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O causo na sala de aula

O gênero tem valor não só para a tradição oral. Bem explorado, rende atividades de análise das marcas da oralidade, transcrição, retextualização e revisão

Beatriz Vichessi

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=== PARTE 1 ====
O gênero tem valor não só para a tradição oral. Ilustração: Luda

O povo mineiro tem a fama de ser bom contador de causos, histórias que nem sempre é possível comprovar se são verdadeiras - e aí reside o encanto delas. Saborosas, fantásticas, às vezes amedrontadoras, às vezes engraçadas, e passadas de geração em geração, elas são contadas por vozes que, com sotaque e expressões interioranas, entonação e ritmo certos, capturam a atenção.

Pois foi em Minas que os causos ganharam terreno para além de sítios, casas, bares e armarinhos e foram parar nas salas de 5º ano de duas escolas: a EM Professor Francisco Bruno Ribeiro, em Marmelópolis, a 460 quilômetros de Belo Horizonte, e a Fundação Torino, na capital. Em ambas, o trabalho tinha como objetivo desafiar os estudantes a registrar por escrito histórias apresentadas oralmente - ou seja, retextualizá-las.

Esse procedimento envolve operações complexas que interferem tanto nas questões notacionais como no sentido, segundo Luiz Antônio Marcuschi, no livro Da Fala para a Escrita - Processos de Retextualização (136 págs., Ed. Cortez, tel. 11/3611-9616, 28 reais). À primeira vista, pode parecer que a retextualização implica em melhorar o material, transformando o texto oral (considerado por muitos descontrolado e caótico) em escrito (aparentemente mais controlado e organizado). Mas não é isso. O processo tem a ver com a passagem de uma ordem a outra, sendo que nenhuma deve ser considerada a melhor ou a mais válida: elas cumprem funções diferentes e são mais (ou menos) adequadas de acordo com a situação.

Para realizar bem a tarefa com os causos, o primeiro passo é trabalhar a leitura de bons modelos. Assim, as crianças conhecem as características do gênero e os recursos utilizados pelos autores. Essa etapa, anterior à busca de boas histórias, também é importante para que a turma não encare esse tipo de texto como algo inferior a contos, notícias e outro gêneros. O renomado escritor Graciliano Ramos (1852-1953), por exemplo, escreveu causos. Leia no quadro da página à esquerda um trecho de Primeira Aventura de Alexandre. Note que o autor preserva marcas informais da fala e do vocabulário do povo do interior (como "nhor" e "vossemecê"), não despreza repetições de termos - uma característica importante da oralidade -, faz suspense antes de concluir ("Vossemecês adivinham o que estava amarrado no mourão?") e prioriza o tempo passado.

Trecho da primeira aventura

(...) A reza acabou lá dentro, e ouvi a fala de meu pai: 

- "Vocês não viram por aí o Xandu?" - "Estou aqui, nhor sim, respondi cá de fora" - "Homem, você me dá cabelos brancos, disse meu pai abrindo a porta. Desde ontem sumido!" - "Vossemecê não me mandou procurar a égua pampa?" - "Mandei, tornou o velho. Mas não mandei que você dormisse no mato (...).

E achou o roteiro dela?" - "Roteiro não achei, mas vim montado num bicho. Talvez seja a égua pampa, porque tem malhas. Não sei, nhor não, só se vendo. O que sei é que é bom de verdade: com umas voltas que deu ficou pisando baixo, meio a galope. (...)"

(...) Meu pai, minha mãe, os escravos e meu irmão mais novo (...) foram ver a égua pampa. Foram, mas não entraram no curral: ficaram na porteira, olhando uns para os outros, lesos, de boca aberta. E eu também me admirei, pois não.

Alexandre levantou-se, deu uns passos e esfregou as mãos, parou em frente de mestre Gaudêncio, falando alto, gesticulando:

- Tive medo, vi que tinha feito uma doidice. Vossemecês adivinham o que estava amarrado no mourão? Uma onça-pintada, enorme, da altura de um cavalo. Foi por causa das pintas brancas que eu, no escuro, tomei aquela desgraçada pela égua pampa.

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=== PARTE 3 ====

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 258, Dezembro 2012. Título original: Vou te contar um causo
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