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De mãos dadas por uma educação melhor

Associar-se a empresas e ONGs é uma boa alternativa para melhorar as condições de aprendizagem. Interessados não faltam, mas é preciso saber construir essa relação sem colocar em risco a autonomia da escola

Maria Olyntho

Apoio privado: parceria para capacitar de professores em Língua Portuguesa ajudou a elevar o Ideb da EE Anita Gayoso, em Teresina. Foto: Edi Vasconcelos
Apoio privado: parceria para capacitar de professores em Língua Portuguesa ajudou a elevar o Ideb da EE Anita Gayoso, em Teresina
Avaliação por desempenho, planejamento estratégico, balanço mensal e gestão participativa. Esses são termos que romperam as fronteiras dos departamentos de recursos humanos das empresas para fazer parte do cotidiano de muitos colégios públicos que hoje colhem os frutos de parcerias bem-sucedidas firmadas com o terceiro setor e a iniciativa privada. No entanto, por trás de uma bom pacto, sempre está um diretor que sabe o que quer para sua escola, consegue ter em mãos todos os dados de desempenho e os índices escolares organizados e, mais do que isso, conduz negociações sem colocar em xeque a autonomia da instituição no desenvolvimento de seus projetos pedagógicos.

Os cinco diretores de escolas públicas ouvidos nesta reportagem foram unânimes ao atribuir a essas características o sucesso das parcerias que firmaram em diferentes realidades. E especialistas em gestão escolar advertem: não dá mais para fechar os olhos para tais possibilidades - que passam longe daquele tipo de oferta de patrocínio de festa junina em troca da divulgação do nome da empresa. Hoje há muitas parcerias com resultados concretos, como a melhoria do desempenho nas avaliações nacionais, a redução da evasão e o aumento nos índices de aprovação.

A EE Anita Gayoso, que atende 304 alunos de Ensino Fundamental em Teresina, é um exemplo de como o apoio da iniciativa privada, desde o fim de 2006, ajudou a aumentar de 2,9 para 3,7 o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). "Não corremos atrás de um parceiro. Fomos procurados via Secretaria de Educação para receber apoio de fora e, desde então, a equipe pedagógica tem decidido em conjunto tudo o que é feito no âmbito escolar", afirma a diretora, Suzana Maria Cavalcante Loiola.

Até o ano passado, Suzana lecionava da 1ª a 4ª série e pôde sentir os impactos da parceria ainda como professora. "Por meio do projeto Qualiescola, discutimos o que era preciso melhorar e passamos a receber capacitação em Língua Portuguesa e Matemática. Semanalmente, tínhamos oficinas que nos permitiam trabalhar de fato com os problemas enfrentados em sala de aula." Após iniciarem a formação, os professores passaram a dar ênfase à melhoria do desempenho de cada aluno, o que incluiu a oferta de programas de reforço e o contato assíduo com os pais. Além disso, o acordo também possibilitou melhorias no espaço físico. "Construímos um refeitório, que não tínhamos, e fizemos uma reforma na parte da frente, coisa que queríamos havia muitos anos", lembra Suzana.

O Qualiescola é um programa desenvolvido pelo Instituto Qualidade de Ensino (IQE) que consiste na capacitação presencial e a distância de gestores e professores de escolas públicas de Ensino Fundamental com foco na melhoria da aprendizagem das crianças. As parcerias sempre são firmadas pela Secretaria de Educação e as escolas não têm nenhum compromisso - a não ser o de melhorar o desempenho nas avaliações nacionais. "Acreditamos no conceito de formação em serviço. Todo o conteúdo que trabalhamos é alinhado aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)", afirma o presidente-executivo do IQE, Horácio Almendra. Financiado por um grupo de 20 empresários, o instituto atua hoje em 78 escolas no Piauí sem fazer o repasse direto de dinheiro para os diretores. "Não damos receita de bolo, mas auxiliamos a fazer os diagnósticos e a pensar como transmitir as habilidades. Sempre garantindo a autonomia da equipe pedagógica", conclui.

