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Quem tem medo de... prova

Apesar da má fama, ela ainda pode (e deve) ser usada em classe. Saiba aqui como e para quê

Amanda Polato

Ilustração: Rogério Fernandes
Ilustrações: Rogério Fernandes

Numa época em que os modelos de avaliação contínua ganham força nas escolas e nos livros de formação, aplicar uma prova tradicional pode parecer um retrocesso. Mas não é bem assim. Com alguns cuidados e uma abordagem planejada, é possível lançar mão das questões dissertativas e objetivas para verificar o aprendizado de fatos, conceitos e ideias. "Mas é essencial ter a noção de que elas não podem ser as únicas formas de avaliar", alerta Jussara Hoffman, autora do livro Avaliar: Respeitar Primeiro, Educar Depois.

A ação de diagnosticar o processo de ensino, segundo a consultora, precisa ser cotidiana e contemplar outros instrumentos possíveis, como seminário, debate, relatório e observação. Além disso, é necessário definir muito bem o perfil correto de cada teste: os somativos servem para balanços finais e os formativos devem ser realizados de forma rotineira para ajudar a corrigir rumos e verificar a necessidade de retomar certas explicações. "Os dois tipos são pertinentes, mas o segundo modelo deve ser predominante, pois permite o melhor aperfeiçoamento da prática docente", afirma Domingos Fernandes, professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, em Portugal, e autor do livro Avaliar para Aprender.

Outra condição essencial é saber, de antemão, o que exatamente se quer que os alunos respondam. "Para cada questão, faço uma matriz com os conhecimentos, as habilidades e as competências que pretendo verificar (veja um exemplo no quadro abaixo)", conta Selma Moura Braga, professora de Ciências do 6º ano no Centro Pedagógico da Escola de Educação Básica e Profissional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.

Teste seus conhecimentos sobre critérios de elaboração de provas

Ilustração: Rogério Fernandes

1) O trecho a seguir é de uma carta de uma coordenadora pedagógica a outra. Leia-o para responder à questão:

"Alguns dos alunos da 8ª série que estão com notas vermelhas em História me procuraram para dizer que as provas são fogo! As perguntas exigem informações nem sempre trabalhadas em aula. Observando as atividades de sala, percebi que eram questionários com respostas transcritas do livro didático, exigindo a localização de informações - e não uma reflexão decorrente da análise ou comparação entre os fatos e os conceitos trabalhados. E as provas continham perguntas abertas que exigiam estabelecimento de relações entre fatos, conceitos e dados da realidade. Como o professor pretende que os alunos possam responder a tais questões se as habilidades necessárias para respondê-las não são trabalhadas regularmente? Esses acontecimentos têm me feito pensar: por que será que é tão difícil aceitar que os resultados obtidos por nossos alunos dependem, em boa parte, do trabalho que desenvolvemos em sala de aula?"
Trecho adaptado da publicação Cartas aos Professores Coordenadores Pedagógicos: Dilemas da Prática Cotidiana, São Paulo, SE/CENP, 1999.

O texto traz algumas concepções sobre a relação entre o processo de ensino e aprendizagem e a avaliação. Identifique a mais adequada e justifique sua escolha.

2) Qual é o melhor formato de prova? Assinale a alternativa correta:
a) Só com questões objetivas porque a correção é mais justa e rápida.
b) Só com questões dissertativas porque assim é possível avaliar também a produção de texto.
c) Maior parte de questões dissertativas para ver o percurso de pensamento dos alunos.
d) Depende do conteúdo e do que se quer avaliar.

3) Explique o que NÃO é possível avaliar com uma prova escrita e dê exemplos:

4) Como saber se uma prova é difícil ou fácil demais? Analise as alternativas e assinale a que apresenta o nível de dificuldade e desafio adequado:
a) Todos os alunos mal conseguem responder às questões e entregam boa parte em branco.
b) Todos os alunos demoram para responder às questões e acabam errando a maioria.
c) Todos os alunos fazem a prova no tempo estimado e acertam boa parte das questões.
d) Poucos alunos entregam a prova rapidamente e bem resolvida. Outros acertam um número médio de questões.

