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Proposta pedagógica e planejamento: as bases do sucesso escolar

Para oferecer um ensino adequado às necessidades de seus alunos, a escola precisa saber o que quer, envolvendo a equipe e a comunidade na definição das metas

Lucita Briza

Especial Planejamento 2014

O que faz uma escola ser bem-sucedida? Como uma escola estadual do interior de Santa Catarina conseguiu dobrar de um ano para o outro a jornada de todos os alunos de2ª, 3ª e 4ª sériescom sucesso? Qual a receita de uma escola particular criada há 40 anos na capital de São Paulo para permanecer atual a ponto de ser considerada um centro de referência? Embora atuando em regiões diferentes e seguindo modelos educacionais distintos, ambas atribuem os bons resultados à mesma razão: a proposta pedagógica, construída coletivamente e concretizada num bom planejamento. A proposta pedagógica é a identidade da escola: estabelece as diretrizes básicas e a linha de ensino e de atuação na comunidade. Ela formaliza um compromisso assumido por professores, funcionários, representantes de pais e alunos e líderes comunitários em torno do mesmo projeto educacional. O planejamento é o plano de ação que, em um determinado período, vai levar a escola a atingir suas metas. Do planejamento, depois, sairão os planos de aula, adaptados ao cotidiano em classe.

Pequena Constituição

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 diz que a proposta pedagógica é um documento de referência. Por meio dela, a comunidade escolar exerce sua autonomia financeira, administrativa e pedagógica.Também chamada de projeto pedagógico, projeto político-pedagógico ou projeto educativo, a proposta pedagógica pode ser comparada ao que o educador espanhol Manuel Álvarez chama de "uma pequena Constituição". Nem por isso ela deve ser encarada como um conjunto de normas rígidas. Elaborar esse documento é uma oportunidade para a escola escolher o currículo e organizar o espaço e o tempo de acordo com as necessidades de ensino. Além da LDB, a proposta pedagógica deve considerar as orientações contidas nas diretrizes curriculares elaboradas pelo Conselho Nacional da Educação e nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Para Álvarez, o ideal é que o documento seja o resultado de reflexão coletiva. E como chegar ao consenso? "Proporcionando espaços para que cada uma das partes exponha seus objetivos e interesses com base nos princípios educativos com os quais todos concordam", diz o educador. Esse esforço conjunto harmoniza as diferenças entre os grupos que compõem a escola. Um dos desafios para chegar a bom termo nessa elaboração, observa o educador francês Bernard Charlot, é manter a coerência entre a teoria e a prática. "De que vale um discurso pedagógico do tipo construtivista e práticas que o contradizem?", questiona Charlot. Manter a proposta pedagógica e o planejamento escolar atualizados é a recomendação feita pela educadora Madalena Freire, de São Paulo. "Tanto a proposta como o planejamento são processuais e devem correr em paralelo com a construção do conhecimento", diz ela. Isso impede que os dois documentos se transformem em instrumentos engavetados, só revistos no fim do ano. Essa burocratização leva muitos professores a considerar ambos como desnecessários e inviáveis. "O planejamento serve como roteiro para os professores, permitindo aplicar no dia-a-dia a linha de pensamento e ação da proposta pedagógica", afirma Ilza Martins Sant'Anna, professora da Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras. O que não significa determinar uma forma única de planejar todas as disciplinas: a avaliação dos erros e acertos é que vai permitir a melhor escolha. Para planejar, observa Madalena, é importante cada professor dominar o conteúdo de sua matéria - mas isso de nada valerá se ele não escutar os alunos e não valorizar o que já conhecem. O professor deve sempre se perguntar: o que meus alunos já sabem? O que ainda não conhecem? O que, como e quando ensinar? Onde ensinar? Com base nas respostas, ele propõe atividades que façam sentido para os estudantes daquela comunidade. Se for uma aula de literatura, por exemplo, lembre-se de que os alunos de uma escola da periferia não têm o mesmo contato com livros que os de uma escola de classe média. Você precisa valorizar o saber do grupo e, após cada atividade, refletir sobre sua prática. Em vez de atribuir aos alunos incapacidade de aprender, o ideal é que você analise as próprias inadequações ao ensinar.