Passo-a-passo para o sucesso
Grácia Lopes, coordenadora educacional da ONG Cala-Boca Já Morreu. Foto: Marcos Lima
Grácia Lopes, coordenadora educacional da ONG Cala-Boca Já Morreu
Grácia Lopes, especialista em gestão escolar e coordenadora dos projetos do GENS Educacional e da Organização Não-Governamental (ONG) Cala-Boca Já Morreu, ressalta que, para que a parceria com o terceiro setor ou a iniciativa privada dê certo, o diretor deve ter consciência de seu papel e conhecer o serviço que será prestado. "A escola não pode se abrir para o projeto da empresa, mas esta, sim, tem de alinhar suas propostas ao projeto pedagógico."

"A escola não pode se abrir para o projeto da empresa, mas esta, sim, tem de alinhar suas propostas ao projeto pedagógico."

No caso de uma empresa apresentar uma proposta, diz Gracia, o diretor deve promover um debate com a comunidade escolar sobre o tema. "Chame os pais, funcionários e professores para avaliar quais os resultados esperados e como a empresa pode auxiliar. Você, gestor, precisa ter clareza de que essa não é uma decisão só sua e não basta uma oferta de ajuda para fechar o acordo".

Ilona Becskeházy, diretora executiva da Fundação Lemann - entidade que desenvolve o programa Gestão para o Sucesso Escolar (GSE), uma capacitação on-line para diretores de escolas -, defende as parcerias, mas faz um alerta: "Temos mais de 200 mil escolas públicas no Brasil. Há coisas que precisam ser feitas nas unidades que o Estado só teria condição de fazer em mais de dez anos, então é positivo uma parceria que agilize o processo. No entanto, tudo tem de ser alinhado com a política das Secretarias de Educação e com a real necessidade de cada escola". Ela recomenda um livro produzido pelo Ministério da Educação (MEC) como guia para um bom planejamento (leia o quadro da página 49).

Para Marilene Montarroyos, psicóloga com mestrado em gestão e planejamento organizacional pela Universidade de Madri e diretora de gestão do Instituto de Co-Responsabilidade na Educação (ICE), jamais uma parceria pode ser feita sem que a escola tenha total liberdade no desenvolvimento de seus projetos. O ICE faz um trabalho de recrutamento de empresas que apóiam 51 unidades da rede pública de Pernambuco. "O importante é a empresa se mostrar envolvida com o processo. O mesmo vale para a escola. Nosso instituto seleciona os interessados em participar e já recusamos os que exigiram algo em troca", garante Marilene.

Diretoras que foram à luta
Laboratório equipado em Pernambuco: a aposta em parcerias pôs para funcionar uma escola abandonada pelo poder público. Foto: Eduardo Queiroga
Laboratório equipado em Pernambuco: a aposta em parcerias pôs para funcionar uma escola abandonada pelo poder público
O orgulho da diretora Maria do Socorro Silva, do Centro de Ensino Experimental Escola Técnica do Agreste, em Bezerros, a 110 quilômetros de Recife, é contar para todo mundo que a instituição nasceu de sua incansável busca por parcerias. Há 40 anos na área da gestão escolar, ela lembra que seu maior desafio foi fazer com que o prédio do colégio não se tornasse um elefante branco. A construção tinha verbas federais e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, mas emperrou no desinteresse do município e do estado. Inconformada, Maria do Socorro se juntou a um grupo de voluntários para colocar a edificação em uso: "Fomos atrás de apoio do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), entre outras instituições, e passamos a oferecer cursos rápidos ali", conta. Por muito tempo, os alunos assistiram às aulas sentados no chão.

A construção só foi concluída em 2002 e, em 2005, a equipe articulada por Maria do Socorro conseguiu o apoio da Secretaria de Educação de Pernambuco para oferecer o Ensino Médio. "Começamos com seis turmas. No começo, como não tínhamos verba para a merenda e fomos atrás de parcerias com empresas locais, pois fazíamos questão de que nossa escola fosse de tempo integral e, por isso, precisávamos servir o almoço. Recebíamos ovos e frangos como doação."

