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Todos aprenderam a produzir textos

Para que os alunos avançassem em leitura e escrita, a coordenadora pedagógica organizou e liderou a formação continuada dos professores

Anderson Moço

PARA APRENDER Adilma se reúne todo mês com a equipe para estudar as didáticas de leitura e escrita. Foto: Marcos Rosa
PARA APRENDER Adilma se reúne todo mês com a 
equipe para estudar as didáticas de leitura e escrita. 
Foto: Marcos Rosa
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Um levantamento feito na EMEF Serafina Carvalho, em Itupiranga, a 572 quilômetros de Belém, mostrou que cerca de 80% dos pais dos alunos são analfabetos funcionais, ou seja, apresentam dificuldade para interpretar textos simples e praticamente não sabem escrever nada além do próprio nome. Naquela cidade, que fica à beira da rodovia Transamazônica, os moradores têm pouco contato com a escrita: placas indicando o nome das ruas são uma raridade e o comércio não usa letreiros nem divulga seus produtos em outdoors e cartazes. Biblioteca e banca de jornais e revistas não existem. As crianças da escola, contudo, tinham acesso a livros. Porém as atividades de leitura e escrita recebiam pouca atenção das professoras: faltava planejá-las em seqüências ou criar projetos que garantissem o aprendizado.

A situação começou a mudar em 2006, quando a coordenadora pedagógica Adilma de Sousa Oliveira resolveu atacar o problema. Desde o início daquele ano, a equipe de 1ª a 4ª série foi convocada a participar de um programa de formação continuada. Em reuniões mensais, começaram a ser discutidas maneiras eficientes de ensinar as turmas a ler e a escrever. Em encontros quinzenais entre a coordenadora e cada uma das professoras, houve troca de informações sobre o desenvolvimento das atividades e ref lexão sobre as dificuldades encontradas diariamente em sala de aula.


Adilma tinha passado por um programa de capacitação promovido pelo Departamento de Formação Continuada da Secretaria Municipal de Educação, que contou com a assessoria do programa Além das Letras, do Instituto Avisa Lá, de São Paulo (leia mais sobre a coordenadora no quadro da página 82). "Para mim, era um grande desafio assumir uma função que até então eu desconhecia: a de formadora. Apenas discussões e palestras aleatórias não levam os professores a mudar a maneira de ensinar. Era preciso um programa de estudos bem estruturado e montado de acordo com as necessidades de nossa escola", conta Adilma.

Diagnóstico das turmas

Para saber como estavam os alunos em relação à competência escritora, Adilma pediu que as professoras fizessem um relatório indicando as práticas de produção textual mais usadas, em que condições didáticas eram propostas e como os trabalhos eram avaliados. Além disso, ela analisou com cada uma as produções das crianças. No fim desse processo, o diagnóstico não foi nada favorável: os textos apresentavam-se confusos e ininteligíveis. Logo o resultado foi relacionado com as propostas de atividades que eram feitas às turmas: as professoras costumavam pedir redações depois de mostrar gravuras, passar um filme ou sugerir temas ligados a datas comemorativas. Não havia a preocupação com o gênero nem com o público para o qual a produção se destinava.

Adilma então elaborou um programa de formação com conteúdos encadeados e articulados e com pautas predefinidas para cada um dos encontros quinzenais. Ela queria fazer com que a equipe refletisse sobre a prática com base em questões relacionadas aos problemas de ensino e aprendizagem que encontravam.

Muita leitura

Nos primeiros encontros, os trabalhos se concentraram na análise de bons textos produzidos por estudantes da mesma faixa etária de outras escolas e na comparação com os que os da Serafina estavam produzindo. O passo seguinte foi conhecer propostas didáticas capazes de garantir que os alunos passassem a escrever de forma clara e com intenção comunicativa. "Mergulhamos em textos que falavam das melhores condições didáticas que levariam à aprendizagem. A equipe docente notou com isso que as atividades propostas deveriam ter a intenção de melhorar a produção textual", conta a coordenadora. Essa conscientização foi importante para que o corpo docente repensasse a prática, agora com base em um referencial teórico que ampliou a compreensão sobre o processo de ensino. "Eu já era professora havia muitos anos, mas foi nesse momento que aprendi o que era ensinar de verdade. Percebi a necessidade de explorar os gêneros. As crianças conseguiriam produzir bons textos se soubessem o porquê e para quem estavam escrevendo", conta Luciene Rodrigues Coutinho, professora da 1ª e 3ª séries.

O passo seguinte foi mostrar algumas práticas que não poderiam faltar no planejamento. Uma delas bem simples: ler todos os dias para a turma. "A formação continuada me mostrou a importância de ler em voz alta para que os estudantes conheçam os gêneros textuais e consigam escrever melhor", ressalta Rosilene Pereira, professora da 4ª série.

Rosilene Pereira, professora de 4º série.
Rosilene Pereira, professora de 4º série.

"A formação continuada me mostrou a importância de ler em voz alta para que os estudantes conheçam os gêneros textuais e consigam escrever melhor."

Outra boa prática instituída em sala de aula foram os trabalhos de diferenciação, comparação e produção de textos. "Era preciso definir as características que definem, por exemplo, um texto informativo e o distinguem de uma parlenda ou de um conto e as atividades de escrita mais eficientes para ensinar cada um dos diferentes gêneros", explica Adilma. Pedir uma redação sem objetivos claros passou a fazer parte do passado.