5) A Prova Brasil estima que os alunos levam, em média, 25 minutos para responder 11 questões de múltipla escolha. Considerando essa informação, diga:
a) Quanto tempo o aluno gasta, em média, para responder cada questão? Justifique a resolução.
b) Se você quiser colocar 20 questões em uma prova, quanto tempo deve deixar reservado para a resolução? Justifique.

6) Qual resposta mostra um enunciado de prova claro, bem elaborado e que permite a melhor compreensão do que é pedido? Pode haver mais de um item correto ou nenhum:

I - Os nutricionistas recomendam o consumo de uma barra de cereal em merendas escolares. Comente.
II - Explique por que os nutricionistas recomendam o consumo de uma barra de cereal em merendas escolares.
III - Uma barra de cereal é recomendada em merendas escolares. Qual é a sua opinião?

a) Somente o I.
b) Somente o II.
c) Somente o III.
d) Nenhum deles.

Objetividade nas questões, clareza nos conteúdos 

Ilustração: Rogério Fernandes

Definidos os momentos adequados e as expectativas, é hora de escolher o que e como cobrar. Para Fernandes, não existem provas infalíveis. "Pesquisas mostram que muitas crianças erram questões porque não entendem o enunciado e não porque ignoram o conteúdo", afirma. "As perguntas devem ser pertinentes, claras, não enigmáticas", recomenda Janssen Felipe da Silva, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A linguagem usada precisa estar dentro do nível de leitura dos alunos. Para saber se o texto está acessível, mostrá-lo a outros educadores é uma boa saída. Um erro comum é propor enunciados muito longos para contextualizar o problema (mas que não estão diretamente relacionados à questão). "Isso, na prática, só serve para confundir os alunos", complementa o especialista.

Quem determina o tamanho da prova é o tempo disponível para sua resolução (e a quantidade de conhecimentos e competências trabalhados). Não é razoável analisar todo o conteúdo do semestre em uma aula. No Ensino Fundamental, é recomendável que a avaliação dure, no máximo, 40 ou 50 minutos. O diálogo com o que foi feito em sala também é fundamental. Por isso, faz pouco sentido um mesmo modelo ser usado por vários professores. "Questões mais complexas do que as vistas em classe ou pequenos detalhes encontrados em notas de rodapé não devem ser pedidos", alerta Cipriano Luckesi, pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

A armadilha ou a pegadinha é outra estratégia condenada pelos especialistas. Alguns docentes até acreditam que, ao agir assim, estão testando a sagacidade da turma. "Mas, se o aluno cai numa emboscada, como saber se ele realmente aprendeu o conteúdo?", indaga Luckesi. Sem falar que os estudantes precisam encarar a prova com tranquilidade e não como uma punição. Ou seja, o ideal é que todos saibam previamente como serão avaliados, o que você quer verificar e quando o teste será realizado (o que já derruba a proposta das surpresas). "A transparência é a regra de ouro", reforça Domingos Fernandes, da Universidade de Lisboa. Também deve ficar claro que nem toda prova precisa ser sem consulta. Quando a intenção é checar se o aluno consegue pesquisar, essa estratégia pode ser válida, com certeza.

A forma deve ser planejada, e a devolução, monitorada 

O que é melhor: perguntas com múltiplas escolhas ou dissertativas? Os dois tipos. Todo professor deve diversificar a prova para avaliar diferentes coisas. "Nas objetivas, o desafio é fazer uma boa leitura. Nas dissertativas, fazer uma boa escrita", explica Lino de Macedo, psicólogo da Universidade de São Paulo (USP).

Após a aplicação em classe, chega a hora de um novo desafio. Não se pode admitir que o resultado seja computado como algo isolado - uma nota que determine a aprovação, por exemplo. "Mais importante é analisar o conjunto das respostas ao longo de um tempo para ter clareza sobre as múltiplas aprendizagens dos alunos", afirma Jussara Hoffman.