Revisão periódica

Geralmente feito no início do ano ou do semestre para abranger todo o período, o planejamento pede acompanhamento constante, na opinião de Madalena. O trabalho deve ser reavaliado em reuniões quinzenais com a participação de toda equipe e sob a liderança do coordenador. Uma primeira avaliação geral pode ser feita no final do primeiro bimestre para corrigir desvios e lançar bases para o resto do período. Nesse momento, os professores checam se os conteúdos são fundamentais para o aprendizado; se há articulação entre os segmentos (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio); se as reuniões pedagógicas estão sendo bem aproveitadas e se o planejamento favorece o envolvimento da família e da comunidade na escola. Veja, abaixo, as experiências de duas escolas bem-sucedidas.

Marilú Maldaner Ghiozi, diretora da Escola de Educação Básica Frei Nicodemos, em Lages (SC) Foto: Sandro Bohneberger

"Achamos importante substituir uma proposta de gabinete por outra que tivesse mais a cara da escola"

Marilú Maldaner Ghiozi, diretora da Escola de Educação 
Básica Frei Nicodemos, em Lages (SC). 
Foto: Sandro Bohneberger
 

Escola Estadual de Educação Básica Frei Nicodemos
Quem somos? Escola pública localizada em comunidade de baixa renda, que atende filhos de trabalhadores sem emprego fixo e de baixa escolaridade.
Onde queremos Chegar? Promover a inclusão social com ensino de qualidade; combater a evasão e a repetência; e aumentar o tempo de permanência dos alunos na escola.
Como atingir os objetivos? Chamar os pais para reuniões periódicas; intensificar o aprendizado de leitura e escrita e de resolução de problemas; criar novos espaços de ensino e aprendizagem; e incluir atividades extracurriculares.
O que fazer? Reforma da escola para atender em período integral; atividades extras; horas de estudo orientado em Matemática e Língua Portuguesa; aulas de iniciação à pesquisa; e reuniões quinzenais de avaliação.

Escola Frei Nicodemos

"Uma das vantagens do planejamento coletivo é a maior integração do trabalho dos docentes; o difícil é fazer uma idéia obter a aprovação da maioria"

A Escola Estadual de Educação Básica Frei Nicodemos, em Lages (SC), foi aberta para receber filhos de trabalhadores que vivem num conjunto habitacional e em casas precárias que surgiram nos arredores. Mesmo com classes superlotadas, era preciso oferecer educação de qualidade para combater a repetência e a evasão.
Quando Marilú Maldaner Ghiozi assumiu a direção, em 2003, havia apenas uma proposta pedagógica montada sem a participação da comunidade. A primeira providência de Marilú foi convocar professores, funcionários, representantes de pais, de alunos e da comunidade para uma ampla discussão em pequenos grupos. Em uma semana de reuniões, o grupo formulou uma proposta de fácil compreensão, entregue a todos.

Inglês, Informática e Dança

A próxima tarefa era planejar o ano letivo com base no questionário respondido pelos pais. Eles queriam que a escola oferecesse ensino mais amplo - como língua estrangeira - já que não podiam pagar cursos extras. Por isso e pela baixa escolaridade da comunidade, a escola foi uma das escolhidas pelo governo para a implantação do projeto Escola Pública Integral (EPI). Decidiu-se em reuniões que a experiência começaria com classes de 2a, 3a e 4a séries. 

Enquanto eram realizadas obras para adaptar o prédio, a equipe pedagógica participava das reuniões de planejamento, conta a professora da 4a série, Rosires Duarte Chaves. Todos os professores levaram sugestões de projetos e decidiram como integrar o currículo às atividades extras. De comum acordo com os pais, foram escolhidas para compor o período integral aulas de Inglês, Informática e Dança. A escola ganhou laboratório de Ciências, brinquedoteca e salas para estudo orientado em Matemática e Língua Portuguesa. 

