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Um reflexo fiel da escola

Articulada ao projeto pedagógico, a avaliação da aprendizagem deve ser negociada com alunos e ir além do aspecto cognitivo

Denise Pellegrini

"Quando você se pergunta como quer avaliar, está desvelando sua concepção de educação" 
Foto: Luciana Cavalcanti

A maneira como uma escola avalia é o reflexo da educação que ela valoriza. Para Mere Abramowicz, essa prática deve ser capaz de julgar o valor do aluno e possibilitar que ele cresça, como indivíduo e como integrante de uma comunidade. "Em última instância, deve visar à superação da exclusão." A dimensão social da avaliação que ela considera ideal tem relação estreita com o pensamento de Paulo Freire, com quem Mere trabalhou durante mais de uma década. Ela é responsável pela linha de pesquisa em Avaliação e Currículo na pós-graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Para a universidade, a pedagoga levou quase trinta anos de bagagem na rede estadual paulista, onde iniciou como alfabetizadora e chegou a supervisora de ensino. Mesmo longe, mantém os olhos voltados para o ensino público. Há um ano, participa de um projeto coletivo de pesquisa que analisa políticas públicas de avaliação (Saeb, Enem e Provão). Nesta entrevista, ela defende a formação contínua dos professores como condição para o sucesso do sistema de ciclos.

NOVA ESCOLA- Em um de seus artigos a senhora cita a seguinte frase do sociólogo suíço Philippe Perrenoud: "Mudar a avaliação significa, provavelmente, mudar a escola". O que isso quer dizer, exatamente?
Mere Abramowicz-
A avaliação, a meu ver, é uma janela por onde se vislumbra toda a educação. Quando indagamos a quem ela beneficia, a quem interessa, questionamos o ensino que privilegia. Quando você se pergunta como quer avaliar, desvela sua concepção de escola, de homem, de mundo, de sociedade. Por isso essa frase tem muita razão de ser.

NE- Uma avaliação baseada em provas revela um modelo autoritário?
Mere-
Numa prática positivista e tecnicista há uma ênfase na atribuição de notas e na classificação de desempenho, em testes e provas com resultados quantitativos e numéricos. Nela, o mais importante é o produto. Ou seja, reflete uma educação baseada na memorização de conteúdos. Já a avaliação qualitativa se baseia num paradigma crítico e visa à melhoria da qualidade da educação. Sua ênfase é no processo. Ela reflete um ensino que busca a construção do conhecimento.

NE- Isso quer dizer que a relação entre avaliação e projeto pedagógico é estreita...
Mere-
A avaliação terá seu sentido mais autêntico e significativo se tiver articulação com o projeto político-pedagógico da escola. É ele que dá significado ao trabalho docente e à relação professor-aluno.

NE- Como ficam os educadores que trabalham em escolas que não se pautam por um projeto pedagógico consistente?
Mere- Acredito no projeto pedagógico, mas fundamentalmente na ação do mestre. Ele pode realizar um trabalho consistente, sério e comprometido de avaliação da aprendizagem em seu espaço de sala de aula. A autonomia docente existe e, graças a ela, as escolas avançam. Felizmente, existem educadores que conseguem colocar em prática suas propostas, às vezes até transgredindo uma sistemática. Num processo de avaliação da aprendizagem há um foco no todo, no coletivo. Mas há também um outro, nos dois protagonistas principais, que são o professor e o aluno. O primeiro precisa identificar exatamente o que quer e o segundo tem de ser parceiro. Hoje em dia o processo de negociação num trabalho de avaliação é fundamental. Essa negociação pressupõe a discussão coletiva de critérios.

NE- E esse diálogo deve continuar após a avaliação?
Mere-
Assim como é fundamental explicitar os objetivos da avaliação para a classe, é preciso também dar o feedback. O estudante não pode ficar sem saber como se saiu.

NE- Como ele normalmente vê um insucesso?
Mere-
Normalmente como um autofracasso, como deficiência e impossibilidade dele. De certa forma, o aluno individualiza a culpa.

NE- O que fazer quando se constata que os resultados não foram os esperados? 
Mere-
É preciso analisar o processo desenvolvido em termos de ensino-aprendizagem. A avaliação deve ser encarada como uma reorientação para uma aprendizagem melhor e para a melhoria do sistema de ensino. Além disso, todo professor deve ficar atento aos aspectos afetivos e culturais do estudante, não só aos cognitivos.

