
A senhora não me conhece. Faz tanto tempo e me lembro de detalhes do seu jeito, sua voz, seu penteado e
roupas... A senhora ensinava na 3a série B e eu era aluna da 3ª série C no Grupo Escolar do Tatuapé... Passava no corredor fazendo figa para mudar de classe, pra minha professora viajar e nunca mais voltar, pra diretora implicar e me mandar
pra 3a B... Nunca tive tanta inveja na minha vida como tive das crianças da série B...
Lembro que na sua sala se ouviam risadas quase o tempo todo. Maior gostosura! De vez em quando, um enorme silêncio quebrado por uma voz
suave...era hora de contar histórias. Suspirando, eu grudava na janela e escutava o que podia... Também muitos piques e hurras, brincadeiras correndo solto. Esconde-esconde, telefone sem fio, campeonato de Geografia. Tanto fazia a
aprontação inventada. Importava era sentir a redonda contenteza dos alunos.
A sua sala era colorida com desenhos das crianças, um painel com recortes de revistas e jornais, figurinhas bailando em fios pendurados, mapas e fotos...
Uma lindeza rodopiante mudada toda semana! Vi pela janela seus alunos fantasiados, pintados, emperucados, representando cenas da História do Brasil! Maior maravilhamento! Demorei, entendi. Quem nunca entendeu foi a minha professora...
Seu segredo era ensinar brincando. Na descoberta! Na contenteza!
Nunca ouvi berros, um "Cala boca", "Aqui quem manda sou eu" e outras mansidões que a minha professora dizia sem cansar. Não escutei ameaças de provas de
sopetão, castigos, dobro da lição de casa, chamar a diretora, com que a minha professora me aterrorizava o tempo todo...
Dona Licinha, eu quis tanto ser sua aluna quando fiz a 3a série. Não fui... Hoje, tanto tempo depois, sou
professora. Também duma 3a série. Agora sou sua colega... Só não esqueço que queria estar na sua classe, seguir suas aulas risonhas, sem cobranças, sem chateações, sem forçar barras, sem fazer engolir o desinteressante. Numa sala
colorida, iluminada, bailante. Também quero ser uma professora assim. Do seu jeito abraçante.
Hoje, vi uma garotinha me espiando pela janela. Arrepiei. Senti que estava chegando num jeito legal de estar numa sala de aula... Por
isso resolvi escrever para a senhora. Vontadona engolida por décadas. Tinha que dizer que continuo querendo muito ser aluna da Dona Licinha. Agora, aluna de como ser professora. Fazendo meus alunos viverem surpresas inventivas.
Um abraço apertado,
cheinho de gostosuras, da
Ciça
Conto de fanny Abramovich
Ilustrado por Carlo Giovani
Foto de Leo Feltran
O ofício de ensinar
A emocionada carta-crônica de Fanny Abramovich é um ótimo ponto de partida para um debate sobre o mestre que
todos nós gostaríamos de ser
A carta-crônica de Fanny Abramovich, a professora Ciça se lembra de quando era uma garotinha da 3a série e desejou muito ser aluna de Licinha. Mas por quê? A menina não
estudava? Não tinha ela uma professora? Na verdade, o depoimento fala do mestre que todos nós gostaríamos de ser. Pode, então, ser lido como uma homenagem dos estudantes, representados pela pequena Ciça. Que tal, neste mês de
outubro, propor aos colegas a leitura do texto como uma forma de, antes do bolo, festejar o Dia do Professor e descobrir por que Ciça queria tanto passar para a turma de dona Licinha? Para facilitar a reflexão, siga este roteiro, elaborado por
Heloisa Cerri Ramos, consultora pedagógica da Fundação Victor Civita e de NOVA ESCOLA.
O grupo de professores pode começar escolhendo um colega para ler, com dramaticidade, a carta, da qual todos devem ter uma cópia. O
objetivo é descobrir qual é a magia que envolve as aulas de dona Licinha. Antes de iniciar a leitura dramática, apresente as questões a seguir, sem esperar pelas respostas O objetivo é fazer com que todos se familiarizem com o que será
conversado depois.
■ O que dona Licinha tem que tanto encanta a criança
■ Será que ela só propõe brincadeiras na classe?
■ Ela trabalha com os estudantes fora da sala de aula, ao ar livre, e, por isso, eles se sentem
soltos e alegres?
■ Será que os alunos gostam mais das aulas quando não têm limites, quando tudo podem dentro da classe?
■ As atividades de estudo e pesquisa são muito maçantes para os pequenos?
■ Você, dentro da
sala, dá sempre respostas prontas aos questionamentos? Isso agrada às crianças, que não precisam se esforçar para pensar nem para resolver situações desafiadoras?
■ Será que um professor pode ser competente no ofício de ensinar
e, ao mesmo tempo, se tornar admirado e querido por seus alunos?
Todas as questões levam a uma reflexão sobre alguns equívocos muito comuns em torno do que é ser um bom professor imagem que costuma ser associada
apenas ao "bonzinho". O que é ser "bonzinho"? Dona Licinha era querida por ser "boazinha"? Será que um dos motivos para tal encantamento não é o modo como ela conduz à descoberta de novos conhecimentos numa atmosfera de afeto e
alegria?
Elos de afetividade
Sem abandonar a responsabilidade de ensinar, ela consegue recobrir de "maravilhamentos" os momentos da aprendizagem, provando que conhecimento e
afeto não se excluem. Ao contrário, se complementam. Quando o professor se propõe a ensinar e os alunos a aprender uma corrente de elos de afetividade vai se formando e o cumprimento das atividades passa a fazer sentido para todos. Sem
vínculos afetivos, a aprendizagem significativa não ocorre.
Depois da leitura da carta-crônica, o ideal é partir para uma conversa franca sobre as questões propostas. O importante não é buscar respostas únicas, definitivas, mas fazer
circular idéias a respeito do ofício de ensinar e das razões pelas quais alguns professores, em determinados momentos da carreira, se transformam em modelo para jovens e crianças e serão lembrados por eles pelo resto da vida. Durante a
discussão, evite o tom de mea culpa que muitas vezes domina encontros entre colegas. Quando todos sentirem que o que foi falado é o bastante até aquele momento, unam-se em volta de uma mesa com bolo e velas e comemorem com alegria
o orgulho de ser professor.