Em reuniões periódicas, novas sugestões apareceram para melhorar ou alterar as anteriormente aprovadas. Assim, ficou decidido que as atividades extras seriam alternadas com as curriculares e que o professor de classe deveria assumir todas as matérias do currículo básico, só deixando as novas atividades por conta de especialistas. As reuniões trimestrais passaram a ser quinzenais.
No final do ano, a avaliação dos pais mostrou que as mudanças foram positivas. A média dos alunos em Matemática, leitura e escrita melhorou e houve muita procura pelas aulas de Inglês e Informática. "Conseguimos atender as crianças que estavam em defasagem idade-série", diz a professora Eliane Sari Coelho, uma das responsáveis pelas horas de estudo orientado. Para a diretora, a Frei Nicodemos está cumprindo sua proposta de inclusão social. "Garantimos os resultados porque todos vestiram a camisa do projeto."

Sylvia Gouvêa, diretora da Escola Nova Lourenço Castanho, em São Paulo Foto: Gustavo Lourenção

"Nossa proposta pedagógica e nossa escola são uma só coisa; mas até ela ser formalizada demorou"

Sylvia Gouvêa, diretora da Escola Nova Lourenço Castanho, 
em São Paulo. Foto: Gustavo Lourenção
 

Escola Nova Lourenço Castanho
Quem somos? Escola particular, em bairro de classe média.
Onde queremos Chegar? Formar alunos comprometidos com os problemas sociais para que sejam no futuro adultos atuantes; e buscar a excelência no ensino e novas experiências pedagógicas.
Como atingir os objetivos? Trazer para a escola a contribuição de profissionais de diversas áreas (psicólogos, sociólogos, médicos etc.) para ajudar os professores a entender as necessidades dos alunos; avaliar regularmente as metodologias e as práticas docentes; e promover momentos de avaliação permanente.
O que fazer? Trabalhar com projetos interdisciplinares e eixos temáticos, usando de preferência temas que são tratados pela mídia.

Escola Frei Nicodemos

"Uma das vantagens do planejamento coletivo é a maior integração do trabalho dos docentes; o difícil é fazer uma idéia obter a aprovação da maioria"

A Escola Estadual de Educação Básica Frei Nicodemos, em Lages (SC), foi aberta para receber filhos de trabalhadores que vivem num conjunto habitacional e em casas precárias que surgiram nos arredores. Mesmo com classes superlotadas, era preciso oferecer educação de qualidade para combater a repetência e a evasão. 

Quando Marilú Maldaner Ghiozi assumiu a direção, em 2003, havia apenas uma proposta pedagógica montada sem a participação da comunidade. A primeira providência de Marilú foi convocar professores, funcionários, representantes de pais, de alunos e da comunidade para uma ampla discussão em pequenos grupos. Em uma semana de reuniões, o grupo formulou uma proposta de fácil compreensão, entregue a todos.

Inglês, Informática e Dança

A próxima tarefa era planejar o ano letivo com base no questionário respondido pelos pais. Eles queriam que a escola oferecesse ensino mais amplo - como língua estrangeira - já que não podiam pagar cursos extras. Por isso e pela baixa escolaridade da comunidade, a escola foi uma das escolhidas pelo governo para a implantação do projeto Escola Pública Integral (EPI). Decidiu-se em reuniões que a experiência começaria com classes de 2a, 3a e 4a séries. 

Enquanto eram realizadas obras para adaptar o prédio, a equipe pedagógica participava das reuniões de planejamento, conta a professora da 4a série, Rosires Duarte Chaves. Todos os professores levaram sugestões de projetos e decidiram como integrar o currículo às atividades extras. De comum acordo com os pais, foram escolhidas para compor o período integral aulas de Inglês, Informática e Dança. A escola ganhou laboratório de Ciências, brinquedoteca e salas para estudo orientado em Matemática e Língua Portuguesa. 

Em reuniões periódicas, novas sugestões apareceram para melhorar ou alterar as anteriormente aprovadas. Assim, ficou decidido que as atividades extras seriam alternadas com as curriculares e que o professor de classe deveria assumir todas as matérias do currículo básico, só deixando as novas atividades por conta de especialistas. As reuniões trimestrais passaram a ser quinzenais.
No final do ano, a avaliação dos pais mostrou que as mudanças foram positivas. A média dos alunos em Matemática, leitura e escrita melhorou e houve muita procura pelas aulas de Inglês e Informática. "Conseguimos atender as crianças que estavam em defasagem idade-série", diz a professora Eliane Sari Coelho, uma das responsáveis pelas horas de estudo orientado. Para a diretora, a Frei Nicodemos está cumprindo sua proposta de inclusão social. "Garantimos os resultados porque todos vestiram a camisa do projeto."