A diretora também firmou um pacto com o ICE, que permitiu a montagem de um refeitório profissionalizante, com cursos para a comunidade. O Centro do Agreste hoje colhe os resultados do esforço. "No Exame Nacional do Ensino Médio de 2007, fomos a primeira colocada entre as escolas públicas dos 13 municípios da região. Nossos 855 jovens passam diariamente nove horas em classe", comemora.

Um cenário desanimador
De porta em porta: Nilce conseguiu fazer a comunidade confiar no trabalho realizado na EE Silvânio Brandão, em Belo Horizonte. Foto: Leo Drumond
De porta em porta: Nilce conseguiu fazer a comunidade confiar no trabalho realizado na EE Silvânio Brandão, em Belo Horizonte
Quando Nilce Faria Campos assumiu a direção da EE Silvânio Brandão, em Belo Horizonte, em 2000, ficou assustada com o que viu. "A comunidade estava retirando os estudantes da escola por causa da violência e da depredação. Na época, tínhamos cerca de 300 alunos de 1ª a 8ª série. Estamos no bairro de Lagoinha e temos duas favelas próximas. Os roubos eram constantes e o espaço físico estava todo quebrado."

Nilce decidiu reunir sua nova equipe pedagógica para bater de porta em porta e convencer a comunidade a confiar no trabalho que se propunha a desenvolver. "No começo, não foi fácil. Chegamos a pedir pelo amor de Deus para que eles não tirassem seus filhos daqui", conta. O primeiro passo foi transformar o espaço em um ambiente mais acolhedor. Para isso, decidiu ir atrás de parcerias. "Nem a Secretaria queria investir e corremos o risco de fechar por causa da falta de demanda. Então, fiz um ofício para mais de 30 empresas pedindo ajuda para montar uma sala de informática. Achei que essa era uma forma de trazer a população para a escola. Das 30, apenas uma respondeu e doou 12 computadores", recorda. A diretora, então, partiu em busca de um parceiro para a manutenção das máquinas e conseguiu acesso à internet graças a um programa do MEC. Em 2001, a escola, já com outra cara, abriu turmas de Ensino Médio. "O físico foi mudando e a comunidade se apropriou do espaço escolar. Em 2004, conseguimos cobrir a quadra de esportes e abrir uma sala de vídeo."

Nesse período, a equipe pedagógica constatou a necessidade de oferecer atendimento psicológico para os alunos. "Fui na PUC (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) com um projeto em mãos. Os estagiários começaram a atuar semanalmente conosco e isso trouxe muitos resultados positivos, sobretudo melhoras no desempenho escolar. Esse trabalho deu tão certo que ampliamos o atendimento para os pais. Toda segunda-feira à noite, um grupo se reúne aqui."

Em agosto, a Silvânio começa uma parceria com o Centro Universitário de Belo Horizonte. "O pessoal da faculdade de Pedagogia vai ajudar a equipe, olhar a gestão de fora para dentro. Vamos discutir as insatisfações de cada ator da escola, avaliar os erros e acertos para criar formas de aprimorar a gestão e, com isso, melhorar o desempenho dos alunos. Essa não será uma tarefa fácil", reconhece Nilce. Entre os resultados obtidos em oito anos de gestão, ela destaca a credibilidade. "Não tivemos mais nenhum caso de depredação nem de violência. Onde antes tínhamos poucos alunos, hoje faltam vagas", diz, orgulhosa.

Tudo começou com panfletos
Cara nova: trabalhando junto com comerciantes locais, Aline conseguiu humanizar a Escola Novo Horizonte, em Palmas. Foto: Tharson Lopes
Cara nova: trabalhando junto com comerciantes locais, Aline conseguiu humanizar a Escola Novo Horizonte, em Palmas
A iniciativa de aproximar a escola de seu entorno fez com que Aline Santos da Silva, ao assumir a direção, em 2003, conseguisse mudar o rumo da EE Novo Horizonte, em Palmas. Ela encontrou uma comunidade totalmente afastada do colégio, onde reinava a indisciplina: "A depredação do espaço físico afugentava os alunos. Aquele espaço não era humanizado".

