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Rubem Braga: o maior cronista brasileiro do século 20

Conheça mais sobre a vida e a obra do jornalista e escritor de Cachoeiro de Itapemirim, cujo centenário de nascimento é comemorado no dia 13 de janeiro de 2013. Para os críticos, Braga é sinônimo do gênero literário que consagrou, a crônica

Gabriela Portilho

Rubem Braga, jornalista e escritor

Há 23 anos, o escritor capixaba Rubem Braga recebeu a chegada da morte, assim como escolheu passar a vida. Em seu apartamento em Ipanema, o cronista e jornalista convidou alguns amigos, despediu-se aos poucos e morreu sozinho, vítima de um tumor na laringe que optou por não tratar nem cirúrgica, nem quimicamente. Em um de seus últimos textos, Rubem escreveu:

Hoje venta noroeste, amanhã é lua cheia. Depois virão outras luas e outros ventos, mas isso também é fútil. Pois um dia as luas podem girar no céu e os ventos rodarão na terra com meiguice ou fúria, e isso não te importará, como também, tudo o que foi. Por que, então, te afliges agora? Que a brisa do mar invente espumas, e depois venham as chuvas frias, o sol e depois no céu limpo suba, imensa, a lua - não pense que isto tenha a ver contigo. Não existes. Nada tem a ver contigo.

A amostra dá uma pequena noção do potencial narrativo do escritor, considerado o maior cronista brasileiro de todos os tempos. No século 19 Machado de Assis escreveu crônicas imprescindíveis para um bom leitor, mas o fez em número menor que Braga, o que torna o capixaba quase sinônimo do gênero literário que o consagrou.

Formado em Direito, Rubem Braga jamais exerceu a profissão, devotando-se às crônicas e ao jornalismo - atividades que o acompanharam até os últimos dias de vida. O escritor chegou a ser correspondente da Revolução Constitucionalista de 1932 para o jornal mineiro "Diários Associados", do grupo de Assis Chateaubriand.

Em 1961, Braga deixou o Brasil por três anos para se tornar embaixador do país em Marrocos, sem nunca parar de escrever. Ao todo, em sua vida, foram mais de 15 mil crônicas, todas elas marcadas pela linguagem coloquial e por temas simples, como a vida no campo e a natureza, em contraposição à urbanidade e aos compromissos sociais da vida adulta.

Na crônica Natal, publicada no livro A Borboleta Amarela (Editora Record, 160 páginas), Rubem Braga demonstra uma das principais características de sua personalidade, refletida em toda a obra: a vida solitária, que conferiu a ele o estigma de um homem introspectivo e avesso ao convívio social. "Sinto uma grande ternura pelas pessoas; sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens úmidas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas", escreveu.

Quando o assunto é crônica, Braga foi um divisor de águas
Para o escritor e professor de literatura da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no Paraná, Miguel Sanches Neto, "a crônica literária no Brasil divide-se em antes e depois de Rubem Braga". Até o século 19, a crônica era vista como um gênero literário menor, e os escritores dedicavam-se muito pouco a este tipo de texto. "Rubem Braga fez da crônica o gênero da sua vida, com excelência", comenta o professor.

A obra de Braga conferiu um novo status à crônica. Depois de seus textos, o gênero passou a ser reconhecido mesmo entre os críticos. "As crônicas de Machado e, de boa parte dos escritores do século 19, tinham um tom mais seco, quase jornalístico e eram cheias de referências históricas, próximas do gênero que hoje conhecemos como jornalismo literário. Rubem Braga conferiu à crônica o lirismo, a poesia e a leveza que antes não existiam", explica Sanches Neto.

A crônica como gênero literário
Após o Modernismo e com a ascensão da chamada geração de 1930 - de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Graciliano Ramos, Cecília Meirelles, Rachel de Queirós, Jorge Amado, entre outros -, escritores, ficcionistas e poetas brasileiros passaram a valorizar características da oralidade e do cotidiano na prosa e na poesia. Esta mudança de estilo contribuiu para que a crônica passasse a ser cada vez mais aceita como gênero. E Braga soube capitanear essa mudança, ao levar para as páginas dos jornais uma literatura mais prosaica.

Rubem Braga não quis ser outra coisa além de cronista. Colocou em seus textos um ideal de simplicidade literária, que o torna o maior expoente do seu gênero e uma das grandes influências da literatura brasileira - mesmo as poesias de Drummond e Mário Quintana bebem das crônicas, colocando-as em verso.

 

Quer saber mais?

Rubem Braga: Um cigano fazendeiro do ar. Marco Antonio de Carvalho, Editora Globo, 612 páginas, 2007.

 

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Publicado em Janeiro de 2013.
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