NE- Que importância deve ser dada à afetividade?
Mere-
O processo de avaliação vem imbricado com uma gama de emoções e aspirações. Durante muito tempo, analisou-se a avaliação desvinculada desse fator de afetividade e o que ocorria era uma análise imperfeita, porque há uma dialética entre o afetivo e o cognitivo.

NE- Como o docente pode levar em conta a afetividade?
Mere-
Os indicadores de afetividade permeiam a relação com a criança e seu desempenho. Eles estão claros no entusiasmo e na paixão ao apresentar o resultado de uma pesquisa, ao descobrir a solução de um problema, ao vibrar com um trabalho realizado. Para que eles sejam levados em conta, a observação é fator essencial.

NE- Que outros meios o educador deve utilizar para realizar uma boa avaliação?
Mere-
Não existe fórmula pronta. Se são dadas diretrizes claras, o professor faz seu caminho, graças à sua criatividade. Esses recursos devem ser, além de diversificados, participativos, democráticos, relevantes, significativos e rigorosamente construídos. Hoje, usamos até a expressão "portfólio de propostas de avaliação". Diversificando os instrumentos é possível abranger todas as facetas do desempenho de um estudante.

NE- A avaliação ainda coloca o poder nas mãos do mestre?
Mere-
Ela está sempre relacionada com o poder na medida em que significa controle. Num modelo tecnicista, em que se privilegia a atribuição de notas e a classificação dos estudantes, ela é ameaçadora, uma verdadeira arma. O poder está no cerne da avaliação e pode ser um instrumento de dominação, despertando medo. Por outro lado, ela pode promover o bem comum.

NE- Este é o seu ideal de avaliação?
Mere-
Eu vejo a avaliação como um processo dialógico, interativo, que visa fazer do indivíduo um ser melhor, mais crítico, mais criativo, mais autônomo, mais participativo. Acredito numa avaliação que leve a uma ação transformadora e também com sentido de promoção social, de coletividade, de humanização.

NE- A qualidade da avaliação praticada por um educador tem relação com sua formação?
Mere-
A história pessoal do professor e o jeito como ele foi avaliado quando era estudante iluminam sua maneira de atuar. Depois, essa marca de identidade vai sendo modificada com a formação.

NE- E essa formação incorpora a grande produção acadêmica existente hoje?
Mere-
As pesquisas mostram que poucos desses estudos atingem efetivamente a prática do docente. O primeiro motivo é que as pesquisas não são adequadamente divulgadas. O professor quase não tem acesso a esses resultados e, quando tem, é de uma forma precária. O que ele consegue fazer, com competência, é tentar acompanhar livros e periódicos, mas acho que há um espaço de articulação entre as pesquisas universitárias e a escola que precisa ser preenchido.

NE- A avaliação influencia a elaboração do currículo?
Mere-
Em suas várias dimensões, ela é um dos elementos essenciais na preparação de um currículo. A da aprendizagem, feita na sala de aula, é a primeira. Ela vai contribuir para a avaliação da disciplina, do curso, da escola e do currículo dessa escola. Só assim se medem os resultados para retroinformar as pessoas que elaboram esse currículo, visando o aperfeiçoamento de seu trabalho e a melhoria do processo educacional.

NE- Como a senhora vê o sistema de ciclos, que dá ao aluno a oportunidade de aprender num período de tempo maior, mas que desagrada a muitos docentes, que se sentem sem um instrumento de pressão nas mãos?
Mere-
Infelizmente a escola brasileira ainda é excludente e são altos os índices de reprovação. Os ciclos dão um tempo para a criança que não é necessariamente traduzido por bimestre ou semestre, partindo de onde ela está e fazendo sempre com que progrida continuamente. Esse sistema, porém, só pode ser bem-sucedido se forem garantidas algumas condições, como uma nova proposta pedagógica que valorize a articulação com a comunidade. Além disso, é essencial dar um novo papel ao professor e garantir a ele uma boa formação contínua, com ênfase no trabalho coletivo. Estou convencida de que os professores que usam inadequadamente a avaliação só o fazem porque não estão devidamente preparados.

Quer saber mais?

Avaliação Educacional: Fundamentos e Práticas, Isabel Cappelletti (org.), 147 págs., Ed. Articulação Universidade/Escola, tel. (11) 3672-2664, 15 reais

Avaliação Emancipatória, Ana Maria Saul, 152 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3864-0111, 16 reais

Avaliando a Avaliação da Aprendizagem Um Novo Olhar, Mere Abramowicz, 198 págs., Ed. Lúmen, esgotado (ver em bibliotecas)

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 147, Novembro 2001.
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