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Lana de Souza Cavalcanti fala sobre o ensino de Geografia com novas abordagens

Para a especialista, explicar conceitos geográficos não basta. O educador precisa de reflexão e atualização constantes

Beatriz Vichessi, de Goiânia

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Temas cotidianos, como as questões extraídas do noticiário, vão além do conteúdo previsto no currículo. Como dar conta das duas coisas?
LANA
É uma questão de prioridade. Quando o professor tem clareza de para que serve a Geografia e conhece seu contexto, ele sabe o que é essencial. Além disso, não se deve ter a pretensão de esgotar um assunto. O conhecimento geográfico e seus conteúdos vão e voltam várias vezes ao longo do Ensino Fundamental e do Médio. A Região Nordeste do Brasil, por exemplo: é um assunto que pode ser enfocado pelo menos quatro vezes nesse período. Se o professor quiser interromper esse conteúdo para explorar um episódio momentâneo, como um terremoto que virou manchete de jornais e revistas, não há probema. O educador precisa estar ciente de que não tem de terminar o ano na última página do livro didático. Ele precisa cumprir a programação, é claro. Mas não necessariamente tem de esgotar todos os temas.

Faz sentido pedir a cópia de mapas nas aulas de Geografia?
LANA
Sim, desde que o objetivo seja levar os estudantes a aprender algo, como o nome de acidentes geográficos. O trabalho com cartografia é importante porque, para aprender a fazer uma leitura geográfica, a primeira pergunta que se faz é: "Onde?". Essa é uma habilidade de representação da realidade que precisa ser desenvolvida ao longo dos anos escolares. Mas isso não significa decorar mapas. O que importa é saber consultá-los.

Como a disciplina pode ajudar a entender o mundo globalizado?
LANA
Não há enfoques específicos para a abordagem de temas geográficos. Indicações recorrentes nas pesquisas sobre o ensino de Geografia, no entanto, apontam para a necessidade de ter o lugar em que se vive como uma referência constante na aprendizagem. Há vários temas geográficos que são mundiais, têm interligações e ressonância globais, mas apresentam ocorrências específicas em certos lugares. Ao trabalhar determinado tema - um conflito territorial que ocorre em outro continente, por exemplo -, recomenda-se buscar a ligação desse fenômeno com a experiência cotidiana dos alunos, destacando elementos correlatos em outros conflitos, que sejam mais próximos da sua vivência. Nessa abordagem, há uma articulação dialética entre escalas locais e globais na construção de raciocínios espaciais complexos.

Há quem defenda que, primeiro, é preciso trabalhar a ideia de rua para depois seguir com a de bairro, de cidade e assim por diante, até chegar a conceitos macro, como o de continente. De onde vem essa concepção?
LANA
Recomenda-se uma articulação entre escalas ao trabalhar conteúdos geográficos, diferente dessa abordagem que vai do ambiente local ao global, ou do mais imediato ao mais distante. Essa concepção é questionada desde o fim do século 20, mas ainda não foi superada. A abordagem multiescalar implica trabalhar, desde o primeiro ano, o lugar de vivência imediata das crianças (a casa, o bairro, a escola) com a ideia de que os espaços vivenciados por elas têm a ver também com a produção de espaços maiores (a cidade, o estado, o país e o mundo) porque são resultantes de um processo histórico e social mais amplo. Isso quer dizer que determinado lugar não está isolado e não se encerra nele mesmo. O ideal é trabalhar respeitando os níveis de abstração e de cognição da turma, sem dar definições formais, mas apontando evidências de um lugar como localização de algo que está ligado a processos e realidades globais.

Muitos conteúdos tratados pela Geografia mudam rapidamente devido a conflitos armados, disputas fronteiriças e emancipações políticas, por exemplo. Como o professor pode se manter atualizado?
LANA
Acredito e trabalho com ideias que integram teoria e prática, inter-relacionam ensino e pesquisa, formação continuada e autoformação. Os dois últimos itens têm tudo a ver com essa questão. Qualquer profissional deve ter acesso a um processo contínuo de capacitação, e isso não significa pensar apenas nos tradicionais cursos de aperfeiçoamento, especialização, mestrado e doutorado. A atitude do educador diante do mundo deve ser sempre investigativa, questionadora e reflexiva, pois os conhecimentos com os quais ele lida em seu exercício profissional estão em permanente mutação. O princípio da autoformação, por sua vez, enfatiza a ideia de que ninguém forma o outro, mas todos se formam concomitantemente. É um processo reflexivo e contínuo a cargo do próprio profissional. Sendo assim, defendo que ele mesmo persiga essa formação contínua. Com o apoio da escola, é claro - ela precisa reservar tempo e espaço para a aprendizagem coletiva e individual dos seus docentes. Mas a responsabilidade por esse processo também tem de ser assumida pelas instituições de Ensino Superior. É fundamental que ocorra um intercâmbio entre a universidade e a rede básica de ensino para que o educador se atualize constantemente em relacão às novidades da produção acadêmica.

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CONTATO
Lana de Souza Cavalcanti

BIBLIOGRAFIA
Geografia, Escola e Construção de Conhecimentos
, Lana de Souza Cavalcanti, 192 págs., Ed. Papirus, tel. (19) 3272-4500, 31 reais
Geografia Escolar e a Cidade: Ensaios Sobre o Ensino de Geografia para a Vida Urbana Cotidiana, Lana de Souza Cavalcanti, 192 págs., 37 reais 

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 238, Dezembro 2010. Título original: "A Geografia deve ser nutrida com novas abordagens"
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