Escola Lourenço Castanho

"Planejar em equipe permite pensar mais sobre conteúdos, objetivos e procedimentos; as decisões são mais demoradas, mas o debate é proveitoso"

A Escola Nova Lourenço Castanho, fundada em 1964 sob a inspiração de escolas experimentais da época, fica num bairro paulistano de classe média. No início, a filosofia da escola não estava no papel. "Tudo era muito informal", conta a diretora Sylvia Gouvêa. As sócias acreditam que educar é preocupar-se com a personalidade do aluno e suas necessidades, buscando o ensino comprometido com aspectos sociais. A Lourenço Castanho trouxe profissionais de outras áreas para dar palestras com o objetivo de se manter atualizada e para ajudar a equipe a entender melhor o público.

Currículo integrado

As diretrizes do ensino são dadas pelo colegiado de cinco diretores pedagógicos. Eles acompanham o andamento em cada área e avaliam, junto com os professores, se o plano está cumprindo as metas gerais. A espinha dorsal do planejamento é atualizada com base nessas avaliações. Em História, por exemplo, os professores listam os conteúdos tendo como referência os PCN, o currículo estadual e os temas que estão em evidência na mídia."Cada um apresenta sua lista ao grupo", explica a professora de História da 6a série Lucila Vannucci Zwar. No ano passado, as turmas da 6a estudaram Império Romano, escravidão e religiões, entre outros tópicos. Como a escola trabalha com eixos temáticos, decidiu-se que a escravidão seria estudada também no Brasil Colônia e na atualidade. A cada passo, a equipe avalia se aquilo que está sendo ensinado está de acordo com os objetivos previstos na proposta pedagógica. O planejamento é constantemente revisto pela equipe. Os professores analisam o aproveitamento dos estudantes, o interesse por um conteúdo e se a aprendizagem provocou mudanças de comportamento (em relação a um preconceito, por exemplo). A cada semana os professores se reúnem, alternadamente, com todos os colegas da mesma série ou com os demais da sua disciplina. Tudo que ali acontece é registrado numa ata pelo coordenador pedagógico. A cada mês ou bimestre, há também uma reunião dos docentes da mesma área com o colegiado de diretores pedagógicos. Foi em uma dessas reuniões, lembra a diretora Sylvia, que se percebeu uma falha: em nenhuma série era dado um conteúdo específico sobre o estado de São Paulo, em que se situa a escola, o que logo foi corrigido.

Características de uma boa proposta pedagógica

Para que o documento de sua escola seja eficaz, ele deve:

- Ser resultado da discussão de toda a comunidade escolar.

- Conter princípios pedagógicos que correspondam ao contexto e à prática da sala de aula dos professores.

- Se adaptar sempre que houver mudanças no público, na realidade da comunidade e, com isso, nos objetivos do ensino.

Características de um bom planejamento

Para que o planejamento contemple aprendizagens para todos, ele deve:

- Operacionalizar os conteúdos fundamentais para a escola.

- Garantir a articulação entre todos os segmentos escolares (desde a Educação Infantil até o Ensino Médio) e entre as áreas de conhecimento.

- Prever tempo para formação docente e para reuniões pedagógicas.

Quer saber mais?

CONTATOS

Escola Estadual de Educação Básica Frei Nicodemos, R. Canoinhas, s/n, 88505-240, Lages, SC, tel. (49) 222-5148

Escola Nova Lourenço Castanho, R. Lourenço Castanho, 273, 04507-110, São Paulo, SP, tel. (11) 3887-5781,www.lourencocastanho.com.br
Madalena Freire, madalenafreire@pop.com.br

BIBLIOGRAFIA

O Projeto Educativo da Escola, Manuel Álvarez (org.), 180 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-7033444, 33 reais

Avaliação e Planejamento, Madalena Freire, Ed. Espaço Pedagógico, tel. (11) 5505-1135, 12 reais

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Publicado em Abril 2005.
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