980, e-mail: celbruniera@uol.com.br

BIBLIOGRAFIA

Os Conteúdos na Reforma, César Coll, Juan Ignacio Pozo, Bernabé Sarabia e Enric Valls, 182 págs., Ed. Artmed, tel. 0800 703-3444, 32 reais

Estratégias de Leitura, Isabel Solé, 194 págs., Ed. Artmed, 38 reais

Texto e Leitor: Aspectos Cognitivos da Leitura, Angela Kleiman, 82 págs., Ed. Pontes, tel. (19) 3252-6011,16,50 reais 

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 159, Janeiro 2003.
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