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Como ensinar sobre o corpo humano?

Poucos assuntos são tão fascinantes para os alunos quanto o funcionamento do organismo. Para ajudar você a aproveitar essa curiosidade, respondemos a oito dúvidas frequentes sobre o assunto

Com apuração de Márcia Scapaticio. Editado por Anderson Moço

Com sua turma do 4º ano, a professora Janaína Link organizou uma sequência didática sobre os sistemas do corpo e suas funções. Após a pesquisa em livros e outras fontes, os alunos construíram modelos dos sistemas, como o 

circulatório. Foto: Tamires Kopp
Modelos de corpo Com sua turma do 4º ano, a professora Janaína Link organizou uma sequência didática sobre os sistemas do corpo e suas funções. Após a pesquisa em livros e outras fontes, os alunos construíram modelos dos sistemas, como o circulatório

Por menores que sejam as crianças, elas sempre se perguntam sobre como funciona o nosso corpo. Para que serve o sangue? A gente come e bebe água para quê? De onde vem a sede que sentimos depois de correr? Quanto tempo posso ficar sem respirar? Mesmo antes de começar a estudar o organismo, elas formulam hipóteses para essas perguntas (em geral, apoiadas em informações vindas de casa e da mídia, e algumas com grandes equívocos conceituais).

É papel do professor lançar novas questões e tentar ajudá-las a construir explicações mais ajustadas (e muitas vezes provisórias) sobre o tema. É claro que não se espera que os alunos consigam entender toda a complexidade do organismo humano e das explicações científicas que ajudam a entendê-lo, mas é preciso que conheçam as características e definições básicas, as funções dos diversos órgãos e suas relações.

O foco do trabalho nessa etapa é ajudar a turma a perceber o corpo como um todo integrado, em que diversos sistemas realizam funções específicas, interagindo para a sua manutenção. Além disso, é necessário relacionar o equilíbrio e a saúde do organismo com atitudes e interações com o ambiente, como alimentação, higiene pessoal e repouso adequado.

Por ser um tema tão importante e que desperta curiosidade, não é estranho que levante tantas questões sobre como abordá-lo. A seguir, você acompanha as respostas a oito dúvidas recorrentes sobre o ensino desses conteúdos.

1 Trabalhar com problemas contextualizados é uma boa estratégia?

Sim. O ensino de Ciências deve ser uma maneira de repensar o mundo e a relação que estabelecemos com ele. Em outras palavras, deve estimular a garotada a se perguntar por que e como as coisas acontecem e, mais do que isso, a encontrar respostas para as questões. Uma pergunta inquietante sobre o organismo pode ajudar a concretizar uma série de conceitos e de relações entre os sistemas. Por exemplo: por que para ficar forte é preciso pegar peso? Para acabar com as dúvidas, será preciso buscar muitas informações sobre o armazenamento de gordura como reserva de energia, que levarão a busca sobre o papel da alimentação, que está relacionado à digestão. É claro que nessa fase as crianças não devem saber em detalhes como funciona esse ciclo de relações. Elas precisam é entender a lógica por trás do conceito de ganho de peso e o papel dos nutrientes.

2 Devo trabalhar todos os sistemas de uma só vez ou posso escolher um recorte?

É claro que ao estudar as diferentes ações do organismo, será preciso selecionar um viés. Tudo depende do objetivo de ensino. Não importa qual será o primeiro sistema a ser trabalhado. O fundamental é que as relações entre as diferentes partes e funções do corpo sejam sempre destacadas. Por exemplo: ao abordar a função do sistema circulatório (levar nutrientes para as células do corpo), não dá para ignorar o papel da respiração e da digestão no fornecimento de oxigênio e energia para o sangue. Sem essa relação estabelecida, a compreensão de para que serve a circulação sanguínea fica muito prejudicada, e as aprendizagens, menores. O sangue corre para quê? De onde vêm os nutrientes e o oxigênio que ele leva? Sem as respostas a essas questões, o aluno saberá pouco sobre esse tema.