Por isso, é necessário lançar mão de formas criativas para trabalhar o produto da avaliação. Oferecer comentários por escrito ou criar momentos de "correção" coletiva são boas estratégias. É o que procura fazer a professora Shirley Cristina de Mendonça Rocha, da EMEF Dr. Nelson Paim Terra, em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre.

Ela convida os alunos da 5ª série a contar para a turma como responderam às questões. E o momento de "correção" vira um debate em torno do que foi estudado. Aos poucos, os erros de Língua Portuguesa deixam de ser tabu para se tornar oportunidades de aprendizado. "O aluno não tem medo de mostrar para a sala como respondeu uma questão porque sabe que pode perguntar, ouvir ideias diferentes e entender melhor o conteúdo", conta Shirley. Nesses momentos, ela percebe (ou confirma) quais são as maiores dificuldades. Assim, planeja atividades para recuperar essas lacunas.

Os especialistas sugerem ainda outra ideia: dividir os alunos em grupos para que, em um debate, encontrem conjuntamente melhores soluções para as questões com respostas erradas. Esse momento também pode ser uma boa oportunidade para confrontar estratégias de resolução, prática muito relevante, sobretudo nas aulas de Matemática. "Quando o aluno toma consciência do que sabe e do que não sabe e o professor intervém para ajudá-lo, há um ganho imenso", resume Tânia Costa, do Centro de Difusão da Ciência da UFMG.

Gabarito

Ilustração: Rogério Fernandes

1) O professor de História cobra conteúdos diferentes dos que ensina em aula. A coordenadora diz que isso não é possível. A postura mais adequada é a da coordenadora, já que as provas servem para verificar o que o aluno aprendeu daquilo que foi ensinado.

2) D.

3) Não é possível avaliar uma série de conteúdos, habilidades e competências, principalmente as relacionadas a atitudes fora do âmbito da leitura e escrita. Por exemplo: oralidade, experimentação e competências de trabalho em grupo.

4) C.

5) a) 2,3 minutos. 25:11= 2,3
b) 46 minutos, se forem questões de múltiplas escolhas. Perguntas dissertativas tendem a exigir mais tempo.

6) B.

Reportagem sugerida por dez leitores: Aglae Oliveira Passos, Itabaiana, SE, Carmalita Soares Chaves Almenda, Marabá, PA, Francisco Dias, São José de Ribamar, MA, Madalena Leandro Machado, São Paulo, SP, Marcia Regina Bueno, Pato Branco, PR, Nilton Carlos Lopes da Silva, Bertolínia, PI, Raquel Rodrigues do Prado, Diadema, SP, Regina Dias, Divinópolis do Tocantins, TO, Rosimery Santos Oliveira Silva, Recife, PE, e Walkiria Mathias Costa, Barra Mansa, RJ

Quer saber mais?

CONTATOS
Centro Pedagógico da Escola de Educação Básica e Profissional da Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Antônio Carlos, 6627, 3127-090, Belo Horizonte, MG, tel. (31) 3409-5182
Cipriano Luckesi
Domingos Fernandes
EMEF Dr. Nelson Paim Terra, R. Primavera, 1676, 92200-300, Canoas, RS, tel. (51) 3466-7241
Janssen Felipe da Silva
Jussara Hoffman
Lino de Macedo

BIBLIOGRAFIA
Avaliação da Aprendizagem Escolar, Cipriano Luckesi, 184 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3611-9616, 29 reais
Avaliar: Respeitar Primeiro, Educar Depois, Jussara Hoffman, 184 págs., Ed. Mediação, tel. (51) 3330-8105, 36 reais
Avaliar para Aprender, Domingos Fernandes, 222 págs., Ed. Unesp, tel. (11) 3242-7171, 35 reais
Quando o Aluno Erra? Repensando o Enunciado, Mary Rangel (org.), 48 págs., Ed. Quartet, tel. (21) 2516-5353, 9 reais 

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 224, Agosto 2009.
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