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Da intenção à ação

Planejamento é o primeiro (e essencial) passo para dar início ao trabalho em sala de aula e definir aonde se quer chegar

Ronaldo Nunes

Fotos: Marcos Rosa
Fotos: Marcos Rosa

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Especial

Se o fim do ano é época de avaliações, o começo é de projeções. É hora de planejar a temporada, (re)pensar a escola e sua missão, definir a atuação dos docentes e organizar as finalidades a atingir. O planejamento, nesse contexto, não se restringe à listagem de conteúdos que você pretende ministrar em sua disciplina. Ele precisa estar inserido no plano global da escola, que inclui o papel social, as metas e os objetivos dela. E, evidentemente, não se pode esquecer que (nas redes públicas) cada unidade faz parte de um sistema maior, ligado às secretarias municipais e estaduais de Educação, que também determinam objetivos a cumprir.

Celso Vasconcellos, diretor do Centro de Pesquisa, Formação e Assessoria Pedagógica Libertad e autor de livros sobre o assunto, destaca que a elaboração do planejamento tem como elementos básicos a finalidade, a realidade e o plano de ação. "Nessa hora o professor tem de assumir seu papel, pois o planejamento é uma organização de intencionalidades", diz.

Finalidade é uma palavra crucial na opinião de Danilo Gandin, do Instituto Latino-Americano de Planejamento Participativo e autor de Planejamento na Sala de Aula. Ele chama essa etapa de o "para quê" do trabalho docente. "Todo professor deve aproveitar esse momento de reflexão, no início do ano, para sair do nível do 'como e com o que fazer', que estão ligados aos conteúdos, para pensar no 'que fazer e para quê'", defende.

Para ajudar a organizar essa etapa tão importante, NOVA ESCOLA lançou uma edição especial integralmente dedicada ao planejamento escolar. Já nas bancas, por 5,40 reais, ela traz reportagens, entrevista, artigo e uma série de textos detalhando, disciplina por disciplina, como montar um bom plano de ação, com foco nas atividades do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental.

Na revista, é possível revisar os principais conceitos sobre o tema, como a importância de levar em conta a realidade do entorno da escola. Ou seja, considerar também os aspectos sociais da comunidade, os problemas e as necessidades locais e, claro, a diversidade cultural, de vivência e de conhecimento entre os alunos.

Por isso, é comum o planejamento feito nas primeiras semanas de trabalho (sem os estudantes) sofrer modificações assim que as aulas começam - em razão das características específicas de cada turma. "Mesmo um professor com experiência de Magistério precisa se dedicar ao planejamento anual, pois não se trata só de rever os conteúdos. Há toda essa série de variáveis", pontua Gandin.

Fotos: Marcos Rosa (esq.) e Paulo Vitale
Fotos: Marcos Rosa (esq.) e Paulo Vitale

A leitura e a escrita como foco em todas as disciplinas

No caso específico dos professores do 6º ao 9º ano, independentemente da disciplina, é essencial se dedicar à questão da leitura e da escrita - com espaço para diferentes tipos de atividade (leia mais no quadro abaixo). Segundo Stella Bortoni, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), os testes nacionais (como a Prova Brasil) vêm mostrando que muitos estudantes concluem o Ensino Fundamental sem dominar o idioma no nível esperado. Ela destaca ainda a necessidade de envolver conhecimentos matemáticos, outra deficiência que está cada vez mais evidente em nossas salas de aula. "Saber ler e escrever e dominar conceitos básicos de Matemática é o ponto de partida para que o aluno avance em todas as disciplinas."

Branca Jurema Ponce, professora de pós-graduação do Programa de Educação e Currículo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), concorda. "As pesquisas indicam que muitos dos garotos de 8º e 9º anos não sabem ler direito. E isso é uma tortura! Você já pensou em ficar anos da sua vida num lugar em que tudo é intermediado pela leitura e pela escrita e não sabe ler? É uma grande violência! Todos os jovens têm o direito de sair da escola em condições de desenvolver um raciocínio com começo, meio e fim, sabendo expor ideias e argumentar. A cidadania passa por isso. Como exercer a cidadania sem saber ler e escrever bem?", indaga ela.

Montando um plano anual

A montagem de um plano anual de trabalho na escola é um grande desafio, que pode acabar mal mesmo se for construído sobre bases (aparentemente) sólidas e ampla participação da comunidade escolar. Um erro recorrente é organizar uma mera sequência de conteúdos para determinado período, aliada a alguns projetos didáticos. "É preciso alinhar tudo o que vai ser realizado, combinando sequências didáticas, atividades permanentes e projetos didáticos", explica Regina Scarpa, coordenadora pedagógica de NOVA ESCOLA. Os projetos didáticos permitem uma organização mais flexível do tempo: segundo o objetivo que você persegue, ele pode ocupar alguns dias ou se estender por vários meses. Nos projetos de longa duração é possível compartilhar com a turma o planejamento mais amplo das tarefas e sua distribuição no tempo: uma vez fixada a data de conclusão do produto final, fica fácil discutir um cronograma com base nas etapas a percorrer, nas responsabilidades que cada grupo deve assumir e nas datas a respeitar para cumprir o prazo previsto. Diferentemente dos projetos, que se orientam para a elaboração de um produto final (tangível), as sequências didáticas têm como propósito ensinar um conteúdo específico, de forma encadeada e sistemática. Já as atividades permanentes, ou habituais, têm sua extensão programada com regularidade. Podem ser desenvolvidas todas as aulas - ou em frequência semanal, quinzenal ou mensal - porque são rotinas criadas para que os estudantes construam a familiaridade com determinados conteúdos.

Branca reconhece que construir um bom plano de ensino é uma tarefa complexa, mas aponta o caminho. "É preciso planejar pensando no que os alunos têm de aprender, começar com uma avaliação prévia do que a turma conhece e, só então, desenvolver uma trajetória que envolva todos os estudantes." Ela explica que é relativamente simples elaborar um documento "primoroso do ponto de vista lógico e redacional" que, contudo, ao ser colocado em prática, na sala de aula, chega rapidamente ao fracasso - por não levar em conta a realidade da garotada. O problema, esclarece Branca, é que geralmente a culpa é atribuída aos próprios jovens. "Eu ouço muita gente dizer que o currículo é ótimo, mas o aluno é ruim. Isso é um enorme equívoco. O documento não pode ser bom se ignora o público para o qual é dirigido."

Celso Vasconcellos destaca que, ao elaborar o planejamento, todo professor deve ter em mente que ele inevitavelmente será (pouco ou muito) modificado - mesmo que tenha boas reflexões sobre os três aspectos fundamentais: finalidade, realidade e plano de ação. "Isso ocorre porque os processos de ensino e aprendizagem são etapas distintas. A aprendizagem só ocorre quando são oferecidas condições de estudo para o aluno, com atividades que promovam um avanço contínuo e estimulante", conclui.

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Publicado em NOVA ESCOLA Edição 229, Janeiro/Fevereiro 2010.
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