3 Preciso dizer os nomes científicos de cada parte?

Isso é fundamental. Não dá para falar de qualquer assunto de Ciências sem usar as nomenclaturas corretas. Tentar simplificar a linguagem atrapalha o ensino e faz com que as crianças construam uma visão distorcida da área. Por exemplo: ao trabalhar com o sistema circulatório, é preciso chamar vasos, artérias e veias por seus nomes originais, e não de "tubos por onde o sangue percorre" ou qualquer outra simplificação. Mas atenção: não é por que você irá utilizar a nomenclatura correta que isso deverá ser exigido dos alunos. "Em uma metodologia que defende o estudo visando a cultura científica, o ideal é auxiliar a construção de conhecimentos que favoreçam a compreensão daquilo que ele vivencia e não saber de cor o número de ossos ou os nomes deles", define Carolina Luvizoto, formadora de professores do Instituto Sangari, em São Paulo.

4 É melhor mostrar imagens ou réplicas na aula?

A escolha entre foto ou réplica deve ser feita tendo como parâmetro a qualidade dos materiais. Se a foto apresentar melhor qualidade, será a melhor opção. A vantagem das réplicas é estar em três dimensões e por isso fornecer uma visão mais aproximada da realidade das estruturas do corpo. O problema é que elas custam caro e não estão presentes em todas as escolas. De qualquer forma, o ideal é levar uma variedade de materiais, como vídeos, livros e reportagens, que ajudem a turma a entender o conteúdo. Outra possibilidade é usar massinha de modelar e construir modelos. As crianças devem ajudar nessa missão, como fez a professora do 4º ano Janaína Link, da EM Maria Emília de Paula, em São Leopoldo, na Grande Porto Alegre.

5 Como trabalhar a relação entre corpo e sexualidade?

Assuntos como a construção da identidade sexual e o prazer são abordados considerando os componentes biológicos e culturais. É preciso evitar preconceitos e responder a todas as dúvidas, valorizando os vínculos entre afeto, responsabilidade, sexualidade e autoestima. Uma conversa franca e em tom de respeito é o melhor caminho. Claro que se deve levar em conta o grau de maturidade psíquica e biológica das crianças para aprofundar nas respostas e investigações. O fundamental é que elas percebam o corpo humano como sendo sexuado, que a manifestação da sexualidade assume formas diversas e que, como qualquer comportamento, é modelado pela cultura. Esse conhecimento permite ao aluno conhecer-se melhor e perceber e respeitar suas necessidades e as dos outros. Estudos mostram que a Educação sexual, quando trabalhada da forma correta e desde cedo, é o melhor caminho para a formação de jovens capazes de evitar comportamentos sexuais arriscados, cientes da necessidade de proteção contra doenças sexualmente transmissíveis e das formas corretas de evitar a gravidez.

6 Posso utilizar ilustrações mais infantilizadas?

Isso não é aconselhável. O estudo de Ciências deve ser feito de forma mais fiel à realidade para a construção correta dos conceitos propostos e das representações. Não é porque um desenho é bonitinho que as crianças irão aprender mais com ele. É fundamental que as imagens auxiliem a turma a compreender o funcionamento do corpo, sem simplificações em relação às formas e funções. É bom atentar aos detalhes durante a seleção da imagem: o realismo e as fontes de referência devem ser analisadas.

7 Como relacionar corpo humano a hábitos saudáveis?

Os conhecimentos sobre o organismo estão intimamente ligados às noções de saúde. Os conteúdos relativos ao autocuidado, por exemplo, envolvem conhecimentos que permitem aos alunos pensar sobre a alimentação. O ideal é destacar a função de uma boa nutrição para o perfeito funcionamento dos diferentes sistemas (a importância do ferro para o transporte de oxigênio no sangue, dos minerais para regular a contração muscular etc.). "Alguns professores são muito taxativos nas questões alimentares. O ideal é fazer com que os alunos reflitam sobre o consumo de determinados alimentos. Não adianta dizer que algumas comidas são nocivas. É preciso construir, ao longo da escolaridade, critérios de escolha sobre o que vale a pena ser consumido", explica Claudia Vecchi, professora da Fundação Bradesco, em São Paulo.

8 Devo comparar o ser humano com outra espécie?

Sim. Esse tipo de estratégia ajuda a turma a assimilar características gerais que nos identificam como espécie. O que temos em comum com os animais e o que nos diferencia? A comparação em relação à estrutura geral (ossos e órgãos) e ao revestimento do corpo (pelos e pele) leva os alunos a pensar na função dos organismos. É possível até destacar comportamentos semelhantes entre as espécies, como a alimentação dos filhotes, particularmente em aves e mamíferos, e alguns rituais de conquista e acasalamento também comuns aos homens.

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 247, Novembro 2011.
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