Elielma Pereira, professora de 1ª série
Elielma Pereira, professora de 1ª série

"Os alunos não avançavam na escrita, pois solicitava-se que escrevessem sem nenhum propósito. Hoje vejo a importância de definir o que vai ser escrito, para quem e para quê", conta Elielma Pereira, professora da 1ª série.

As revisões passaram a fazer parte do cotidiano das turmas. "Antes eu corrigia os textos com caneta vermelha. Hoje opto por revisões coletivas para que as crianças, também como leitoras, saibam se o que escreveram tem sentido", explica Rosimeire Souza de Oliveira, professora da 1ª e 3ª séries. "Primeiro escrevo no quadro o texto dos alunos, realizo várias leituras coletivas, destacando os aspectos discursivos, e aponto possíveis mudanças, mas são eles que decidem o que deve ser substituído e pelo quê", completa.

Rosimeire Souza de Oliveira, professora de 1ª e 3ª séries
Rosimeire Souza de Oliveira, professora de 1ª e 3ª séries

"Antes eu corrigia com caneta vermelha. Hoje faço revisões coletivas para que as crianças, como leitoras, saibam se o que escreveram tem sentido."

Organizar e repensar

Adilma sugeriu também que as professoras usassem projetos didáticos já testados por consultores, adaptando-os de acordo com as características e as necessidades de cada turma. "Ter modelos de boas atividades é uma das estratégias que permitem aos educadores aprender o quê e como ensinar", explica Ana Amélia Inoue, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 na categoria Escola (leia o comentário da especialista no quadro da página ao lado). "As educadoras puderam transpor para a prática os conteúdos abordados na formação e ainda refletir sobre eles dentro do contexto da sala de aula."

Marlene da Silva Brito, professora de 4ª série
Marlene da Silva Brito, professora de 4ª série

O planejamento também foi um tema do programa de formação. "Aprendi que, para a turma avançar nas atividades de leitura e escrita, eu preciso organizar seqüências de atividades focadas na aprendizagem", conta Marlene da Silva Brito, professora da 4ª série. Em cada aula, deve haver um conteúdo a ser ensinado e um objetivo a ser alcançado, tudo planejado em detalhes. "Temos um plano de ação anual, em que nossas metas estão explicitadas. Além disso, nos reunimos mensalmente para elaborar as aulas que serão dadas nesse período e analisamos os principais problemas encontrados em sala", explica Adilma.

"Aprendi que, para a turma avançar nas atividades de leitura e escrita, eu preciso organizar seqüências de atividades focadas na aprendizagem."

PRODUÇÃO TEXTUAL Alunos da EMEF Serafina Carvalho agora escrevem com propósito, pensando no gênero e no leitor.
PRODUÇÃO TEXTUAL Alunos da EMEF Serafina 
Carvalho agora escrevem com propósito, 
pensando no gênero e no leitor.

A formação continuada dos educadores da EMEF Serafina Carvalho deu frutos em pouco tempo: o índice de aprovação nos primeiros anos do Ensino Fundamental saltou dos 57%, em 2004, para 87%, em 2007. Esse é um exemplo de como uma iniciativa como a de Adilma, focada na aprendizagem e nas necessidades da equipe, pode transformar a qualidade da Educação das escolas brasileiras.

 

 

 

 

Quem é Adilma

Adilma de Sousa Oliveira tem 34 anos, é casada e mãe de três filhos (Jaiane 13 anos, Klysmann, 12, e Cristian, 10). Aos 15 anos, ela partiu com a família de Imperatriz, no Maranhão, para o Pará. Depois de se formar em Pedagogia, em 1998, prestou concurso para a rede pública de Itupiranga e foi dar aulas em sala multisseriada de uma escola rural, a 100 quilômetros da cidade. A distância e as estradas de terra precárias fizeram com que, para poder trabalhar, ela tivesse de deixar os filhos pequenos sob os cuidados da mãe. A rotina de lecionar longe e visitar a família uma vez por mês durou três anos. Depois desse período, Adilma assumiu a direção de outra escola rural - esta mais perto de casa e com melhor infra-estrutura. Em meados de 2005, assumiu a coordenação pedagógica da EMEF Serafina Carvalho e nesse mesmo ano começou a capacitação na Secretaria de Educação, que permitiu a ela elaborar o programa de formação e vencer o Prêmio Educador Nota 10.

Palavra da especialista

Ana Amélia Inoue, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 na categoria Escola, destaca a escolha acertada do foco do projeto de Adilma. "O grande mérito do trabalho foi enfatizar o conhecimento didático nos encontros planejados e mostrar como se ensina a elaborar textos de qualidade e como a criança aprende a produzi-los." Para a selecionadora, a iniciativa de Adilma atendeu às reais necessidades de aprendizagem das turmas e garantiu boas condições para que as professoras aprimorassem os conhecimentos didáticos. "Ela percorreu os passos necessários para propor um bom projeto de capacitação: fez uma análise junto aos docentes sobre a produção dos alunos e, com base no diagnóstico, elaborou um plano de formação continuada articulado ao desenvolvimento das ações em sala de aula", ressalta Ana Amélia.

Quer saber mais?

CONTATO
EMEF Serafina Carvalho
, R. Três Poderes, 30B, 68580-000, Itupiranga, PA

BIBLIOGRAFIA
Ler e Escrever na Escola - O Real, o Possível e o Necessário, Delia Lerner, 128 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 36 reais
Reflexões Sobre o Ensino da Leitura e da Escrita, Beatriz Cardoso e Ana Teberosky (orgs.), 272 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2233-9000, 30,70 reais

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 218, Dezembro 2008.
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