Com a ajuda do comércio local, a diretora produziu panfletos. "Saímos às ruas, visitando as casas dos pais e convidando-os a nos visitar. Os comerciantes ajudaram a financiar tudo. Aos poucos, fomos conquistando a confiança e logo passamos a desenvolver programas de reforço e a abrir a escola nos fins de semana."

Hoje, o colégio atende 1.941 alunos de 1ª a 8ª série, do Ensino Médio e da turma de Educação de Jovens Adultos. Com mais parcerias, desenvolve um projeto de monitoria junto com o Instituto Coca-Cola. Ainda em 2008, terá um programa de aplicação de tecnologia com a Brasil Telecom. "Fico feliz quando ouço as pessoas dizerem que nossa escola nem parece pública. A ligação com os comerciantes foi fundamental. Até hoje, se uma carteira quebra, eles enviam os parafusos e nos ajudam com o que precisamos."

Luz para o fusco
Revolução: Rosângela transformou a escola Francisco Brasiliense Fusco, em São Paulo,
Revolução: Rosângela transformou a escola Francisco Brasiliense Fusco, em São Paulo, "a pior do pedaço", em uma referência positiva
Em 2005, ao assumir pela primeira vez um cargo de diretora de escola pública, Rosângela Macedo Moura não imaginava as conquistas que faria em três anos na EE Francisco Brasiliense Fusco, na periferia de São Paulo. "Percebi que a escola tinha potencial, mas estava toda destruída. Na época, era conhecida como 'a pior do pedaço', com apenas 16 salas e 900 alunos. O primeiro passo foi saber o que a comunidade queria", lembra Rosângela.

A seguir, ela elaborou um projeto ousado, detalhando um projeto para a instituição. Bióloga por formação, ela se preocupava com a saúde das crianças. "Imagina: nossa escola era um pombal gigante e sei o risco que elas correram ao conviver em meio às fezes de pombo. Então, coloquei no papel todas as mudanças físicas e os resultados, inclusive de aprendizagem, que eu esperava alcançar e fui atrás de parceiros."

A escola ganhou o apoio do publicitário Nizan Guanaes e de um grupo de agências de publicidade e comunicação. "O governo do estado envia religiosamente as verbas, mas o valor nunca chega para atender ao nosso ousado projeto. Após firmarmos os acordos, os espaços começaram a nascer: sala de informática com um computador de última geração por aluno, biblioteca, brinquedoteca, laboratórios de ciências, uma nova sala dos professores e um jardim."

Após o fim das reformas, em 2007, o número de salas saltou para 46 e o de alunos mais que dobrou, passando para 1,9 mil. "Se abríssemos mais dez salas teríamos demanda, mas nosso atual desafio é garantir a qualidade. Hoje, os estudantes vestem a camisa, têm orgulho de dizer: ‘Eu sou Fusco’." A diretora explica que o foco é no âmbito pedagógico: "Começamos um programa de formação para que os professores possam participar nos horários de trabalho pedagógico coletivo. Vamos definir metas de melhoria nas avaliações".

Entusiasmada com a experiência de sucesso, Rosângela resume o que os diretores têm de fazer para conquistar parcerias: "Acreditar no projeto, ter foco e clareza em relação às metas e ir à luta sem medo de ousar".

Em busca de apoio

Ilona Becskeházy avalia que muitos gestores ainda encontram dificuldades em organizar os dados de sua escola e elaborar um planejamento estratégico baseado em metas e objetivos que possam justificar a necessidade de parcerias. É nesse contexto que ela indica o Plano de Desenvolvimento da Escola, material elaborado pelo Ministério da Educação, que traz em linguagem simples o passo-a-passo da realização de um planejamento estratégico. O material está disponível aqui.

 

 

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Publicado em , Novembro 2008.
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